O dinheiro estrangeiro que inundou o mercado de ações doméstico até a primeira quinzena de abril secou e, aos poucos, o bom humor com os ativos brasileiros tem ficado para trás. Nos últimos 30 dias, o investidor não residente aportou recursos na bolsa em apenas duas sessões, em montantes quase simbólicos e, somente em maio, os saques totalizam R$ 11,4 bilhões, numa possível sinalização de que o rali das ações brasileiras chegou ao fim.
A mudança no humor do estrangeiro já havia sido apontada pelo Intraday no início da semana, mas se intensificou. Não à toa, o Ibovespa se afastou do nível recorde de 199 mil pontos para ficar abaixo dos 180 mil pontos na sessão de ontem.
Do início do ano ao pico observado em 14 de abril, o mercado de ações local presenciou a entrada de R$ 69 bilhões, quase três vezes o valor que ingressou em todo o ano de 2025 (R$ 25,4 bilhões) de investidores estrangeiros, segundo dados da B3Cotação de B3. Desde 15 de abril, contudo, foram sacados R$ 23,9 bilhões — pouco mais de um terço do volume que havia entrado na bolsa em 2026 — e, nesse período, houve aportes em apenas duas sessões: 20 de abril, quando entraram R$ 32 milhões, e 8 de maio, com ingresso líquido de R$ 118,8 milhões.
“O humor ficou mais negativo”, destacam os estrategistas David Beker e Paula Andrea Soto, do Bank of America, após uma rodada de conversas com investidores em Londres e Paris nos últimos dias.
“As preocupações com o cenário externo, combinadas com os recentes desdobramentos políticos na região, estão levando os investidores a adotar uma postura mais cautelosa. Há algumas semanas, os clientes aguardavam o fim da guerra para aumentar a exposição à América Latina. Agora, a principal questão é se será necessário reduzir ainda mais a exposição à região”, afirmam os profissionais do BofA em nota enviada a clientes.
Em meados de abril, era enorme o otimismo dos agentes externos com o Brasil, como relatou o Intraday diversas vezes, especialmente durante os encontros de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI). O país era considerado um beneficiário relativo do cenário da guerra, já que é exportador líquido de petróleo, rico em recursos naturais e mantém distância geográfica do conflito. Além disso, com as taxas de juro real mais altas do mundo, a proximidade do ciclo de cortes na Selic era considerada outro atrativo para as ações domésticas.
De lá para cá, no entanto, o humor do mercado mudou de forma decisiva. A ausência de uma resolução rápida para a guerra no Golfo Pérsico impôs um piso elevado para os preços do petróleo, que vêm exibindo dificuldade em operar abaixo dos US$ 100 de forma sustentável. Com isso, os impactos na inflação vêm sendo sentidos ao redor do mundo e, temendo efeitos secundários, boa parte dos mercados desenvolvidos já começa a precificar elevações de juros por parte dos bancos centrais, ao mesmo tempo em que a rotação para ações de tecnologia não favorece o Brasil.
“Embora ainda não haja clareza sobre a duração da guerra, os clientes acreditam que o estrago já foi feito”, dizem os estrategistas do BofA. “Os investidores com quem nos reunimos destacaram preocupação com a alta dos juros globais e seus potenciais impactos sobre moedas e fluxos para a América Latina”, enfatizam Beker e Soto. Eles notam também que há uma pressão adicional sobre os bancos centrais da região e que, mesmo que o processo de redução da taxa Selic continue no Brasil, “a magnitude dos cortes dificilmente proporcionará alívio relevante para o setor corporativo”.
Além disso, os lucros trimestrais das empresas de tecnologia e ligadas à inteligência artificial foram exponenciais e fora da curva para padrões históricos, o que contribuiu para a reversão dos fluxos observados no início do ano. Isso sem mencionar a proximidade das eleições e recentes desdobramentos políticos locais, que ampliaram a percepção de risco entre os investidores e trouxeram uma nova onda de volatilidade aos mercados locais.
Diante do novo panorama global para os mercados, vêm crescendo as discussões sobre se o rali das ações brasileiras ainda tem força para prosseguir. Segundo o chefe de ações para América Latina da Marex, Andre Suaid, “a festa parece estar entrando em pausa”.
“A alta das ações de tecnologia e ligadas à inteligência artificial continuou acelerando, concentrando ainda mais os fluxos globais de capital em ações americanas. As expectativas de pressões inflacionárias persistentes e de juros elevados por mais tempo também pesaram de forma ampla sobre os mercados emergentes, apertando as condições financeiras e limitando o apetite dos investidores por risco fora dos EUA. A alta da bolsa brasileira está, de fato, em risco”, enfatiza.
O chefe da mesa de renda variável da Warren Investimentos, Ricardo Maluf, lembra que uma parte importante do fluxo que veio para as bolsas da América Latina neste ano tinha um componente mais tático, ao se apoiar na diversificação para fora do dólar, nos temores relacionados ao capex de inteligência artificial, nos “trades” eleitorais e, ainda, em um movimento defensivo ligado ao cenário geopolítico, “até porque a nossa bolsa tem um peso grande em bancos e commodities e funciona relativamente como um ‘porto seguro’ nesse ambiente”.
A reversão desse movimento, na avaliação de Maluf, ocorre na esteira de uma perda de intensidade marginal dos conflitos geopolíticos e de uma retomada do foco nos fundamentos globais, principalmente nas expectativas de lucro ligadas a empresas de tecnologia, que voltaram ao radar dos investidores. “Isso acaba atraindo fluxo novamente para os EUA e para a Ásia”, enfatiza o executivo.
Segundo a equipe de ações do J.P. Morgan, liderada por Emy Shayo Cherman, embora o EWZ, principal fundo de índice de ações brasileiras em Wall Street, esteja em queda de 4% desde o início da guerra — depois de ter subido 8% mesmo em meio ao conflito —, os eventos políticos do Brasil dos últimos dias não oferecem uma oportunidade de entrada.
“As principais razões por trás da queda dos mercados brasileiros são mais externas do que internas. Acreditamos que os investidores precisariam da reabertura do Estreito de Ormuz, de preços mais baixos do petróleo e de um recuo dos juros dos Treasuries [títulos do Tesouro americano] para voltar a comprar. Para os investidores estrangeiros, o risco de queda é maior, considerando que o real parece assimétrico para o lado de apreciação”, afirmam Emy Shayo Cherman e Cinthya Mizuguchi.
A equipe do J.P. Morgan monitorou episódios dos últimos anos com saídas de recursos superiores a R$ 10 bilhões do Brasil em uma janela móvel de 15 dias. “Encontramos 12 episódios de retiradas dessa magnitude ou maiores, dos quais dois ocorreram no início da pandemia. As saídas durante a covid foram as que duraram mais tempo e registraram os maiores volumes de retirada. Todos os demais episódios foram muito mais curtos, com uma duração semelhante à atual. Assim, se a história servir de guia, a saída de recursos pode estar chegando ao fim.”
As executivas, no entanto, ponderam que outros episódios não tinham ocorrido logo depois de uma entrada tão grande de capital quanto a deste ano. “Considerando o fluxo extraordinário observado até 15 de abril, o volume das retiradas também pode acabar sendo maior que o padrão histórico.”
Fonte: Valor Econômico
