Por Assis Moreira — De Genebra
14/04/2022 05h00 Atualizado há 5 horas
A diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, chegará no fim de semana a Brasília, em sua primeira visita à América Latina. E um de seus interesses é saber o quanto o Brasil poderá ajudar a evitar uma iminente crise global alimentar. Se o Brasil exportar adicionalmente alimentos, poderá ajudar a frear a espiral de alta dos preços globalmente, disse Ngozo em entrevista ao Valor. De seu lado, a mensagem que deverá ouvir do governo brasileiro é efetivamente de que o Brasil é parte da solução, com superávit de grãos e proteínas para atender o mundo.
A diretora-geral não esconde a preocupação com as repercussões econômicas do duplo choque da pandemia e da guerra na Ucrânia sobre a economia e o comércio mundial. O efeito mais imediato da guerra tem sido a forte subida nos preços de alimentos, energia, fertilizantes e alguns importantes minérios, dos quais a Rússia e a Ucrânia são grandes fornecedores. As perspectivas são tão incertas que a projeção da OMC para o comércio de mercadorias neste ano varia de alta de 0,5% a 5,5%.
Ela não descarta riscos de ainda mais tensões geopolíticas, nacionalismo e populismo, protecionismo. Mas faz uma firme defesa do sistema multilateral do comércio, para a resiliência das economias, inclusive em vista de crescentes perigos relacionados à mudança climática.
Ngozi desembarcará em Brasília na noite de sábado. No domingo, participará de um churrasco. Ela conta que seus filhos, nos EUA, frequentam churrascaria brasileira e consideram o rodízio de carnes “maravilhoso”. Na segunda-feira, se encontrará com o presidente Jair Bolsonaro, fará palestra no Itamaraty e terá reunião com ministros. Na terça-feira, a Confederação Nacional da Industria (CNI) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) organizam o evento “Diálogo Empresarial” com a diretora-geral da OMC, em São Paulo, quando apresentarão a ela um documento com prioridades do setor, que inclui combate aos subsídios agrícolas e industriais.
Ngozi Okonjo-Iweala assumiu o comando da OMC em março de 2021 e tornou-se a primeira mulher e a primeira africana a atuar como diretor-geral dessa entidade chave na governança global. Antes, foi ministra de Finanças da Nigéria (2003-2006 e 2011-2015) e ministra de Relações Exteriores em 2006. Tem uma carreira de 25 anos no Banco Mundial, onde chegou a número 2. É formada pela Universidade Harvard e tem doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Na fim da entrevista, Ngozi comentou sobre a seleção de futebol da Nigéria. Para ela, o time tem muitos bons jogadores, mas precisa de mais entrosamento coletivo. A Nigéria não se classificou para Copa do Mundo deste ano, a ser realizada em novembro e dezembro, no Qatar. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Valor: A senhora faz no Brasil sua primeira visita na América Latina O que espera do país?
Ngozi Okonjo-Iweala: O Brasil é um membro muito importante da OMC, muito ativo e fundamental em várias das negociações que estamos fazendo. É um país grande, vamos ter uma conferência ministerial [MC 12] em junho e será bom conversar com os colegas no Brasil, para que eles saibam o que a OMC está fazendo, para ouvir suas perspectivas e para buscar o apoio do Brasil para uma MC 12 forte.
Se o Brasil é capaz de liberar alimentos adicionais no mercado, pode ajudar a fazer baixar o preço dos alimentos”
Valor: O mundo vai na direção de uma crise alimentar global. Quem poderia fazer mais nesse cenário?
