O chefe de estratégia de mercado de um banco de investimento de Londres tem um alerta contundente para os investidores: a onda de investimentos em inteligência artificial (IA) pode chegar ao fim em breve, o que poderia desencadear a queda de mercado mais severa desde a crise financeira global.
As ações atingiram níveis recordes em todo o mundo este ano, impulsionadas em parte pelo otimismo com o aumento dos gastos em infraestrutura de IA. No entanto, Joachim Klement, da Panmure Liberum, afirmou que seu cenário-base prevê o colapso dessa tendência já em 2027, levando as ações a uma forte desvalorização.
“Minha convicção principal é que a bolha da IA estourará em 2027 ou 2028, ou seja, em algum momento nos próximos dois anos”, disse Klement em entrevista. O fluxo de caixa livre das empresas de computação em hiperescala (“hyperscalers”) está amplamente esgotado, enquanto o custo da dívida aumenta rapidamente e se torna proibitivo para essas companhias, observou ele.
A projeção de Klement de 5 mil pontos para o S&P 500, principal índice do mercado de ações americano, ao final de 2027 implica uma queda de 36% em relação aos níveis atuais. Essa é, de longe, a previsão mais pessimista entre sete outros estrategistas acompanhados pela Bloomberg, que, em média, projetam uma potencial alta de 14%. Klement prevê que o índice europeu Stoxx 600 cairá para 430 pontos, mais de 30% abaixo dos níveis atuais.
Após ter acertado ao adotar uma postura otimista em relação às ações europeias no ano passado, o estrategista está entre os primeiros a prever o fim do atual rali do mercado de ações. Ainda em meados de setembro, sua principal premissa era a de que o S&P 500 atingiria 8,3 mil pontos até o final do próximo ano.
Essa mudança de perspectiva reflete a preocupação de Klement de que uma inflação persistente — e o consequente aumento no custo do capital para financiar investimentos — possa comprometer o “boom” de infraestrutura voltada para a IA.
Isso ecoa um alerta feito nesta semana por Rohit Sipahimalani, diretor de investimentos da Temasek International, de que uma reversão nas apostas relacionadas à IA é um risco fundamental para os mercados globais.
Os gastos de capital em data centers por parte de grandes provedores de nuvem em 2026 podem mais do que dobrar em relação aos níveis do ano passado, atingindo US$ 713 bilhões, segundo estimativas da Bloomberg Intelligence. Esse número deve crescer ainda mais no próximo ano, embora em ritmo mais lento, e tem sustentado muitas das projeções de lucros para empresas de tecnologia dos EUA.
“É uma situação em que as pessoas estão focadas em uma única coisa: lucros, e especificamente os lucros do setor de tecnologia”, disse Klement, que iniciou sua carreira no UBS há mais de duas décadas. “E elas justificam qualquer obstáculo macroeconômico, de crédito ou de outra natureza com essa narrativa.”
Estrategistas do Citigroup afirmaram nesta semana que lucros sólidos em 2027 podem sustentar novos ganhos para as ações globais, apesar das taxas de juros mais altas e dos riscos geopolíticos.
Klement reconhece que sua previsão de baixa pode ser prematura. O índice Stoxx 600 encerrou o ano passado muito próximo de sua meta (que estava acima da média do mercado), e ele continua sendo o estrategista mais otimista entre os monitorados pela Bloomberg para o Stoxx 600 até o final de 2026, prevendo ganhos de cerca de 10% para o índice de referência europeu. Sua perspectiva para as ações dos EUA neste ano também é otimista.
“Estou começando a alertar as pessoas hoje sobre algo que acredito que possa acontecer daqui a seis ou nove meses”, disse ele.
Em vez de aconselhar os clientes a vender agora, o estrategista recomenda que eles elaborem planos de contingência e ferramentas de monitoramento de “timing” que ajudem a identificar o início de uma forte queda no mercado. A última vez que o S&P 500 caiu abaixo da média móvel de 200 dias foi em março.
Sua principal recomendação é “adotar uma postura totalmente defensiva” assim que o S&P 500 cair abaixo da média móvel de 200 dias — um indicador técnico que calcula a média dos preços de fechamento do índice para ajudar a identificar tendências de mercado de longo prazo. Nesse cenário, ele defende a escolha de setores ultradefensivos, incluindo ações de empresas dos ramos alimentício, de tabaco e farmacêutico.
“O que digo às pessoas é que agora é a hora de se preparar”, afirmou Klement. “Agora é o momento de elaborar planos de contingência para quando o mercado entrar em um ciclo de baixa.”
Fonte: Valor Econômico
