Por Nastassia Astrasheuskaya, Polina Ivanova e Nick Peterson — Financial Times, de Riga, Varsóvia e
Londres
06/05/2022 05h04 · Atualizado
Os planos da União Europeia (UE) de impor um embargo progressivo ao petróleo russo têm relevância política. Mas, segundo alguns analistas, terão impacto limitado sobre a economia da Rússia.
A Comissão Europeia, braço executivo da UE, propôs na quarta-feira proibir todas as importações de petróleo russo até o fim do ano. O plano, que precisa da aprovação de todos os 27 países-membros, é parte do sexto pacote de sanções da UE minar a capacidade do Kremlin de mover a guerra à Ucrânia danificando à economia russa.
Mas Sergey Aleksashenko, ex-vice-presidente do banco central da Rússia, acha que o boicote “não tem muito poder” como medida, uma vez que os preços do petróleo aumentaram significativamente, o que neutraliza os custos da perda do mercado europeu.
O orçamento russo é muito dependente das receitas das exportações de petróleo, que responderam por 45% do total de sua arrecadação em 2021. Mas o governo consegue equilibrar receitas e despesas quando as produtoras russas conseguem vender seu petróleo por US$ 44 o barril ou mais.
As sanções – pelo menos aparentemente – tornam essa meta mais, não menos, provável. O Urals, principal tipo de petróleo russo, está sendo negociado a US$ 70 o barril e, embora esteja bem abaixo do tipo Brent, que é a referência do mercado, está muito acima das necessidades orçamentárias da Rússia.
O preço do petróleo tipo Brent subiu 5%, para US$ 110,39 o barril, na quarta-feira, após o anúncio da proposta de boicote da UE.
Se aprovado, os preços do petróleo tenderão a subir ainda mais, o que permitirá que a Rússia absorva o impacto com folga, ao mesmo tempo em que terá um grande impacto para a Europa, que depende da Rússia para atender 30% de sua demanda por petróleo.
Os compradores asiáticos são os destinatários mais prováveis de qualquer superávit de petróleo russo. As refinarias independentes da China já estão comprando maiores volumes de produtoras no país, embora as grandes, de controle estatal, evitem as aquisições devido às sanções ocidentais.
Mas analistas questionam se uma guinada para a Ásia será tão fácil de concretizar. Sessenta por cento das exportações de petróleo russas vão para a Europa – o triplo do volume encaminhado à China – e a infraestrutura de oleodutos é principalmente para transportar petróleo para o Ocidente.
Segundo Craig Kennedy, um assistente do Davis Center da Universidade Harvard, ainda não se sabe “quanto apetite” países como a China têm para importar petróleo russo a ponto de absorver totalmente as atuais vendas para a UE.
A capacidade de levar petróleo para a Ásia por ferrovias está ainda mais limitada do que o normal, após um boicote a importações de carvão por parte da UE já ter feito com que os exportadores se apressassem em garantir capacidade ferroviária para enviar volumes adicionais de carvão para o Leste.
“A Rússia enfrentará gargalos de infraestrutura, demanda incerta e dificuldades logísticas [para exportar petróleo para a Ásia]”, disse Maria Shagina, pesquisadora do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais. “A Rússia continuará a vender petróleo para China e a Índia, mas isso não compensará a perda do mercado europeu. O setor deixará de ser a galinha dos ovos de ouro para Moscou.”
Sofya Donets, economista para a Rússia e região da Renaissance Capital, disse que, embora o impacto imediato do embargo seja suportável para a economia russa, as dificuldades envolvidas em redirecionar as vendas para a Ásia levam a concluir que o impacto de longo prazo poderá ser mais grave.
“No curto prazo esse baque é, em grande medida, previsto, e compensado pela alta dos preços do petróleo”, disse Donets. “No longo prazo, ele comprometerá a atividade econômica e o valor do rublo. Mas a maioria desses impactos vai se tornar realidade com algum atraso, em 2023.”
Outra parte das sanções da UE – um limite sobre os seguros de transporte marítimo para os navios que transportam petróleo russo – também é significativa.
Robin Brooks, economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais, disse: “As sanções a seguros marítimos reduzirão os volumes de tráfego dos petroleiros, uma vez que poucos transportarão [combustível] sem isso”.
Kennedy concordou, destacando que é “pouco provável que a Rússia consiga garantir o número de navios-tanque que se aproxime do suficiente” para transportar para a Ásia todo o seu petróleo exportado para a UE, principalmente se “as seguradoras marítimas, bancos e proprietárias de embarcações” se recusarem a operar devido ao risco representado pelas sanções.
Já a Europa deverá aumentar seu consumo de petróleo do Oriente Médio, segundo previsões, mas isso pode envolver dificuldades. A maioria das refinarias europeias está equipada para processar a mescla do petróleo russo Urals, mais pesada, do que a mais leve, do Oriente Médio.
O processamento de uma categoria diferente de petróleo pode exigir ajuste nas refinarias, e o tipo de investimento necessário para promovê-lo vai comprometer metas ambientais, disse um graduado executivo do setor petrolífero.
Fonte: FT / Valor Econômico
