A recente trégua nos preços, marcada por surpresas no IPCA-15, pode ter um prazo de validade bastante curto. Um estudo feito pelos economistas Stephan Kautz e Igor Cadilhac, da EQI Research, acendeu um alerta vermelho: a confirmação de um El Niño de intensidade forte a muito forte promete pressionar a inflação até 2027.
O aquecimento anormal das águas do Pacífico deixou de ser apenas um problema do tempo e virou também um assunto de bolso. Como o fenômeno costuma trazer secas severas e quebras de safra, ele afeta diretamente o preço dos alimentos, entrando de vez nas projeções do Banco Central para a taxa Selic.
No cenário base elaborado pela EQI Research, considerando um aquecimento de 2,1°C nas águas do oceano, os cálculos mostram que a comida no supermercado pode subir até 4,2% no pico do impacto. Essa conta, vale lembrar, não chega no bolso do consumidor de um dia para o outro, mas segue uma dinâmica de transmissão gradual.
O choque climático primeiro afeta o plantio durante a safra de verão e o desenvolvimento das lavouras entre o quarto trimestre e o primeiro trimestre do ano seguinte. Cerca de três trimestres depois, algo em torno de nove meses, é que o repasse passa a bater no carrinho de compras nos supermercados.
Em termos práticos, esse cenário base contrataria um aumento direto de cerca de 0,7 ponto percentual no IPCA cheio. Mas a situação pode se tornar ainda mais desafiadora caso as condições piorem em direção ao cenário extremo desenhado pela casa.
Se o tempo esquentar ainda mais e a temperatura no Pacífico subir 3°C, a inflação dos alimentos pode dar um salto de 7,5% no pico da transmissão, empurrando o IPCA para cima em até 1,2 ponto percentual.
“Essas projeções superam bastante o que o próprio Banco Central vinha calculando com o mercado, que esperava um repasse bem mais leve”, aponta Kautz. “E vale lembrar que esse número é o piso do problema, porque a gente só calculou o impacto na comida. Ele não soma a conta de luz, que também tende a subir com o encarecimento da tarifa de energia elétrica decorrente da seca nas bacias hidrográficas“, destaca o economista.
O grande perigo do El Niño não é só o preço do tomate ou do feijão subir, mas a hora em que isso acontece. Com a inflação de longo prazo já fora da meta e os gastos do governo em alta, o Banco Central fica sem espaço para cortar juros. “Decisões de juros que olham só para a inflação caindo agora no curto prazo podem ser um tiro no pé”, alerta Kautz.
“Como a alta dos alimentos só bate com força nos trimestres seguintes, a inflação do ano que vem vai subir. Se o BC baixar a guarda e cortar juros rápido demais agora, corre o risco de ver a inflação acelerar de novo ali na frente“.
Por isso, enquanto boa parte do mercado aposta em cortes na Selic, a EQI prefere manter a cautela: os juros devem continuar altos por mais tempo para evitar que a alta dos alimentos contamine o resto da economia.
“Carteira El Niño”: onde colocar o dinheiro?
Com juros altos e inflação no radar, a regra do jogo nos investimentos muda. Em vez de tentar adivinhar o mercado no curto prazo, o segredo é buscar proteção e garantir bons rendimentos sem correr riscos desnecessários.
Na renda fixa, os títulos atrelados à inflação (Tesouro IPCA+) são os grandes favoritos, especialmente os com vencimento intermediário, entre 2032 e 2035. Eles pagam um juro real (descontando a inflação) generoso, acima de 8%, e garantem o poder de compra ao longo do tempo.
A escolha pelos prazos do meio da tabela tem uma explicação prática: fugir da “marcação a mercado”, termo técnico utilizado pelo mercado para se referir ao preço do título oscilando todos os dias no mercado. Quando o mercado acha que a inflação vai subir, a taxa do título aumenta e o preço dele cai na tela. Se o investidor tiver um título longo demais (com vencimento depois de 2040), a volatilidade do preço tende a ser ainda maior e intensa.
Os títulos prefixados, por sua vez, devem ficar de fora do radar, pois cobram um risco alto demais caso o cenário desenhado se materialize e os juros demorem a cair.
Para ter dinheiro na mão com segurança, a reserva pós-fixada, no Tesouro Selic ou em CDBs que pagam 100% do CDI, por exemplo, continua sendo a melhor opção.
Nas debêntures isentas, a recomendação dos especialistas é manter o que já tem e não sair comprando mais sem analisar bem o risco das empresas em momentos de juros altos.
Vai uma pitada de risco?
Quando o assunto é renda variável, o El Niño traz um ingrediente extra: a variação cambial, já que o Brasil vende alimentos para o mundo inteiro em dólar. Se há escassez no mercado global, o preço em dólar sobe, e qualquer alta da moeda americana faz esse valor saltar também em reais.
Sob esse cenário, empresas do setor agrícola tendem a repassar esse aumento e, consequentemente, faturar mais em dólar, funcionando como uma proteção contra a alta da moeda americana. A lógica faz sentido no papel, mas a equipe da EQI prefere não arriscar.
Em vez de tentar adivinhar qual empresa vai se beneficiar no detalhe, a estratégia é ir pelo caminho mais seguro e focar em proteção. “A nossa orientação na bolsa é não inventar moda: o foco deve ser em empresas consolidadas, que pagam bons dividendos e têm negócios resilientes“, explica Kautz.
“É hora de passar longe de empresas pequenas e muito endividadas, as chamadas small caps, porque os juros altos pesam muito no bolso delas e travam qualquer alta das ações no curto prazo“, acrescenta o economista.
O setor de energia elétrica, por exemplo, surge como um porto seguro: além de ter contratos protegidos contra a inflação, as geradoras tendem a faturar mais com a alta do preço da energia durante os períodos de seca.
No agronegócio, a expectativa é que a alta dos grãos traga um respiro para os resultados das empresas a partir do próximo ano, mas o endividamento em meio aos juros altos ainda exige cautela do investidor.
Para quem quer se beneficiar do ciclo de alta dos alimentos sem precisar assumir o risco de crédito das empresas do setor, Kautz chama atenção para os contratos futuros de grãos negociados na B3. Esses contratos basicamente possibilitam que o investidor negocie a variação de preço das mercadorias, como saco de soja ou de milho, até uma data futura. Se o El Niño realmente fizer o preço da soja subir, por exemplo, e o investidor comprar o contrato futuro antes da alta, ele ganha a diferença desse valor.
Mas esse investimento não é livre de riscos. O principal deles é a alavancagem financeira, uma vez que, para negociar um contrato futuro, o investidor não precisa ter todo o dinheiro do valor da safra, apenas uma pequena garantia dada à B3.
Isso significa que, se o preço subir, ele pode ganhar muito, mas também pode perder mais dinheiro do que investiu se o preço cair.
Ainda tem a questão da volatilidade, com os preços dos grãos passando por ajustes diários. Na prática, a bolsa calcula o valor da commodity no encerramento de cada pregão e debita ou credita a diferença direto na conta do investidor.
Fonte: Valor Investe


