Por Financial Times
30/03/2023 05h03 Atualizado há 4 horas
As revelações desta semana de que a China aumentou seus empréstimos de socorro aos países mais pobres servem para jogar luz a uma possível crise de dívida no mundo em desenvolvimento. Um novo estudo mostra que os empréstimos de resgate da China aumentaram para US$ 104 bilhões entre 2019 e o fim de 2021 para países da Iniciativa do Cinturão e da Rota, o maior programa transnacional de infraestrutura já feito.
Esse número, embora impressionante, é pequeno comparado aos níveis gerais de endividamento dos mercados emergentes. O Institute of International Finance (IIF), uma associação do setor financeiro, estima que a dívida total do mundo em desenvolvimento subiu para o recorde de US$ 98 trilhões no fim de 2022, depois que governos e empresas fizeram a festa nos últimos anos.
Com tanta dívida pesando sobre as economias mais fracas do mundo, não vai demorar muito para que várias delas fiquem inadimplentes. As pressões estão aumentando. O dólar mais forte está elevando o valor da dívida externa nas moedas locais. As taxas de juros mais altas, necessárias para combater a inflação, também estão aumentando o custo do serviço da dívida. A guerra na Ucrânia está intensificando as incertezas.
Impedir uma crise da dívida do mundo em desenvolvimento deveria ser uma prioridade. Mas à medida que a discórdia estratégica entre a China e o Ocidente liderado pelos EUA se intensifica, a falta de cooperação entre os grandes credores está prolongando o sofrimento de vários países em desenvolvimento inadimplentes. Uma solução para os problemas da dívida dos mercados emergentes é ainda mais complicada pela explosão da dívida do setor privado nas duas últimas décadas.
Essa explosão fez com que entre 2000 e 2021, a parcela da dívida externa pública e com garantia pública dos países de renda baixa e média-baixa junto aos detentores de bônus saltasse de 10% para 50% do total.
O impacto da falta de coordenação é visível. A agência de classificação de risco de crédito Fitch afirma que houve nove defaults soberanos desde 2020, incluindo situações não resolvidas no Sri Lanka e em Zâmbia. As demandas concorrentes entre as organizações multilaterais, a China e outros credores bilaterais e os detentores privados de bônus são tão complexas que hoje leva três vezes mais tempo para se resolver um default do que em média nas duas décadas anteriores a 2020, segundo a Fitch.
É hora de os credores ocidentais e a China fazerem concessões e chegar a um modelo novo e arrojado. Todas as partes – China, financiadores multilaterais, outros credores bilaterais e o setor privado – precisam estar prontas para assumir perdas.
Um novo modelo institucional é necessário. Se Pequim sente alergia ao Clube de Paris (grupo dos principais países credores), então o novo modelo poderia ser construído em torno do G-20 (grupo das principais economias mundiais), que é sempre o fórum internacional preferido da China.
Mas as partes interessadas deveriam deixar claro que o objetivo não deve ser simplesmente reviver a iniciativa de suspensão do serviço da dívida do G-20 (DSSI, na sigla em inglês), que expirou no fim de 2021. O DSSI desempenhou um papel valioso ao fornecer alívio aos pagamentos de juros da dívida para 73 países de baixa renda. O que é necessário agora é mais ambicioso: um modelo combinado para a reestruturação da dívida do mundo em desenvolvimento.
A oposição a esse plano certamente será grande. Mas a incapacidade de lidar com as dificuldades agora servirá apenas para agravar eventuais perdas para todos os credores mais adiante. Pequim deveria perceber que um modelo em que os cortes serão distribuídos igualmente entre os credores é a melhor esperança não apenas de limitar as eventuais perdas, como também preservar sua reputação nos países de renda mais baixa.
Inadimplências não resolvidas no mundo em desenvolvimento já estão tornando a vida miserável para as pessoas em países como o Sri Lanka. Muitos mais poderão sofrer se a China e o Ocidente não encontrarem um caminho para a cooperação no que é claramente um imperativo moral.
Fonte: Valor Econômico