Okonjo-Iweala: Eu seguramente estou preocupada com a perspectiva de uma iminente crise alimentar global. A Ucrânia e a Rússia representem menos de 3% do comércio mundial de mercadorias, mas são muito, muito importantes em certos setores, como alimentos. Veja, 30% do trigo do mundo e 73% do óleo de girassol vêm dos dois países, além de muita cevada, milho, tantos grãos e outros alimentos. Várias regiões do mundo são bastante dependentes da região do mar Negro. Na África, 35 países importam alimentos da Rússia e da Ucrânia, e pode-se ver que o Egito está tendo problemas agora porque a maior parte de seu trigo vem desses dois países. Portanto, com guerra na Ucrânia, se não tomarmos medidas, pode resultar em estresse real. Penso que mesmo na América Latina, [com] a inflação em muitos países, o alto custo dos alimentos. Temos uma situação de crise e, se não cuidarmos, poderemos continuar com ela no próximo ano, a menos que sejamos capazes de apoiar corredores humanitários para que a Ucrânia possa colher a safra de inverno em julho. O Brasil é uma potência exportadora de alimentos. É um dos países mais importantes do mundo no que diz respeito à agricultura e à alimentação. E é claro, se o Brasil é capaz de liberar alimentos adicionais no mercado, pode ajudar a fazer baixar o preço dos alimentos globalmente. Estou interessada em como o Brasil vê a situação e o que ele pode fazer. Naturalmente, sei que o Brasil depende da região do mar Negro para fertilizantes e que essa é uma grande preocupação pelo que vai acontecer. Sei que o Brasil está tentando fazer arranjos alternativos para se abastecer em outros lugares.
Valor: Concretamente, o que o Brasil pode fazer mais, nesse caso?
Okonjo-Iweala: O Brasil tem a capacidade de aumentar [o fornecimento de] todas essas coisas. É um dos maiores produtores de soja no mundo, por exemplo. Com escassez óleo de girassol agora por causa dos problemas da Ucrânia, você pode imaginar que o Brasil poderia substituir por outro óleo. No mercado de milho, 15% vêm da Ucrânia. Se o Brasil pudesse liberar mais milho no mercado internacional, poderia ajudar também.
Valor: E a inflação doméstica? Aumentaria?
Okonjo-Iweala: Não exatamente. Eu não encorajaria nenhum país a exportar, a menos que eles se sentissem muito à vontade com mantimentos suficientes para si mesmos. A primeira coisa que você faz é ter certeza de que tem suprimentos suficientes. O que digo aos membros da OMC é que, se você tem um estoque extra, e muitos países têm, especialmente de grãos e óleos, podem ajudar.
Valor: Como a sra. vê preocupações de exportadores agrícolas de que alguns países possam tentar se aproveitar para usar seus estoques formados para segurança alimentar, com subsídios, para abocanhar fatias no mercado global?
Okonjo-Iweala: Veja, neste momento temos escassez de fornecimento de produtos realmente importantes no mundo. O trigo é alimento básico para muitos, muitos, muitos países. Portanto, o que estamos focando agora não é tanto na questão de quem vai lucrar e sim como responder às consequências humanitárias do aumento dos preços dos alimentos. Tirar 30% do trigo do mercado mundial é enorme. Mesmo aqueles países que têm a mais não podem compensar tudo isso. A grande preocupação agora é ter os suprimentos. Vamos cuidar da fome no mundo.
Valor: Para o comércio mundial, o que a inquieta mais no curto prazo: a guerra ou os lockdowns de novo na China?
Okonjo-Iweala: As duas situações têm impacto sobre as cadeias de abastecimento. Obviamente os confinamentos na China, sendo Xangai um dos portos mais importantes do mundo, e quando Xangai é fechada, tem um grande impacto no movimento de mercadorias. Mas penso que a guerra na Ucrânia está neste momento tendo mais impacto, simplesmente porque tem o medo do que a pessoa fará para se alimentar. Por que isso é tão importante? Porque são as pessoas pobres as mais atingidas. Os preços dos alimentos e da energia estão subindo bastante. A Rússia também tem 10% das exportações de energia do mundo. Portanto, você tem preços altos de alimentos, preços altos de energia e muitos, muitos lares pobres gastam grande percentagem de seu orçamento nesses itens. Eu repito o que disse António Guterres, o secretário-geral da ONU. Precisamos acabar com as mortes, acabar com a fome, não apenas na Ucrânia, mas também em outras partes do mundo, e com o aumento dos preços dos alimentos. Os preços da energia afetam quase todos através do transporte.
O comércio já tirou mais de 1 bilhão de pessoas da pobreza. Ajudou a integrar o mundo e a trazer a paz”
Valor: Com dois choques seguidos, há risco de estagflação global?
