Dono das redes Pão de Açúcar e Extra Mercado, o GPA entrou nesta terça-feira (10) com pedido de recuperação extrajudicial envolvendo a renegociação de dívidas com credores financeiros de R$ 4,5 bilhões. Quase 40% dos passivos vencem em até 12 meses. O grupo foi fundado em 1948 pela família Diniz.
Documentos anexados na petição obtida pelo Valor mostram Rabobank como maior credor, em duas operações somando R$ 917,3 milhões, seguido do Itaú Unibanco (R$ 707,1 milhões), BTG Pactual (R$ 225,7 milhões) e HSBC (R$ 206,2 milhões). Esses credores representam 46% dos passivos, equivalente a R$ 2,1 bilhões. O percentual é superior ao quórum mínimo legal de um terço dos créditos afetados para o ingresso do pedido na Justiça.
“Agora temos 90 dias para concluir esse acordo com os credores, as conversas avançam bem e queremos ter o quórum necessário [50% mais 1] para aprovação do plano em tempo mais curto”, disse ao Valor, o presidente da empresa, Alexandre Santoro. A ideia é que, com os principais credores alinhados com a rede, outros acabem buscando um entendimento nas próximas semanas, até porque o pior cenário seria uma deterioração das contas da cadeia.
Segundo o CEO, foi feito um diagnóstico da situação nas últimas semanas e pelo quadro estrutural da rede, em termos de caixa e dívidas, e pelos vencimentos relevantes com bancos, decidiu-se “dar celeridade à situação de forma mais organizada”. No documento à Justiça, a empresa cita três fatores para o pedido: juros elevados, maior competição no varejo alimentar e concentração de vencimentos altos no curto prazo.
A possibilidade de uma capitalização na rede no futuro, algo bem visto pelos credores, dizem fontes, seria opção viável na visão do conselho de administração – que cogitaria valores entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões, apurou o Valor – mas é uma das hipóteses na mesa, a depender do preço das ações.
Ao se analisar o balanço, em empréstimos e financiamentos na linha de passivo circulante (vencimento em até 12 meses) eram R$ 1,7 bilhão ao fim de 2025 e mais R$ 2,4 bilhões no passivo não circulante (longo prazo). O montante no circulante dobrou, passando de R$ 850 milhões em 2024 para o R$ 1,7 bilhão em 2025. Essa foi uma das contas que desestabilizou a empresa.
Outro fator foi a redução da entrada de recursos da venda de ativos, como imóveis, que haviam rendido mais de R$ 4 bilhões de 2022 a 2024, calculou o Valor, e ajudado a diminuir essa pressão de pagamentos nos outros anos. Em 2025, essas negociações pararam, e renderam apenas R$ 96 milhões. Houve menos tratativas de venda de ativos especialmente na segunda metade do ano.
Santoro diz que o plano de reestruturação abrange pagamentos sem garantia, e não fazem parte as obrigações operacionais da varejista, ficando excluídas acordos junto a fornecedores e parceiros, bem como obrigações trabalhistas. A empresa tinha em dezembro R$ 3 bilhões em passivos que vencem em 12 meses com fornecedores, mesmo valor de um ano atrás.
Ainda entra nesse cálculo das dívidas passivo atualizado de R$ 174 milhões com a Casas Bahia, que venceria nesta quarta-feira (11). O valor é relativo a perda de um procedimento arbitral sobre obrigações trabalhistas e cíveis assumidas da antiga Globex, hoje Casas Bahia, quando GPA comprou a rede, em 2009.
O GPA perdeu esse processo em dezembro, e na petição em que pede recuperação, o grupo disse que a Casas Bahia estava inflexível nessa negociação.
“Muito embora a companhia tenha tentado negociar tal pagamento, em especial à luz das dificuldades que vinha enfrentando, a Casas Bahia sempre se demonstrou inflexível, exigindo a quitação imediata”, disse o GPA à Justiça. A Casas Bahia não se manifestou.
