Por Assis Moreira — De Genebra
09/06/2022 05h00 Atualizado há 4 horas
Vários países emergentes terão de subir mais os juros para ancorar as expectativas de inflação e evitar saídas de capital potencialmente desestabilizadoras, avalia a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
No geral, a normalização das políticas monetárias deverá prosseguir nos próximos 18 meses na maior parte das economias, em ritmo mais rápido do que previsto antes, segundo a entidade.
Uma normalização relativamente rápida é considerada particularmente necessária nos EUA, Canadá e em muitos países europeus, onde a recuperação da demanda da pandemia está bem encaminhada e as pressões inflacionárias ainda estão presentes.
A avaliação é de que nos EUA o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve agir rápido, já que a renda das famílias aumentou, resultando em excesso de demanda. A OCDE projeta juros em 3% ou 3,25% até o fim de 2023.
O Banco da Inglaterra (BC britânico) deverá elevar sua taxa hoje em 1% para 2,5% até meados de 2023. O Banco do Canadá (BC canadense) deve seguir mesmo rumo, e subir sua taxa de 1,5% para 2,5% até o início de 2023.
Já o Japão, ainda com pressões inflacionárias modestas e sem exposição direta à guerra na Ucrânia, deverá manter uma política monetária acomodatícia.
Na zona do euro, o Banco Central Europeu (BCE) já sinalizou que as compras líquidas de ativos deverão ser finalizadas no início de setembro, com a taxa de juros dos depósitos passando de -0,5% para 1% até o segundo trimestre de 2023, e a taxa principal de refinanciamento saindo de 0% para 1,5%.
Entre as economias emergentes, na América Latina o aperto da política monetária ocorre em ritmo acelerado por diferentes motivos em cada país. No México a culpa é dos efeitos inflacionários das rupturas nas cadeias de abastecimento. Na Argentina o problema nasce da necessidade de reforçar a política macroeconômica e frear a alta inflação. Já no Brasil, as pressões inflacionárias surgem a partir da aceleração dos preços de alimentos e energia, diz a OCDE.
Na Índia, após uma alta inicial em maio, a taxa de juros deve continuar a subir em meio a persistentes pressões inflacionárias. Já o aperto monetário na Indonésia deve ser limitado. Na China, não se espera flexibilização da política monetária. Na Turquia, as taxas devem continuar inalteradas, mesmo que a atual política de juros reais negativos eleve a volatilidade e amplie a pressão inflacionária.
A OCDE alerta para potenciais vulnerabilidades nos mercados financeiros e economias emergentes durante a normalização da política monetária.
Os maiores custos de financiamento, em particular, podem afetar a capacidade de reembolso das empresas e famílias. Condições financeiras globais mais rígidas e maior aversão ao risco, em conjunto com os impactos da guerra na Ucrânia, também agravam as potenciais vulnerabilidades nas economias de mercados emergentes por aumento das taxas de juros e inversões de fluxo de capital.
A dívida das empresas continuou a crescer em 2021 em muitos países. Nas economias médias da OCDE, a dívida das empresas não financeiras atingiu 106% do PIB no terceiro trimestre de 2021, 15 pontos percentuais acima da média observada no período 1999-2019.
Custos de financiamento para muitas empresas nas maiores economias cresceram recentemente, mas ainda são moderadas, disse a OCDE. Muitas corporações também aproveitaram as baixas taxas para refinanciar dívidas e alongar prazos de vencimento.
Fonte: Valor Econômico
