O encerramento das operações de gestão de fundos macro pela Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, é mais um sintoma da crise que as gestoras de recursos independentes enfrentam nos últimos anos. Saques sucessivos em fundos multimercados colocaram o setor à prova, e muitos negócios não fecham a conta.
O primeiro baque veio pelo lado tributário, com o fim do diferimento fiscal a perder de vista em fundos exclusivos ou restritos a poucos cotistas no fim de 2023. A estrutura era usada por famílias com grandes patrimônios para acomodar diversas classes de ativos. Enquanto não havia o come-cotas, o imposto semestral que já recaía em veículos abertos ao público geral, o investidor mais endinheirado tinha uma maior tolerância a períodos de fraca performance. Sem o benefício fiscal, a paciência rapidamente se esgotou.
O tamanho da conta nos hedge funds brasileiros foi de R$ 660,3 bilhões em resgates entre 2022 e 2025, segundo a Anbima, que representa as instituições dos mercados financeiros e de capitais. Em 2026, até 29 de julho, mais R$ 12,8 bilhões saíram dos multimercados em geral. O ensaio de recuperação que se viu no início do ano, quando atraíram quase R$ 18 bilhões em janeiro não continuou.
A guerra do Irã na virada de fevereiro para março pegou muitas carteiras alavancadas em posições ligadas a juros e também em estratégias pró-risco Brasil em bolsa e no real. O vento mudou e os saques voltaram. O conflito no Oriente Médio acabou com a bonança em emergentes, reacendendo temores de que a inflação global seria puxada a reboque da alta de preços nos Estados Unidos.
O resultado foi que no primeiro semestre, de uma amostra de 65 fundos puramente macro acompanhada pelo Guia de Fundos do Valor, só uma dúzia ficou acima do CDI, o principal referencial do setor.
No longo prazo, o desempenho também decepcionou, conforme uma lista de 92 fundos acompanhada por Samuel Ponsoni, sócio da Outliers Advisory, consultoria especializada em gestoras de recursos.
Agora, com a febre dos fundos negociados em bolsa (ETFs) diante da mudança de modelo de remuneração na distribuição de investimentos para o “fee based”, em que é o cliente quem paga pelo serviço de aconselhamento, menor é o apelo dos fundos mistos. Os gestores cobram em geral 2% de taxa de administração mais 20% de performance sobre o que supera o CDI, enquanto nos ETFs, o custo é sensivelmente mais baixo.
Com a Selic em 14,25% ao ano e uma miríade de títulos isentos à disposição da pessoa física, ninguém precisa fazer muita ginástica para ganhar uma remuneração de dois dígitos, com uma taxa real implícita na casa dos 10% ao ano.
As gestoras independentes se multiplicaram no período de juros para baixo, entre 2016 e 2021, 2022, durante a covid-19. A captação escalava rapidamente com o investidor em busca do tal do “alfa”, o excesso de retorno acima do referencial. Quando o ciclo monetário se inverteu, no pós-pandemia, a competição com isentos ficou “desleal”, como já disse Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset Management.
No fim do ano passado, a Verde fechou a venda de parcela majoritária do negócio para a Vinci Compass, em busca de capacidades que não conseguiria desenvolver sozinha, explicou o gestor, que se comprometeu a ficar pelo menos cinco anos no negócio.
Outras mudanças foram observadas na nata da gestão de recursos brasileira. Na SPX, de Rogério Xavier, o sócio-fundador já não detém a maior parte do risco das estratégias de juros, e na JGP, de André Jakurski, o time de crédito liderado por Alexandre Muller, comprou a vertical e se reorganizou na Leto. A JGP mantém uma joint-venture com foco em políticas de sustentabilidade com a BB Asset, na Régia e segue atuando em multimercados, ações e fundos imobiliários. O negócio de gestão de fortunas foi vendido no ano passado para o BTG Pactual.
Fonte: Valor Econômico


