Por Gabriela Ruddy — Do Rio
26/07/2022 05h02 Atualizado há 44 minutos
Os temores de uma recessão global ao fim deste ano se intensificaram nas últimas semanas, e levaram a uma redução da pressão que mantinha o preço do barril de petróleo acima dos US$ 100 desde março. Especialistas acreditam, no entanto, que mesmo em uma eventual desaceleração da economia global, o barril dificilmente terá uma queda significativa. Além disso, apontam, é improvável que os investimentos no setor sejam fortemente prejudicados.
Isso ocorre porque a indústria de petróleo e gás vive uma transformação em direção a uma economia de baixo carbono, que prevê uma queda na demanda por combustíveis fósseis nas próximas décadas.
Analistas indicam que as empresas do setor estão se adaptando a esse cenário, com uma redução do número de novos projetos de exploração e produção (E&P) e foco no aumento da vida útil dos campos em produção.
As maiores dificuldades de acesso a crédito barato para novos investimentos em combustíveis fósseis também têm tornado mais difícil sancionar novos projetos, ressalta o sócio de auditoria da consultoria KPMG especializado na indústria de petróleo e gás, Bruno Bressan.
“A indústria hoje está bem preparada para viabilizar projetos a preços mais baixos. Ninguém mais faz as loucuras do passado, com investimentos não justificados. As decisões de viabilidade econômica são feitas levando em consideração preços muito sensibilizados, as empresas estão ‘vacinadas’ contra empolgações com eventuais altas do barril”, diz Bressan.
O especialista diz que os projetos no setor são de longo prazo e, por isso, é importante manter novos investimentos, mesmo em um cenário econômico desfavorável, para garantir o suprimento futuro de petróleo para a demanda que ainda vai existir, mesmo com a transição energética.
“Os investimentos em E&P são de longuíssimo prazo, falamos de um prazo entre o início do desembolso e o começo da produção de cinco a sete anos, com o objetivo de se manter a extração por mais 20 ou 30 anos. As empresas de petróleo precisam estar na mesa de debate da transição, ou então poderemos ter uma necessidade grande de suprimento no futuro sem ter fornecimento”, afirma.
Rodrigo Leão, coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), também não acredita em uma grande desaceleração na indústria de petróleo e gás no caso de uma recessão econômica global. Ele afirma que o setor ainda sofre os efeitos da pandemia e da guerra da Rússia na Ucrânia.
“As empresas tendem a ser mais conservadoras num cenário de mais instabilidade. A atual falta de apetite por investimentos também tem a ver com isso”, afirma. Nesse contexto, ele acredita que uma desaceleração da economia prejudicaria principalmente aqueles projetos de custo mais alto.
“Não trabalho com um cenário de queda brusca do barril, mas um preço mais baixo do petróleo pode inviabilizar a produção nos Estados Unidos. Áreas que têm um custo de produção mais baixo e estável, como é o caso do Brasil, não devem sofrer tantos impactos”, afirma.
Fonte: Valor Econômico