Por Adriana Cotias — De São Paulo
11/01/2023 05h00 Atualizado há uma hora
Um grupo de executivos saídos do Safra se uniu para criar a Dhama Capital, gestora de recursos dedicada a crédito privado, sob a liderança de Fabiana Moraes. A executiva tem ao seu lado Felipe Bergmann e Luana Ladeira, “todos bancários puro sangue” na gestão. A asset nasce com o suporte de R$ 500 milhões do BTG Pactual, que entra como acionista minoritário e com o capital inicial para os dois fundos que vão começar a rodar.
A estrutura será via multimercados fechados, com prazo de captação e de investimento, a fim de selecionar ativos de crédito “high yield”, com maior potencial de retorno e risco. O foco está em companhias com faturamento entre R$ 200 milhões e R$ 2 bilhões, na fronteira que o mercado chama de “upper middle” e “low corporate”. O planejamento de cinco anos inclui agregar fundos imobiliários, do agronegócio, de infraestrutura e o crédito internacional.
“O objetivo da Dhama é ser uma consolidadora de assets de crédito com um time de bancários, profissionais que sabem atravessar crises de forma diferente de quem não veio de banco”, afirma Moraes, citando a experiência de já ter feito muita renegociação de dívida como integrante do comitê de crédito do banco comercial e da asset do Safra. “Há uma série de fundos de crédito abertos nos últimos anos, mas poucos passaram por crise de crédito de fato. Historicamente, o ‘high grade’ [de melhor qualidade] não dá problema, o que dá problema é o meio do caminho, que começou agora a sair dos bancos para o mercado de capitais.”
A executiva entende que a vivência bancária traz a gestão do crédito nos mais diversos ciclos econômicos, com o setor às voltas com o monitoramento, provisões e períodos de maior deterioração da carteira.
No médio prazo, ela estima atingir um patrimônio de R$ 1 bilhão sob gestão, valendo-se da demanda crescente pela renda fixa em meio à Selic de 13,75% ao ano – um chamariz para o passivo, mas um desafio do lado do ativo. No ano passado, os multimercados e fundos de ações tiveram resgates de R$ 158,1 bilhões. As carteiras de renda fixa também perderam volume, R$ 48,9 bilhões, com saques concentrados, contudo, em fundos de curto prazo. O dinheiro migrou em massa para títulos de crédito isentos de imposto de renda para a pessoa física.
“O mercado, de forma geral, ficou eufórico com a renda fixa nos últimos anos, mas quando se fala numa taxa dessas, mais um spread de 4% a 5%, sangra muito a companhia, sangra para valer. Quando sangrar, a diferença está em como se comportar em relação ao cliente”, afirma Moraes. A executiva diz que a arte está em selecionar muito bem antes de assumir o risco e, uma vez nele, monitorar de perto, porque haverá ocasiões em que a gestora pode ser obrigada a tomar uma atitude mais drástica e outros momentos em que vai emprestar mais recursos para a empresa.
As conversas com o BTG começaram em dezembro de 2021, um mês depois de a executiva sair do Safra, com o acordo concretizado no fim de 2022, após colocar a estrutura da asset de pé e ter cumprido o período de quarentena contratual. “A parceria com o BTG nos traz segurança do ponto de vista do empreendedorismo”, diz.
Bergmann e Ladeira faziam parte do núcleo de dívida do Safra e embarcaram no que a gestora chama de projeto das suas vidas, num alinhamento societário de um time que já é conhecido do mercado. “Estamos empreendendo, mas não é uma aventura, estamos seguindo nossa carreira, é o que a gente sabe fazer”, diz Bergmann.
No início, o foco é o investidor profissional, com patrimônio financeiro a partir de R$ 10 milhões, os serviços de gestão de fortunas, além do público institucional, que terá um veículo específico. A primeira estratégia não vai ser distribuída pela plataforma do BTG Pactual. Bergmann diz que, após o prazo de investimento, prevê fazer amortizações periódicas, devolvendo os recursos aos investidores, mas a ideia não é encerrar os veículos e sim seguir reinvestindo.
Em meio ao espaço encontrado para mais uma asset de crédito, Bergmann diz ver as outras gestoras como parceiras e não como concorrentes. “Podemos analisar operações juntos e dividir”, afirma. “O cheque individual das novas assets não é tão representativo, e a união é importante para atrair o cliente tomador.” O gestor afirma que, se encontrar operações “high grade” no mercado secundário pagando bem, também vai investir.
Cada ativo que for compor a carteira não vai superar 10% do patrimônio – o mantra é evitar concentração. “Às vezes, um fundo pode não render o que se esperava, mas, se o gestor tiver diligência e transparência, a asset se perpetua”, afirma.
Além dos três sócios, a equipe conta com outros cinco profissionais e, ao longo do ano, o plano é ter 15 pessoas, cita Ladeira. O tamanho vai ser calibrado de acordo com a evolução do negócio. “Com as operações mais arriscadas saindo de banco, a asset precisa ter time para isso”, diz Moraes.
Fonte: Valor Econômico