Por Larissa Garcia — De Brasília
31/05/2022 05h02 Atualizado 31/05/2022
O diretor de política monetária do Banco Central (BC), Bruno Serra, reforçou ontem que espera que os efeitos defasados do atual ciclo de alta de juros devem começar a impactar a atividade econômica com mais força nos próximos meses. Ele reiterou ainda que, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em junho, o foco integral é a meta de inflação de 2023.
Sobre as surpresas positivas e revisões das expectativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano para cima, ele ressaltou que mesmo em estágio avançado de aperto monetário, até o terceiro trimestre do ano passado o patamar ainda era estimulativo – ou seja, abaixo do neutro, aquecendo a economia.
“O juro subiu bastante e muito rápido, mas de nível muito baixo. O ‘lag’ de política monetária está entre quatro e cinco trimestres para o hiato, para a atividade econômica. A gente chegou ao nível neutro no terceiro trimestre do ano passado, é muito recente”, destacou em live promovida pela Kinea Investimentos.
“Esse primeiro trimestre [de 2022], que temos dados de economia bastante fortes, está pegando juro real do início de 2021, quando estávamos começando a subir [a Selic], era bastante estimulativo naquele momento”, completou.
Serra afirmou ainda que a recente apreciação cambial tem feito a diferença “na margem” dentro da inflação. “Acho que [o câmbio] está fazendo toda a diferença na margem, mas é tanto choque que está difícil ver ainda”, ressaltou. “Da virada do ano para cá o real passou a ser destaque positivo”, disse.
Questionado sobre se o Brasil tem condições de crescer com a Selic próxima de 13% ao ano, o diretor ponderou que a taxa de juros é uma variável de ajuste e que não existe nível ideal. Serra destacou que, entre 2004 e 2012, período de crescimento forte, a taxa básica média foi de 12%. “Se você tem vetores de crescimento fortes o suficiente, a Selic tem que estar compensando”, disse.
“A gente viveu o outro lado. [A Selic] ficou em 6% por muito tempo, mas não tínhamos vetor de crescimento. É um desafio, mas não tem uma regra sobre qual é a taxa de juros para crescer. Uma taxa de 13% é de um período específico, mas a gente vai reverter”, complementou.
Segundo ele, passados os choques, a inflação global deve “caminhar para baixo”. “A gente vai convergir [no futuro] para nível de taxa de juros que a gente hoje considera neutro, por volta de 7% [ao ano], 3,5% real, para uma meta de inflação de 3%”, destacou. Segundo ele, o nível atual da Selic é específico “do momento”. “Do mesmo jeito que foi para 2%, agora está em 13%”, pontuou.
Sobre a pressão inflacionária global, ele lembrou que, mesmo depois de dois anos desde o início da pandemia de covid-19, os padrões de consumo ainda não voltaram ao que eram antes, e a demanda por bens permanece pressionada. Além disso, afirmou que houve “muitos excessos durante a pandemia”, em referência aos estímulos.
“As economias se recuperaram rapidamente da pandemia e agora vivemos consequência inflacionária. Isso vem de mudança de padrão de consumo para bens. Num primeiro momento a sensação era de que [a inflação] seria temporária, mas já passamos dois anos da pandemia e até agora os padrões de consumo não voltaram ao que era antes”, ressaltou o diretor.
Fonte: Valor Econômico