O laboratório americano Abbvie quer ampliar a indicação do upadacitinibe no Sistema Único de Saúde (SUS). O medicamento, cujo nome comercial é Rinvoq, já é coberto pela rede pública para artrite reumatoide e, em breve, dermatite atópica em adolescentes, mas o laboratório quer estender a indicação para doença de Crohn e outros dois tipos de inflamação que já contam com aprovação da Anvisa, a agência reguladora brasileira.
Globalmente, o remédio é importante para a estratégia de crescimento da empresa. Compõe nova geração de medicamentos de imunologia e, no ano passado, respondeu pela segunda maior fatia do faturamento do laboratório. A contribuição das vendas do remédio ajudou a superar o fim da patente do Humira, por muitos anos seu principal remédio, nos Estados Unidos, mercado que responde por mais de 70% da receita do laboratório.
“[A molécula] Já está sendo comercializado no Brasil como uma opção de tratamento para artrite reumatoide, artrite psoriásica, dermatite atópica, doença de Crohn, retocolite ulcerativa e espondiloartrite axial”, disse ao Valor Flávio Devoto, vice-presidente e gerente geral da subsidiária brasileira da Abbvie.
O pedido para incluir novas indicações no SUS, feito à Conitec, o órgão responsável por analisar que remédios e indicações são incorporados na rede pública, foi concluído neste mês. O laboratório quer que a molécula receba aprovação de indicação na rede pública para o tratamento de retocolite ulcerativa e espondiloartrite axial, além da doença de Crohn.
No Brasil, a retocolite ulcerativa é a doença inflamatória intestinal mais frequente, seguida da doença de Crohn. Na década encerrada em 2020, a rede pública brasileira registrou mais de 70 mil pacientes com a doença de Crohn, segundo estudo da ‘The Lancet’. Naquele mesmo período, a prevalência de casos saltou cerca de 12% ao ano até atingir 33,7 registros por cada 100 mil habitantes.
Atualmente, pacientes com doenças como essas já contam com opções oferecidas pela rede pública. Para a doença de Crohn, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do SUS inclui desde terapias convencionais até medicamentos biológicos avançados. Em quadros leves e moderados, o protocolo indica terapias orais em comprimidos, enquanto nos de moderados a graves, terapias avançadas biológicas, predominantemente injetáveis.
“A escolha do tratamento depende de fatores como a doença, seu estágio e, principalmente, a resposta individual e as necessidades clínicas de cada paciente”, disse Devoto. O objetivo do pedido do laboratório, afirmou, é ampliar alternativas de tratamento para pacientes atendidos pelo SUS.
“Isso é especialmente importante no caso de doenças imunomediadas, nas quais as necessidades e as respostas ao tratamento podem variar ao longo da jornada de cada paciente, que tem seu dia a dia significativamente impactado”, acrescentou. O remédio do laboratório, em comprimido, disse, deve aumentar opções desse formato para pacientes da rede pública.
No melhor cenário, as novas indicações podem ter a análise de incorporação concluída em até 180 dias, mas o período pode subir para 270, no caso de prorrogação. “A legislação estabelece prazo de até 180 dias para a conclusão do processo administrativo de análise de incorporação de tecnologias, contado a partir do protocolo do pedido, podendo ser prorrogado por mais 90 dias corridos”, afirmou o executivo.
A submissão acontece após reestruturação estratégica da farmacêutica no país. No início do ano, ela anunciou investimento de R$ 430 milhões em pesquisa clínica no país até 2030. Também foi quando anunciou a saída do Brasil do bloco regional que englobava Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai para formar unidade de negócios própria e independente.
“O Brasil hoje é visto como um país crucial para o crescimento global e tem uma relevância muito importante na nossa estratégia global”, disse o executivo, que antes era vice-presidente da Abbvie para América Latina.
Ele disse que 80% do investimento anunciado para o Brasil até o fim da década será direcionado para imunologia, seu principal negócio, e oncologia. “Esse investimento representa triplicar o volume de estudos clínicos no Brasil”, afirmou. O laboratório também quer levar mais pesquisas para as regiões Norte e Nordeste, já que hoje apenas menos de 30% dos centros parceiros da Abbvie ficam fora do eixo Rio de Janeiro–São Paulo.
A AbbVie vem de período de transição e renovação de portfólio, desde que perdeu a patente do Humira nos EUA em 2023. Em 2025, registrou receita recorde de US$ 61,1 bilhões, alta de 8,6% na comparação com o ano anterior. O resultado foi impulsionado pelo avanço das vendas do Skyrizi, que respondeu pela maior fatia do faturamento do laboratório, de 28,7%, e do Rinvoq, que respondeu por 13,6%. Somados, os dois foram responsáveis por mais de 40% do faturamento.
Do total, os EUA responderam por 76% do faturamento de 2025, com US$ 46,6 bilhões de receita, alta de 8,3%, e o mercado internacional, que inclui o Brasil, 24%, com US$ 14,5 bilhões (+9,4%).
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Fonte: Valor Econômico