Okonjo-Iweala: Há um risco certamente e é por isso que a maioria dos bancos centrais está agora concentrando sua atenção na luta contra a inflação e tentando fazer o equilíbrio de como perseguir esse objetivo com metas de emprego e crescimento econômico. Espero que isso não se materialize globalmente. Se pudermos tomar as medidas certas para aliviar a situação alimentar, acho que ajudará. A situação energética é um pouco mais complicada. Os Estados Unidos estão liberando suas reservas, ao ritmo de 1 milhão de barris de petróleo por dia durante os próximos seis meses. Isso ajudará, mas pode não resolver todos os problemas. Acho que, sem a Rússia, são 2 milhões ou 3 milhões de barris por dia retirados do mercado. Assim, qualquer país que consiga obter liberação de suas reservas de petróleo vai ajudar. Em alimentos, temos a capacidade de realmente tentar atenuar a situação, porque os países também podem mudar de dieta, tentar substituir. Mas não é tão fácil substituir o gás e o petróleo no curto prazo. Espero que, no longo prazo, isso impulsione o movimento em direção às energias renováveis. Apesar de [uma situação] difícil, ela deve ser vista como oportunidade para começarmos a nos mover mais rapidamente para energias renováveis e emissões líquidas zero até 2050.
Valor: Como a sra. vê riscos de fragmentação no comércio se tornar uma realidade?
Okonjo-Iweala: Bem, está muito na moda agora falar de desacoplamento, fragmentação, uma quebra em duas ou três esferas de comércio. Conversas sobre a desglobalização começaram antes mesmo da pandemia de covid-19. Mas agora, por causa da guerra, o mundo passou, como você disse, por vários choques, o pandêmico e agora o da guerra. Nós também tivemos o choque da mudança climática. Apesar desses choques, o comércio tem sido relativamente resistente, ainda capaz de mover mercadorias ao redor do mundo, mesmo com todas as questões da cadeia de abastecimento. O que eu quero dizer é que o sistema multilateral de comércio já proporcionou para o mundo no passado. Já tirou mais de 1 bilhão de pessoas da pobreza. Ajudou a integrar o mundo e a trazer a paz. Sei que as pessoas estão sentindo que esse princípio foi rompido agora, mas não devemos tirar conclusões erradas a partir disto. Não devemos concluir que o desacoplamento ou diferentes blocos comerciais terão agora peso e é o caminho a seguir, porque os custos para a economia global a longo prazo serão substanciais.
Valor: A OMC fala em baixa de 5% do PIB mundial…
Okonjo-Iweala: As simulações de nossos economistas mostraram que mesmo com apenas uma parte desses custos, nem mesmo levando em conta todos [os impactos], poderia resultar em uma perda de 5% no PIB. Isto não é trivial. E há muitos outros custos que resultariam em ainda algo pior do que 5%. A perda para o mundo tem muitas consequências. O que devemos procurar demonstrar e fazer é reconstruir e apoiar o sistema multilateral de comércio. Sei que as pessoas estão falando de “reshoring”, “nearshoring” etc. As evidências sobre tudo isso ainda não são muito grandes. Estou segura de que haverá algum “reshoring” e já vimos alguns “nearshoring”’, ok, como mudança da produção da China para o Vietnã. Podemos ver um pouco disso e na verdade não é ruim. Esse tipo de globalização, em que você vê a produção em diferentes países, pode ser uma coisa boa. Eu a chamo de reglobalização e deveríamos usá-la conscientemente para trazer para a integração no comércio global aqueles países que foram marginalizados.
Valor: Mas a realidade é que temos crescente discurso de nacionalismo econômico, de autonomia estratégica, e uma espécie de armamentização do comércio com países usando seu poder em vez de seguir regras. A cooperação internacional está em situação muito ruim.
Okonjo-Iweala: Sim, não há absolutamente nenhuma dúvida de que o multilateralismo foi atingido. E o que você está dizendo sobre armamentização, se quiser usar essa palavra, de comércio como instrumento, usando as tensões geopolíticas, populismo e nacionalismo, tendência ao protecionismo, todas essas coisas, é verdade, estão acontecendo. E tem um risco de que podermos ver um pouco mais. Mas não é esse o tipo de tendência que queremos incentivar ou ver na OMC. É claro que as circunstâncias agora com a guerra fazem com que todos queiram olhar para sua situação interna. Mas, a longo prazo, o isolamento não paga individualmente para os países nem para o mundo. Se amanhã você tiver eventos de mudança climática, enchentes ou secas, que acabam com toda a sua colheita no país, se você não tiver comércio, o que você faz? Você passa fome? Mas se você tem comércio, você é resistente e consegue suprimentos de outras partes do mundo.
