Economia mundial tem dependência crescente das florestas – ativos que representam riqueza global de US$ 7,5 trilhões apenas em produtos
Por Sergio Adeodato — Para o Valor, de São Paulo
21/09/2022 05h04 Atualizado há 6 horas
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Cena um: no início da temporada de pesca do pirarucu, em setembro, o agente ambiental Henrique Cunha e dezenas de jovens de comunidades do Médio-Juruá, no Amazonas, se mobilizam na contagem do pescado na natureza, necessária ao manejo sustentável da espécie cuja carne é apreciada por chefs de cozinha e o couro utilizado em acessórios de luxo pela indústria da moda.
Cena dois: nas metrópoles brasileiras, caixas de suco e leite são separadas após o consumo nas residências e coletadas para reciclagem, movimentando os negócios de cooperativas de catadores, como a rede Centicoop, liderada por Aline Sousa da Silva no Distrito Federal, com geração de renda e serviços ambientais em benefício de quem vive nas cidades.
Leia aqui a íntegra do caderno especial Florestas
Em ambas as cenas, um ponto em comum: a floresta, tanto a natural que protege lagos amazônicos e fornece o pirarucu, quanto à plantada com árvores de eucalipto ou pinus, origem do papel e papelão que compõem as embalagens. Da construção civil à produção de energia, alimentos, bebidas, cosméticos e medicamentos, é crescente a dependência da economia em relação às florestas – ativos que representam uma riqueza global de US$ 7,5 trilhões apenas em produtos, turismo e outros serviços, com 32 milhões de empregos formais, sem contar os efeitos indiretos associados à biodiversidade.
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Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), metade do PIB mundial, cerca de US$ 84,4 trilhões, depende alta ou moderadamente de água, solos e demais recursos ofertados pela natureza, com destaque para os florestais.
“É preciso incorporar todos os tipos de florestas – naturais, plantadas ou restauradas – às estratégias de desenvolvimento”, afirma Thais Linhares-Juvenal, chefe da equipe de valores florestais e investimentos da FAO. A questão é chave para manter o aquecimento global em níveis seguros abaixo de 1,5 grau, garantir segurança alimentar, reduzir a pobreza e evitar riscos de novas pandemias, reforça a organização no relatório The State of Word’s Forests 2022.
No mundo, 95% da população não urbana vive no mínimo a 5 km de distância de alguma floresta, com 25% da renda associada a esses recursos – são pessoas estratégicas para a recuperação verde. “Busca-se um novo olhar para as florestas, antes vistas como empecilho à economia”, diz Juvenal.
A população global se beneficia de 22 serviços ecossistêmicos – da qualidade do ar aos insumos da biodiversidade – gerados em dez tipos de florestas, incluindo manguezais. No caso das florestas tropicais, 49,3% das riquezas são atribuídas a serviços naturais de regulação, como recursos hídricos e redução de desastres ambientais, e 47,3% referem-se à provisão de produtos, como madeira. A parcela restante está associada à cultura, turismo e lazer. O desafio da emissão zero de gases-estufa até 2050 não está somente em proteger e aumentar florestas como sumidouros de carbono, mas também no uso de produtos de fonte limpa e renovável oferecidos por elas, tornando-se mais valorizadas em pé, explica Juvenal.
A conservação de florestas pode capturar cerca de 7 bilhões de toneladas métricas de CO2 a cada ano, o equivalente a se livrar de todos os carros no planeta. Não à toa elas ocupam o centro das negociações multilaterais na agenda do clima com a COP 27, no Egito. A ONU projeta a necessidade de US$ 200 bilhões anuais para a manutenção da cobertura florestal na luta contra a crise climática.
As florestas cobrem 31% da superfície terrestre, com perda global de 420 milhões de ha – quase metade da área da Europa – em 30 anos. Segundo a FAO, a expansão de terras agrícolas causa 90% do desmatamento no mundo. Em 2021, 40% da derrubada em áreas de vegetação primária ocorreu no Brasil, inserido no bloco dos cinco países (ao lado do Canadá, China, Rússia e EUA) responsáveis pela metade das florestas do planeta.
O quadro acende o alerta. Pesquisa da organização internacional CDP, feita em 2021 junto a empresas de commodities de impacto florestal, como carne, soja, madeira e mineração, indicou que a percepção de riscos avançou 45% em relação a 2020, entre as brasileiras, com prejuízos estimados de US$ 537 milhões a US$ 978 milhões. Porém, investimentos em soluções, como engajamento de fornecedores e controle de origem da matéria-prima, cresceram só 5% no período. “Com riscos climáticos associados às florestas mais evidentes, é maior o movimento para medi-los e endereçar soluções”, diz Fernanda Coletti, gerente de engajamento do CDP.
“Os negócios no Brasil são altamente atrelados a serviços ecossistêmicos das florestas: de 141 culturas agrícolas, 85 precisam da polinização animal, além da irrigação por chuvas”, observa Henrique Luz, gerente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds).
A organização coordena no Brasil as iniciativas da Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) voltadas a métricas de riscos à biodiversidade e recomendações para relato ao mercado. “O que antes era voluntário e acabou não sendo sistematizado, agora é mandatório para muitas empresas demandadas por investidores e setor financeiro”, diz Luz.
Estimativa da FAO aponta que a redução de chuvas devido ao desmatamento na Amazônia pode causar perdas agrícolas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão por ano até 2050. Em contraponto, uma nova economia baseada na regeneração pode proporcionar mais de 1 milhão de empregos e injetar R$ 2,8 trilhões no PIB brasileiro, mas o cenário requer, além da liderança das empresas, políticas públicas e ambiente regulatório.
As florestas se destacam entre as soluções baseadas na natureza (SbN), capazes de entregar 30% da demanda climática e garantir serviços básicos, como o abastecimento hídrico. Em São Paulo, no Sistema Cantareira, a restauração de 4 mil ha de mata nativa exigiria investimentos de R$ 119 milhões, capazes de trazer economia de R$ 338 milhões no uso de energia e produtos químicos no tratamento e distribuição de água, segundo o World Resources Institute (WRI).
Na descarbonização da economia, cresce o papel das florestas como fornecedora de biomassa à produção de combustíveis e energias renováveis. A Agência Internacional de Energia projeta um aumento do uso de bioenergia em 60% até 2050, demandando mais 410 milhões de hectares de plantações florestais.
A busca pela economia circular depende das árvores sob pressão no planeta. Diante do aumento da população global, a estimativa é o consumo de recursos naturais dobrar até 2060. Segundo o WWF, o volume anual de madeira para diversos fins, incluindo construção civil e papel, deverá triplicar em trinta anos – o que significa a necessidade de mais 250 milhões de hectares de florestas plantadas.
Fonte: Valor Econõmico


