Por Steve Johnson — Financial Times
31/05/2022 05h02 Atualizado 31/05/2022
A Neuberger Berman e alguns dos maiores investidores do mundo estão ingressando no setor de fundos negociados em bolsas de valores (ETFs) pela primeira vez, buscando se posicionar em um setor que vem crescendo rapidamente e ao mesmo tempo em que os gestores ativos sofrem pressão para justificar as taxas que cobram. A casa de investimentos dos EUA faz parte de um grupo que inclui Morgan Stanley, SEI e Matthews Asia – que juntos gerenciam US$ 3 trilhões -, que recentemente lançaram ou sinalizaram a intenção de estrear os seus ETFs.
Essas instituições seguem outros pesos-pesados que se converteram recentemente, como a T Rowe Price, a Dimensional Fund Advisors e a Federated Hermes, na corrida para o lançamento de ETFs à medida que esse produto rapidamente ganha participação de mercado à custa dos tradicionais fundos mútuos.
O lançamento desses ETFs acontece em um cenário de queda nas taxas dos fundos, em mais um sinal da competição que os gestores ativos estão enfrentando à medida que os investidores aproveitam a proliferação dos produtos passivos, que são mais baratos – o ETF é mais barato para um gestor administrar do que um veículo antigo que exige a participação ativa. Essas economias geralmente são repassadas para o investidor final, juntamente com eficiência tributária superior – nos EUA, ao menos -, o que aumenta seu apelo.
Nos EUA, os ativos dos ETFs aumentaram 185%, para US$ 7,2 trilhões, nos cinco anos até 2021, segundo o Investment Company Institute, enquanto que os ativos dos fundos mútuos cresceram 65%, para US$ 27 trilhões, no mesmo período. Globalmente, os ETFs mais que triplicaram, para US$ 10,1 trilhões, desde 2015, segundo a consultoria ETFGI.
O Morgan Stanley, que tem US$ 1,4 trilhão em ativos sob administração, é o maior fornecedor de fundos a não oferecer ETFs. No entanto, um memorando interno de Dan Simkowitz, diretor de gestão de investimentos do banco, disse que ele tomou uma “decisão estratégica” de lançar este ano uma plataforma de ETFs multiativos com estratégias ativas e sistemáticas. O Morgan Stanley divulgou o memorando, mas não quis fazer comentários.
Para a AB, a chegada iminente de seus primeiros ETFs nos EUA será o ápice de uma jornada de 12 anos. A instituição solicitou o lançamento de ETFs de ações em 2010 e posteriormente conseguiu a aprovação da Securities and Exchange Commission (SEC), mas os fundos nunca foram lançados. Enquanto a AB tergiversava, Cathie Wood tomou a decisão de partir em 2014 e estabeleceu a Ark Invest, que desde então lançou uma série de ETFs. Mas a AB parece ter reacendido seu entusiasmo anterior pela ideia e este mês solicitou a autorização para lançar os ETFs Ultra Short Income e Tax-Aware Short Duration, de administração ativa.
Noel Archard, que foi recrutado da State Street Global Advisors em fevereiro para comandar o esforço, disse que um “evento significativo” na conversão final da AB para os ETFs foi a decisão tomada pela SEC em 2019, que simplificou e acelerou o processo de aprovação dos ETFs, inclusive dos gerenciados ativamente. “Ela reduziu uma das barreiras à entrada de muitas firmas que vinham pensando em entrar nos ETFs”, disse Archard. “Temos uma pegada predominantemente ativa. Essa mudança nas regras levou a outra análise sobre se deveríamos introduzir os ETFs ativos.”
Archard disse que os dois ETFs de renda fixa iniciais da AB deverão ser listados no “fim do terceiro trimestre ou começo do quarto” e que planeja “vários produtos de ações”. Embora o lançamento esteja começando nos EUA, Archard disse que a AB “não está se restringindo” a qualquer região. Seus ETFs iniciais terão uma estrutura totalmente transparente, o que é essencial em mercados como a Europa, onde as estruturas de blindagem de portfólio semi e não transparentes, que são comuns nos EUA, ainda não foram aprovadas.
Kevin Barr, diretor da unidade de gestão de investimentos da SEI, disse que a companhia está “em busca de algo que seja diferenciado”. “Realmente não há muita necessidade de mais ETFs passivos”, acrescentou ele.
Os primeiros frutos desses esforços são quatro fundos de ações de empresas de grande capitalização de mercado administrados ativamente com base em fatores, lançados nos EUA em 18 de maio. A SEI vem executando essas estratégias desde 2013 em contas gerenciadas separadamente, que estão disponíveis apenas para instituições e indivíduos ricos.
Embora a SEI inicialmente esteja se concentrando no mercado americano, Barr disse que ela está “analisando ativamente” a possibilidade de lançar ETFs ativos na Europa, com a necessidade de transparência total não sendo novamente um impedimento. “Estamos confortáveis com a transparência. Não se trata de uma abordagem passiva em que alguém será capaz de arbitrar”, acrescentou ele.
A Neuberger Berman estreou seus três primeiros ETFs em abril deste ano. As estratégias de ações temáticas gerenciadas ativamente cobrem os ETFs Connected Consumer, o Carbon Transition and Infrastructure e o Disrupters.
O grupo baseado em Nova York já administra US$ 18 bilhões – do total de US$ 460 bilhões – em fundos temáticos, e Hari Ramanan, seu diretor de investimentos e estratégias globais de análises, citou o “potencial de eficiência tributária” para a decisão de ampliar a faixa para os ETFs.
A Matthews Asia também está seguindo o caminho das ações transparentes e ativas. Em abril, a instituição solicitou autorização para lançar três ETFs voltados para os mercados emergentes, inovadores asiáticos e a China, que se baseiam em seus fundos mútuos existentes nessas áreas.
“Acreditamos que os fundos mútuos continuarão proporcionando benefícios para muitos investidores, mas temos visto um interesse crescente dos intermediários financeiros e investidores finais que querem aproveitar os benefícios que os ETFs ativos oferecem”, disse Jonathan Schuman, diretor global de distribuição da Matthews na Ásia. A instituição pode ter identificado uma lacuna no mercado, dada a relativa falta de ETFs com foco na Ásia e China no momento.
Mas todos os retardatários dos ETFs poderão ter de encontrar seus próprios nichos para se firmar numa indústria dominada por BlackRock, Vanguard e State Street, que juntas ainda respondem por mais de três quartos do mercado dos EUA. Quando perguntado sobre como as ofertas da SEI poderão desafiar os três líderes do mercado, Barr respondeu: “Não vemos as pessoas oferecendo esses produtos. São produtos diferenciados.”
Fonte: Valor Econômico
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