Juro alto, disciplina fiscal, custo de capital e a maior participação privada no financiamento de setores como agronegócio e infraestrutura formaram o pano de fundo das discussões da Expert XP 2026 sobre o futuro da economia brasileira. Apesar dos desafios macroeconômicos, gestores e autoridades apontaram que o país reúne oportunidades relevantes para os investidores privados, parte importante para o desenvolvimento do país.
O setor de infraestrutura tem recebido um volume recorde de investimentos, com projeção de chegar a R$ 300 bilhões este ano, mas ainda insuficiente. Nos últimos anos, segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), o volume anual ficou perto de 2,5% do PIB, distante dos 4% considerados ideais. Mais importantes do que o volume, afirmam gestores presentes no evento, têm sido as mudanças na composição do funding.
“Parte do avanço recente de projetos em setores como saneamento, rodovias e energia é fruto da mudança na composição do funding, com maior participação de capital privado”, avalia o head e gestor de crédito da Occam, Petrônio Cançado. “Como investidor e gestor, adoro os ativos incentivados. Como brasileiro, o ideal é não haver incentivos, pois geram distorção. A Lei 12.431 [debênture incentivada] trouxe muitos benefícios e impulsionou o mercado, mas uma hora terá que acabar.” Apesar da crítica, Cançado reconhece que o desenho atual, com incentivos, é decorrente da carência de investimentos em infraestrutura.
No agronegócio, outro setor de extrema relevância para a economia do país, o cenário descrito é de margens apertadas e custo financeiro alto, mas com oportunidades para os gestores que saibam garimpar bons parceiros de negócio.
“A Riza Asset está aproveitando seu perfil historicamente conservador. Evitamos adicionar riscos elevados nas carteiras dos Fiagros [Fundos de Investimento nas Cadeias Agroindustriais]. Também nunca fomos de operar com spreads muito altos”, comentou Paulo Mesquita, sócio e gestor do núcleo de agro da Riza Asset, que administra R$ 25 bilhões sob gestão. Uma das principais estratégias da casa, que ajuda em momentos de margens apertadas, é a de “sale & leaseback”, em que a Riza compra uma fazenda, a arrenda para o próprio produtor e inclui uma cláusula de recompra. Apesar do cenário exigir cautela, Mesquita lembra que, se o Brasil continuar competitivo, produzindo culturas, como soja e milho, mais baratas, “o futuro é nosso”. “A dificuldade aqui é custo de capital.”
Na XP Asset, o diagnóstico das dificuldades do agronegócio é o mesmo. “Para nossos produtos de agro, a estratégia da casa é buscar uma segurança adicional, escolhendo bem os parceiros para gerenciar melhor o risco”, afirmou Gustavo Gomes, gestor de Fiagro na XP Asset. “Num momento de baixa das commodities, custos elevados e restrição ao crédito, a geração de caixa é comprometida. O foco na liquidez tem que ser ainda maior para não ser pego de surpresa.”
Falando a uma plateia composta por integrantes do mercado financeiro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi direto ao rebater ruídos que costumam surgir em períodos pré-eleitorais, entre eles os de controle de capitais e de ampliação do gasto público. De acordo com Durigan, esse esforço final passa pelos dois temas que mais incomodam o governo: juros altos e endividamento público. “Falta essa milha final. É fundamental trazer o compromisso fiscal, parte do quebra-cabeça da economia”, afirmou Durigan. O ministro aproveitou ainda para desmentir a possibilidade de controle de capitais. E deu um alerta de que, em ano eleitoral, “criam factoides, terrorismo, o que não ajuda em nada”.
Questionado sobre a condução da política monetária, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou a visão de que hoje os principais drivers dos bancos centrais no mundo são o impacto da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho, efeitos do El Niño na economia, “difíceis de prever”, e as oscilações no preço do petróleo. Na visão de Galípolo, o caminho para ajudar a economia a sair da armadilha dos juros elevados “passa pela produtividade, uma variável ainda a ser alcançada”.
A política econômica do governo foi citada recorrentemente no debate sobre projeções eleitorais. Para Felipe Nunes, CEO da Quaest, a busca por solucionar o elevado endividamento da população ajuda o governo. “São dois temas relevantes na corrida eleitoral, o programa Desenrola e a expectativa em torno da escala 6 por 1”, comentou Nunes, apresentando dados sobre o avanço da aprovação do governo. O Novo Desenrola Brasil é um programa de renegociação de dívidas, que já movimentou mais de R$ 20 bilhões em acordos. “No começo do ano, Lula tinha menos chance de eleição, com 38% de probabilidade de ser reeleito. Depois, com o Desenrola e do apoio à mudança na jornada de trabalho, saltou para 60%”, afirmou Nunes.
Fonte: Valor Econômico


