A Dynamo fechou o ano com rentabilidade de 56%, em dólar, no fundo Cougar — que, desde o princípio, em 1993, acumula rentabilidade de 31.224%. Em reais, o retorno no ano passado foi de 38,7%, um pouco acima dos 34% do Ibovespa.
De acordo com a carteira na CVM, que pode ter atraso na atualização, as maiores posições do fundo estavam em Eneva, Rede D’Or, Vibra, Localiza e Itaúsa. Na carta mensal da gestora divulgada hoje, a Dynamo não cita nenhuma de suas posições — mas mostra que se desapontou com alguma delas. A gestora faz uma análise sobre como decisões bem-intencionadas podem gerar efeitos opostos aos desejados e, por isso, eventos corporativos e projeções demandam que investidores olhem além do óbvio.
Para ilustrar situações em que ações deliberadas produzem efeitos colaterais inesperados, muitas vezes negativos, e capazes de alterar radicalmente o curso de empresas, mercados e políticas públicas, a gestora costura exemplos históricos aparentemente desconectados. Um deles remete à China de Mao Tsé-Tung, quando a campanha para erradicar pardais — considerados inimigos da agricultura — contribuiu para uma explosão de gafanhotos e para o colapso da produção de grãos, aprofundando a Grande Fome entre 1959 e 1962.
Em outro extremo, a carta relembra a chamada Lei de Gresham, formulada no século XVI, segundo a qual “a moeda ruim expulsa a moeda boa de circulação”, um efeito perverso de políticas monetárias mal calibradas. O fio condutor desses episódios, segundo a Dynamo, é a tendência humana de subestimar efeitos de segunda ordem. “A História é o resultado da ação humana, mas não de seus desígnios”, escreve, citando o filósofo Adam Ferguson, para reforçar a ideia de que sistemas sociais e econômicos reagem de forma complexa às intervenções.
No mundo corporativo, os exemplos são ainda mais familiares. A carta revisita casos clássicos como a Kodak, que inventou a câmera digital, mas hesitou em comercializá-la para não canibalizar o negócio de filmes — e acabou perdendo relevância. Ou a “New Coke”, lançada nos anos 1980, que provocou forte reação emocional dos consumidores e obrigou a companhia a recuar. Mais recentemente, a decisão da Boeing de adaptar o 737 em vez de desenvolver um novo avião culminou em acidentes, perdas financeiras bilionárias e danos reputacionais.
A Dynamo também traz exemplos do mercado brasileiro, mas preservando os nomes das empresas. Aquisições que aumentaram a complexidade operacional, movimentos defensivos que fortaleceram concorrentes, ciclos de investimento feitos no pico da euforia e decisões de preço que levaram à fuga inesperada de clientes aparecem como ilustrações de como estratégias aparentemente racionais podem sair do controle.
A Dynamo argumenta que a confiança excessiva em projeções, modelos formais e controles top-down pode gerar uma falsa sensação de domínio sobre o futuro. Em ambientes dinâmicos, estratégias emergem mais das interações cotidianas do que de planos detalhados — e ignorar isso aumenta o risco de surpresas negativas.
Para o gestor, reconhecer a inevitabilidade das consequências não intencionais não significa abdicar de estratégia, mas sofisticar a análise. O processo de investimento da casa passou a incorporar abordagens como pensamento sistêmico, análise de reações de concorrentes, mapeamento de riscos por meio de exercícios de “pré-mortem” e questionamentos mais profundos sobre incentivos, governança e efeitos colaterais das decisões corporativas.
“O erro, para o investidor de longo prazo, é mais doído”, afirma a Dynamo ao explicar por que dedica tanto esforço a entender surpresas negativas ex post. A meta é transformar frustração em aprendizado e reduzir a probabilidade de repetir decisões que, embora bem-intencionadas, acabem produzindo exatamente o oposto do que se pretendia.
A carta é um alerta em um momento em que empresas e governos enfrentam ambientes cada vez mais complexos, conectados e sensíveis a incentivos. Para a Dynamo, em sistemas complexos, o que não se vê pode ser tão ou mais relevante quanto aquilo que está explícito no plano original.
Fonte: Valor Econômico
