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A alta das ações de cinco grandes empresas de tecnologia no pregão de ontem (6) da Nasdaq deve-se à vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos. Reflete a expectativa de um relaxamento regulatório incluindo questões anticoncorrenciais, de privacidade e monitoramento de conteúdos.
O movimento da futura gestão da Casa Branca contraria não só a postura mais dura da gestão de Joe Biden sobre as práticas das “big techs”, mas também a implemetação de regras mais rigorosas na União Europeia e no Brasil, cuja Lei Geral de Proteção de dados (LGPD), se inspira na regulação europeia.
A promessa de campanha de Trump de elevar significativamente as tarifas sobre produtos importados da China, e o avanço da inflação nos EUA, projetado por ecnomostas, são desafios no caminho das “big techs”. A maioria das “sete magníficas” – Alphabet (contriladora do Google), Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla – investiu em doações para a democrata Kamala Harris, exceto a Tesla, do bilionário Elon Musk, que apostou em Trump. As ações da fabricante de carros elétricos tiveram um salto de 14,75% ontem.
As primeiras reações do mercado financeiro foram de alta robusta nas ações de Microsoft, Amazon, Alphabet e Nvidia. Já os papéis da Apple fecharam o pregão em queda de 0,33% e os da Meta recuaram 0,07% (ver gráficos acima).
O recuo da Apple reflete a preocupação do mercado com a dependência da dona do iPhone sobre a produção na China. Já a Meta, de Mark Zuckerberg, teve sua rede social Facebook chamada de “inimigo do povo” no início da campanha de Trump.
O presidente-eleito mudou de ideia sobre TikTok e deve derrubar decisão de Joe Biden
Em janeiro de 2021, após a invasão ao Congresso americano, Trump foi banido das redes sociais Facebook e Instagram, controladas pela Meta. Também foi banido do antigo Twitter, que tornou-se X sob a gestão de Musk. Os movimentos levaram Trump a criar sua rede, a Truth Social. Em janeiro de 2023, a Meta anunciou a reintegração de Trump às suas redes. Na sequência, em agosto de 2023, o republicano voltou ao X.
A postura mais “pró-negócios” de Trump terá efeitos sobre o mercado de tecnologia, avaliam especialistas consultados pelo Valor.
“Enquanto a preocupação de Kamala Harris é de proteger as pessoas, Trump tem uma visão mais estratégia, até do ponto de vista geopolítico, de proteger a propriedade intelectual e a indústria”, diz o diretor-executivo do Reglab, área de pesquisas do escritório Baptista Luz Advogados, Pedro Henrique Ramos.
A revogação de um decreto de regulamentação da inteligência artificial (IA) nos EUA, assinado por Joe Biden, em novembro de 2023, deve ser uma das medidas práticas de Trump, prevê Ramos.
Outra deve ocorrer no comando de agências reguladoras, que têm sido mais rígidas com “big techs” na gestão Biden.
Em 2023, a Comissão Federal de Comércio (FTC) dos EUA, presidida por Lina Khan, processou a Amazon alegando que a gigante do comércio eletrônico mantém um monopólio que bloqueia rivais menores. Em março, o Departamento de Justiça (DOJ) americano processou a Apple por tentativa de monopolizar o mercado de celulares. Em agosto, afirmou que o Google monopoliza o mercado de buscas e que poderia ser desmembrado.
Tanto Khan, da FTC, como o procurador-geral assistente da Divisão Antitruste do DOJ, Jonathan Kanter, foram indicados por Biden, em 2021, e correm o risco de deixar suas posições assim que Trump assumir.
Decreto de regulação de IA, de 2023, tende a ser revogado ”
Na visão “pró-negócios” de Trump, “uma divisão do Google enfraquece uma grande empresas americana de tecnologia”, nota o sócio da gestora Geo Capital, André Kim.
O relacionamento do vice-presidente eleito dos EUA, JD Vance, com investidores bilionários do Vale do Silício, também favorece o cenário de relaxamento de leis antitruste. “Vance conhece o segmento de capital de risco e sabe que uma postura regulatória mais dura pode reduzir os movimentos de aquisições de startups por ‘big techs’ ”, observa Kim.
A postura de Trump também mudou em relação à rede social de vídeos TikTok, do grupo chinês ByteDance. Em 2020, em sua primeira gestão, Trump defendia o banimento da plataforma. Agora promete salvá-la, contrariando o decreto assinado por Biden, em abril, que determina a venda da empresa a um controlador americano para seguir operando no país.
Um enfraquecimento de leis nacionais e de órgãos reguladores nos EUA levaria as decisões em torno das “big techs”, incluindo processos antitruste e de privacidade, aos Estados americanos. Isso pode gerar uma disputa regional, diz Ramos, do Reglab. “O vácuo regulatório vai ser ocupado pelos Estados e isso pode criar paraísos regulatórios para empresas de tecnologia”.
O Estado da Virginia, por exemplo, ofereceu benefícios fiscais para a expansão de centros de dados, as bases para o avanço da IA. Outro é o Arizona, onde gigantes de semicondutores como a americana Intel, a sul-coreana Samsung e a taiwanesa TSMC receberam bilhões de dólares em incentivos da gestão Biden para instalar fábricas de semicondutores, reduzindo a dependência de componentes da China.
Trump não deve alterar a injeção de recursos na indústria local de semicondutores, mas pode direcioná-la, “dando preferência às empresas norte-americanas como a Intel”, observa o sócio da GeoCapital. Ontem (6), as ações da Intel saltaram 7,42%.
Para o analista financeiro, as “big techs” vão navegar bem no cenário inflacionário de Trump, como o fizeram após o auge da pandemia da covid-19 conseguindo repassar custos aos clientes. Quem terá mais desafios será a Tesla, de Musk. “O produto [carro elétrico] da Tesla enfrenta uma competição muito maior”, afirma Kim.
Fonte: Valor Econômico
