Por Martin Arnold — Financial Times, de Frankfurt
31/05/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
O economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE) disse que elevações nos juros de 0,25 ponto percentual, em julho e setembro, serão o “ritmo de referência”, opondo-se aos que pedem altas mais acentuadas e o fim imediato da política de taxas negativas no verão europeu.
A inflação da região do euro deverá atingir um recorde de 7,7% quando os números de maio forem divulgados na terça-feira – quase o quádruplo da meta anual do BCE, de 2%. Ainda assim, Philip Lane, economista-chefe do órgão, disse que o processo de remoção dos estímulos “deverá ser gradual”. “A normalização [da política monetária] tem um foco natural em variações em unidades de 0,25 ponto, então aumentos de 0,25 ponto nos encontros de julho e setembro são um ritmo de referência”, disse o executivo ao jornal econômico espanhol “Cinco Días”.
Lane foi mais específico nos comentários do que a presidente do BCE, Christine Lagarde. Na semana passada, ela indicou pela primeira vez um plano claro para encerrar o experimento de oito anos com as taxas negativas ao dizer que o custo dos empréstimos se encaminha a chegar a zero até o fim de setembro. A taxa de depósito do BCE, hoje em 0,5% negativa, está em território abaixo de zero desde 2014, quando a região teve uma crise de títulos de dívida soberanos. A maioria das autoridades concorda quanto à necessidade de que os juros comecem a subir, mas há divergência quanto ao ritmo de elevação.
Economistas disseram que os comentários de Lane foram uma tentativa de reprimir os pedidos de membros do conselho do BCE favoráveis a uma linha mais dura contra a inflação e que se acompanhe o ritmo do Federal Reserve, com elevações mais agressivas, de 0,50 ponto em cada encontro.
“A única explicação que posso imaginar é que isso é, de fato, uma tentativa desesperada de Lane (e de Lagarde) de retomar o controle da discussão e impedir um aumento de 0,50 ponto em julho”, disse Carsten Brzeski, chefe de análises globais macroeconômicas no ING.
Na semana passada, o presidente do banco central da Áustria, Robert Holzmann, um dos membros do conselho do BCE de linha mais dura no controle da inflação, disse que os juros deveriam ser elevados em 0,5 ponto percentual em julho “já que qualquer outra coisa corre o risco de ser vista como branda”.
Por sua vez, Fabio Panetta, membro do conselho executivo do BCE, alertou para “sinais de dificuldade econômica emergindo nos dados concretos – sinais que podem se tornar mais visíveis nos próximos meses”. Nesse contexto, comprometer-se de antemão a mudar a política monetária “parece desnecessário e insensato”.
Dados divulgados ontem mostram que a inflação na Espanha subiu acima do esperado em maio, chegando a 8,5%, enquanto na Alemanha se prevê aumento para 8%, a maior em mais de 40 anos.
Apesar da persistência do crescimento da inflação, o BCE deverá manter os juros no encontro da próxima semana e anunciar planos para interromper as compras excepcionais de bônus no início de julho.
Lane disse que quaisquer elevações dos juros pelo BCE depois de setembro dependerão do desempenho da economia. “Este debate continuará no outono [europeu], momento no qual teremos mais informações e saberemos mais sobre a dinâmica da inflação e os efeitos secundários nos salários.”
Fonte: FT / Valor Econômico