As eleições presidenciais de 2026 serão determinantes para a melhor ou piora do rating soberano do Brasil, atualmente em Ba1, um nível abaixo do grau de investimento, na escala da Moody’s.
Não tem a ver com a chance de vitória de um candidato ou outro, como muito se diz na Faria Lima, mas com a capacidade do próximo governante de endereçar os problemas fiscais que fazem com que o País tenha uma nota de crédito pior do que os vizinhos Paraguai, Peru ou México.
Agência de classificação de risco Moody´s: risco atual se concentra em instituições não-financeiras (Foto: Moody´s/Divulgação)
A Moody’s começou a acompanhar o risco de crédito soberano do Brasil em 1986. A nota começou com Ba1, mas foi caindo ao longo das crises financeiras dos anos 90, até se recuperar com o super ciclo de commodities do início dos anos 2000. A melhora econômica da época levou o País a conquistar o investment grade, que caiu para Ba2, o segundo grau especulativo, no início de 2016 após a crise que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
Em outubro de 2024, a nota subiu para o atual Ba1, mas pouco tempo depois, em maio de 2025, a perspectiva foi alterada de positiva para estável. E é assim que o rating permanece desde então.
Em evento em São Paulo nesta quinta-feira (30), William Foster, senior vice president da Moody’s Ratings e responsável pela classificação soberana do Brasil, explicou que a nota é construída com base em alguns fatores principais: economia grande e diversificada, que fortalece o perfil de crédito; estrutura da dívida pública em moeda local e em boa parte detida por investidores locais; e alto nível de reservas internacionais.
E um grande problema de crescimento do endividamento público, taxas de juros altas pressionando a dívida, rigidez no Orçamento, com alto nível de despesas obrigatórias e polarização política, que torna mais difícil aprovar as reformas necessárias para endereçar a questão.
“O fiscal é, de longe, o ponto mais fraco e o fator mais importante para a forma como avaliamos a classificação de risco soberano do Brasil. E sei que também será uma questão central ao longo do processo eleitoral este ano.”
William Foster, senior vice president da Moody’s Ratings e responsável pela classificação soberana do Brasil
O executivo explicou que o Brasil tem algumas especificidades que tornam o problema fiscal – que hoje não é mais um tema apenas de países emergentes e afeta também os desenvolvidos – mais sensível.
Cerca de 50% da dívida pública brasileira é indexada a taxas de juros flutuantes, algo diferente aos pares do País, e que faz com que o ambiente atual de juros elevados acelere muito o crescimento do endividamento. Olhando apenas o resultado primário, o Brasil apresenta desempenho até melhor que outros países, destacou a Moody’s. Mas, quando as despesas com juros entram na história, o cenário muda completamente.
A relação dívida/PIB continua aumentando e ainda não há sinais claros de estabilização. “Sem reformas estruturais na política fiscal, essa tendência deve persistir”, alertou Foster.
A projeção da agência é que a dívida bruta, que hoje corresponde a 82% do PIB, supere os 90% já em 2030 se nenhuma mudança relevante for implementada. Isso enfraquece gradualmente os indicadores fiscais do país e aumenta os obstáculos para uma eventual melhora da classificação de risco soberano; podendo, inclusive, levar a um rebaixamento da nota.
E aí entra a questão política. A composição do Orçamento público, com quase 90% dos recursos sendo destinados a despesas obrigatórias e, em grande parte, corrigidas pela inflação, também é incomum na experiência internacional e deixa pouco espaço para ajustes.
“A elevada polarização política torna esse cenário ainda mais desafiador, porque qualquer reforma capaz de flexibilizar o Orçamento exige amplo consenso político. Diante das divisões existentes no Congresso, é ainda mais difícil avançar nessas mudanças”, explicou o VP da Moody’s.
Já há algum tempo, a empresa diz que a melhora das contas públicas no Brasil passa por temas como reformas na previdência, melhora do arcabouço fiscal e desindexação das despesas obrigatórias do salário mínimo. Um ajuste de cerca de 2,5% do PIB, feito principalmente por meio do corte de gastos, estima. Na América Latina, apenas México e Trinidad Tobago precisam de um ajuste maior para estabilizar a dívida.
‘Armínio Fraga: Não há chance de coisas darem certo aqui sem reforma da previdência profunda’
Segundo o ex-presidente do Banco Central, o sistema previdenciário está em “estado pré-falimentar” e é um “problema enorme”. Crédito: Bruno Nogueirão
Isso dá uma dimensão da escala do desafio que o próximo governo terá pela frente, disse Foster: retomar a credibilidade na política fiscal.
“Ela só deverá melhorar se o governo conseguir criar espaço fiscal, reduzindo a rigidez do Orçamento e permitindo maior flexibilidade para melhorar a qualidade do gasto público ou aliviar gradualmente as pressões sobre as despesas. Isso possibilitaria uma redução progressiva dos déficits ao longo do tempo e poderia gerar um efeito positivo sobre os juros, permitindo que eles também recuassem gradualmente”, explicou.
Em coletiva com jornalistas após o evento, Foster destacou que o ponto positivo na corrida presidencial deste ano é que, até aqui, os dois candidatos à frente nas pesquisas de intenção de voto, o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), parecem reconhecer a necessidade de promover o ajuste fiscal em 2027.
Ainda assim, ressaltou que é preciso ter cautela na avaliação, já que a implementação de qualquer proposta dependerá de um esforço de negociação com o Congresso, o que ainda é “incerto”, disse o executivo.
Fonte: E-Investidor