Nessas contas da ação extrajudicial, é preciso ainda separar o que são dívidas com bancos e debêntures daquilo que são as contingências da rede, outro foco de pressão.
A negociação atual envolve os credores financeiros. Os contatos com debenturistas devem ocorrer num segundo momento – apesar de algumas conversas estarem em andamento, segundo Pedro Albuquerque, vice-presidente de finanças.
“Vamos abrir esses contatos também. Mas uma parte dos bancos já são debenturistas [caso do Itaú, com R$ 707 milhões], então isso anda paralelo” diz ele. Em debêntures neste ano são R$ 1,7 bilhão, com vencimento em maio e julho.
Já as contingências fiscais e trabalhistas, algo comum no varejo, foram carregadas ao longo dos tempos pela varejista, e parcela do total tem sido cobrada por Estados e União. A soma total atinge cerca de R$ 17 bilhões – isso também não faz parte da recuperação extrajudicial.
Esse é outro fator que pode desestabilizar financeiramente a empresa, caso a rede não evolua nos acordos de descontos, e pelo grau de incerteza nas cobranças.
O plano do GPA tem efeitos imediatos, e prevê a suspensão das obrigações pelos 90 dias junto aos credores afetados, o que dá uma tranquilidade para a rede. Na prática, a intenção é criar um ambiente seguro e estável para a continuidade das negociações, diz o CEO.
Sobre esse ponto, a empresa acabou avançando com as tratativas para se proteger de uma “profecia autorrealizável”, na visão de pessoas a par do tema. “Tudo o que aconteceu nos últimos dias não foi nada bom”, disse uma fonte.
“Com a questão do risco da continuidade operacional que veio à tona [a empresa comunicou esse fato], e o rebaixamento da nota de crédito da Fitch, o que aconteceu foi que o temor dos credores e dos fornecedores foi crescendo”, disse uma fonte. “Foi preciso deixar claro que a indústria está fora desse problema. Esse cenário todo começou a gerar tensão no mercado, e o risco é chegar num ponto que fica difícil administrar. A empresa decidiu agir antes disso.”
A ideia é melhorar o perfil do endividamento e preservar o relacionamento com fornecedores e, principalmente, proteger a operação, de onde vem o caixa da empresa.
O relacionamento com a indústria pode ser um ponto sensível nesse processo, dizem empresários ouvidos. “Eu estive com 300 fornecedores depois que pedi recuperação extrajudicial. As linhas de crédito reduzem e tem que gerir isso logo no começo”, diz o CEO de uma rede. “Não é fácil manter o mesmo nível de serviço e o cliente pode sentir.”
Santoro afirma que já recebeu mais de 30 fornecedores para explicar que a operação está protegida. Diz ainda que não há ruptura ou dificuldades de abastecimento, e que a rede está em dia com suas obrigações junto a fornecedores, clientes e parceiros, todos excluídos do processo. “Não temos um único boleto em atraso”, diz.
O executivo diz que as lojas continuam funcionando normalmente – são 728 unidades. Em 2025, o GPA teve receita líquida de R$ 19,1 bilhões, alta de 1,7% frente a 2024.
O problema do GPA não é operacional, mas o financeiro. O balanço mostra que a cadeia teve fluxo de caixa livre operacional de R$ 670 milhões em 2025 (R$ 400 milhões acima de 2024), mas R$ 920 milhões foram consumidos com juros das dívidas, fianças bancárias e custos com descontos de recebíveis. Este gasto é R$ 325 milhões acima de 2024.
O índice de liquidez corrente (dos compromissos de curtíssimo prazo) passou de 0,96 no fim de 2024 para 0,83 em 2025. Isso significa que, para cada R$ 1 de dívida, a rede tinha R$ 0,83 em recursos para pagá-las – uma piora em relação aos R$ 0,96 de um ano antes.
Por mais de uma década, o Casino exerceu o poder na rede, mantendo 40% das ações após a saída da família Diniz da varejista, em 2012. Hoje, a família Coelho Diniz tem 24,6% do capital, e o Casino, 22,5%.
Fonte: Valor Econômico
