O volume recorde de R$ 105 bilhões negociado na Bolsa na segunda-feira, após o primeiro turno das eleições no Brasil, pode ser apenas uma prévia de um fluxo maior de capital estrangeiro e abrir espaço para novas ofertas subsequentes de ações, sobretudo de operações grandes e mais líquidas.
A avaliação é de Fábio Nazari, sócio de Equity Capital Markets do BTG Pactual, que participou ontem do painel sobre mercado de capitais no Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), realizado em São Paulo.
“Eu não me lembro de ter visto um volume tão grande em único dia na bolsa”, afirmou Nazari.
Flávio Bolsonaro (PL) venceu o primeiro turno da eleição presidencial com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% obtidos por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com uma diferença de apenas 2,2 milhões de votos separaram os dois candidatos.
Segundo ele, o investidor global pode até avaliar papéis específicos, mas, em momentos de disrupção, tende a comprar os ativos disponíveis, movimento que beneficia primeiro as ações mais líquidas.
Apesar do salto no início da semana, a bolsa registrou dois fechamentos em queda e segue operando em baixa hoje.
O Ibovespa B3, principal referência do mercado acionário brasileiro recuou 0,74% ontem, com um volume negociado R$ 56,8 bilhões. Dessa vez, o movimento também refletiu um cenário externo menos favorável aos ativos de bolsa e investidores devolveram parte da valorização das ações da segunda-feira.
Nazari considera que quando houver maior clareza sobre a posição de um novo governo em relação ao mercado, será possível medir o apetite efetivo dos investidores, principalmente os estrangeiros.
Na rodada desta semana, os papéis mais sensíveis aos juros foram os que mais reagiram, segundo Nazari. Entre os setores citados que estão no radar do mercado atualmente ele citou infraestrutura e serviços de utilidade pública, como energia e saneamento, e que concentraram diversas ofertas subsequentes de ações.
Nova janela
No início de uma nova janela de emissões, seja via follow on ou novas ofertas públicas iniciais (IPOs), a tendência é que os investidores priorizem empresas de grande porte e ações com maior liquidez, segundo Nazari. Posteriormente, o interesse destes investidores pode migrar para as companhias de média a baixo valor de mercado.
Em 2026, houve um único IPO na bolsa, que foi o da Compass, Compass Gás e Energia levantou R$ 3,2 bilhões em maio, e oito operações de follow-ons, que são as ofertas subsequentes de ações B3 movimentaram aproximadamente R$ 22 bilhões.
O IPO da Compass aconteceu no âmbito da estratégia de desalavancagem e reestruturação de capital da sua controladora Cosan. A holding também estava empenhada em reestruturar o passivo da Raízen, a outra subsidiária da Cosan, que está em recuperação extrajudicial.
Na avalição de Nazari, o movimento de retomada das operações no mercado vai refletir, em grande parte, iniciativas para reforço do balanço de empresas que precisam reduzir o endividamento mais rapidamente, já que a queda dos juros tende a ser gradual.
“Quando a Selic se aproximar de 10%, a demanda dos fundos locais poderá ganhar força, embora o mercado ainda deva se apoiar fortemente nos investidores estrangeiros”, afirmou Nazari.
No mesmo painel, Raphael Giovanini, superintendente de Desenvolvimento de Mercado para Emissores da B3 e vice-coordenador da Comissão Jurídica do IBGC, afirmou que a Bolsa está preparada para absorver um eventual aumento do volume de operações.
“A B3 está preparada para o volume que pode chegar. Acreditamos na evolução do mercado de renda variável daqui para a frente”, disse Giovanini. Ele também citou o IPO da Compass e o montante captado por meio de follow-ons como sinais desse movimento.
Giovanini ressaltou que a atuação da B3 vai além do mercado de ações e inclui apoio aos clientes em toda a jornada de captação. Segundo ele, o estoque de debêntures alcançou R$ 1,47 trilhão no período, alta superior a 20% em relação ao segundo trimestre de 2025.
“A B3 não se limita à renda fixa ou à renda variável. Os leilões de concessões também passam pela Bolsa”, afirmou.
No primeiro semestre de 2026, foram realizados 26 leilões, que resultaram em R$ 29,5 bilhões em investimentos contratados, de acordo com Giovanini.
Para o executivo, a retomada da renda variável tende a ser intensa.
“Entre 2019 e 2021, vivi esse boom de ofertas e IPOs, que veio com muita força”, lembrou. Agora, ele considera que bancos, B3 e escritórios de advocacia precisam unir forças para se preparar para o movimento que se desenha, afirmou Giovanini.
Fonte: Capital Aberto
