Por Adriana Cotias — De São Paulo
05/01/2023 05h01 Atualizado há 5 horas
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/9/G/FB29AlT568pLijlGhmwA/arte05fin-101-dynamo-c6.jpg)
Com o acordo para desmembrar a sua operação em Londres, conforme fato relevante divulgado nesta semana, a Dynamo vai passar por uma rara mudança societária na sua história recente.
Cristiano Souza, que estava na casa desde os primórdios do Cougar – um dos fundos de ações mais longevos do mercado brasileiro, criado três décadas atrás -, deixará de ter participação na Dynamo no Brasil para liderar a sua própria gestora. Ele vendeu a sua fatia na asset local ao mesmo tempo que selou a compra da parcela que o grupo e Bruno Rocha, que fundou a filial inglesa em 2006, tinham na Dynamo Capital LLP. Passará a ser o sócio majoritário de uma nova asset que terá outro nome, sem qualquer relação com a empresa brasileira. Souza estará ao lado de Giovanni Rivaro, já do time, e Theodoro Messa, ex-Paineiras, que se junta ao projeto como executivo-chefe de operações.
Na partilha de bens, Souza fica com uma base de quase US$ 900 milhões em ativos sob gestão no Dynamo Global, distribuído no mercado local e em veículos offshore. Metade dos recursos vem do Brasil. “Tem alguns investidores novos entrando nessa transição e tem investidor que vai sair porque compra a marca Dynamo, é razoável esperar uma certa rotação. Mas esse é um projeto de longo prazo, o que vai determinar o AUM [ativos sob gestão] ao longo do tempo é a consistência de resultados”, diz.
Os fundos, que estavam fechados para captação, vão ter uma temporada de reabertura para novos aportes. O executivo evita estimar qual o volume que desejaria ter na estratégia, mas o plano é que, a partir de um certo tamanho, a taxa de administração seja reduzida na margem. Ele cita, como hipótese, que, se atingisse os US$ 2 bilhões, a taxa poderia cair do 1,3% ao ano atual para a casa do 1%.
Rocha, que desembarcou na capital inglesa em 2006 para criar o braço global da Dynamo, ainda estava na cogestão da estratégia, mas nos últimos tempos, Souza afirma que passou a assumir mais responsabilidades para preparar a travessia. “Ele manifestou o interesse de não estar mais tão envolvido no dia a dia. Foi o fundador da Dynamo aqui, importante na minha história e na da Dynamo, mas queria mais liberdade para gastar o tempo dele. No âmbito dessa transição, fazia sentido ele seguir como sócio só no Brasil.”
Souza chegou a Londres em 2015 e diz que toda a sua vida e capital estão dedicados para o fundo global, sem perspectivas de voltar ao Brasil, fazia sentido se desvincular da asset local. Ele conta que o time que montou não tem nenhuma ligação em particular com a operação, com a maior parte dos analistas formada por não brasileiros. “Diante dessas circunstâncias, ficou madura a ideia de criar uma empresa separada com uma estrutura societária para quem está no dia a dia gerindo o negócio, ficando com 100% do equity.”
Ele prossegue dizendo que nesse arranjo foi preservado o vínculo com os antigos sócios, que seguem investindo no fundo global, um selo de confiança e da “inequívoca qualidade da relação que a gente construiu.”
Nos últimos cinco anos, o único evento societário relevante relatado pela Dynamo em seu formulário de referência foi a substituição de Pedro Damasceno, que faleceu em 2017, por Bruno Rudge como diretor responsável pela atividade de gestão da casa. Rudge cita que outra alteração importante foi a própria mudança de Rocha para criar o braço global. Ele diz que o sócio vai permanecer em Londres, mas vai dedicar mais tempo às decisões do comitê de investimento do fundo no Brasil.
“O desenho, no fundo, é para voltar a dar foco para as duas operações, dar autonomia para o Cristiano nas visões e estratégias que talvez não estivessem ecoando como ele gostaria, e, do nosso lado, voltamos um pouco para as origens”, afirma Rudge. “O conceito original era que o negócio representaria uma sinergia para os dois lados. Ao longo do tempo, a gente foi percebendo que não estava funcionando como o desenho inicial.”
Agora, haverá um prazo para execução desse movimento. Enquanto todas as autorizações regulatórias não estiverem prontas, Souza seguirá usando a retaguarda operacional e de transações da Dynamo, além da placa atual da gestora. Para captar recursos no Brasil, a nova asset vai precisar fechar novos acordos de distribuição. Na base de estrangeiros, Rudge diz haver pouca sobreposição de investidores do Cougar com o veículo global.
As mudanças na Dynamo ocorrem após um ano sofrível para as bolsas internacionais, em meio ao ciclo de aperto monetário nos países desenvolvidos. O fundo distribuído no Brasil, o Dynamo Global FIC FIA, teve desvalorização de 28,6% em 2022, após três anos de resultados expressivos. Desde 2012, quando o veículo foi criado, acumula valorização de 377,2%.
Souza diz que o momento da transição foi afetado por essa situação também, diante da oportunidade ímpar de investir em ações fora do Brasil. “A gente está saindo de um período em que a maré estava levantando todos os barcos para um em que as boas companhias vão se diferenciar daquelas que não têm um modelo de negócio tão sólido e consistente”, afirma. “É algo que não se via com a inflação de múltiplos, entre 2015 e 2021, bastava mostrar uma taxa de crescimento acelerada e a ação valia muito mais do que o razoável. Agora, estamos entrando numa fase de separar o joio do trigo, achar a qualidade das empresas num ambiente macro difícil, não tem mais o vento em popa.”
O movimento da Dynamo lembra o da IP Capital Partners (IPCP) com a IP Global, de Roberto Vinháes, em 2016. Na ocasião, ele chegou a um acordo com o sócio Christiano Fonseca Filho para separar as estruturas. Foi o que deu origem à Pipa Global, que em 2021 foi rebatizada como Nextep, trazendo Rodrigo Lobo para a sociedade e passando a ter a sua operação principal no Brasil.
Fonte: Valor Econômico