Valor: A tendência de produtos livres de desmatamento será um novo normal no comércio internacional?
Okonjo-Iweala: Veja, precisamos pensar em termos de incentivos, certamente para manter nossas florestas, pois existem alguns dos maiores reservatórios de carbono do mundo. E precisaremos pensar em como equilibrar esse tipo de abordagem. O Brasil já assinou na COP26 [Conferência do Clima de Glasgow] uma declaração pública global sobre florestas e uso da terra, para diminuir a taxa de desmatamento e estabeleceu algumas metas. Isso é uma coisa boa. Acho que dessa forma o governo brasileiro está fazendo a coisa certa.
Valor: A União Europeia tem plano de proibir a entrada de commodities vindas de áreas de desmatamento. É o tipo de proposta que poderá ser copiada por outros países?
Okonjo-Iweala: O que eu diria é que o mundo estabeleceu metas para que as emissões de carbono sejam baixas e, depois, chegar ao zero líquido até 2050. Todos os países do mundo se engajaram, incluindo o Brasil, e estão obviamente procurando instrumentos e mecanismos para fazer isso. Na OMC, o que insistimos é que esses instrumentos não devem se tornar um instrumento de discriminação no comércio. Analisaremos todas as propostas com essa lente para assegurar que sejam compatíveis com as regras da OMC, que não discriminem em relação a outros produtos comparáveis de outros países. É o que posso dizer a você. É bom procurar um instrumento que seja bom para combater as emissões de carbono, mas isso deve ser feito de uma maneira que seja compatível com a OMC.
Valor: Como a sra. avalia o plano de taxa carbono na fronteira da UE, visando concorrentes que não estejam submetidos aos mesmos padrões ambientais?
Okonjo-Iweala: Como eu disse, a CBAM [mecanismo de ajuste de carbono na fronteira] tem que ser compatível com as regras da OMC. Mas o que eu gostaria de lhe dizer que temos hoje 70 sistemas fragmentados de fixação de preços de carbono e de taxação no mundo. E é muito difícil para as empresas navegarem nessa fragmentação, especialmente as pequenas e médias empresas. E são elas as que criam mais empregos. O que estamos dizendo na OMC é que devemos ter um preço global do carbono. E que a OMC, o FMI, a OCDE e o Banco Mundial deveriam trabalhar juntos para apresentar uma metodologia global para um preço global do carbono. Na verdade, estamos conversando uns com os outros agora, tentando trabalhar juntos para fazer isso. Será a melhor maneira para o mundo lidar com isso. Isso pode ser feito. Os líderes do mundo deveriam pedir a essas organizações que montem [esse preço de carbono]. Eu defendo que deve haver um grande empurrão por parte dos líderes. Não podemos continuar com sistemas fragmentado no mundo. Isso simplesmente não funciona.
Valor: Existe possibilidade de a Rússia ser expulsa da OMC?
Okonjo-Iweala: Neste momento a OMC não tem um instrumento ou metodologia para expulsar seus membros. Tentar fazer isso será extremamente difícil. Há algumas organizações que têm um instrumento, mas nós não temos.
Valor: Mas a OMC também tem tensões diplomáticas sobre isso….
Okonjo-Iweala: Neste momento existem tensões diplomáticas. Veremos o que acontece na conferência ministerial de junho. Isso não nos impediu de trabalhar. Ainda encontramos maneiras de trabalhar em volta do problema e manter nossas sessões de negociação em pequenos grupos em diferentes configurações. A tensão está aí, mas estamos tentando trabalhar com ela.
Fonte: Valor Econômico
![foto14esp-101-omc-a14[1]](https://clipping.ventura.adm.br/wp-content/uploads/2022/04/foto14esp-101-omc-a141-1000x500.jpg)