Por Anaïs Fernandes — De São Paulo
27/03/2023 05h00 Atualizado há 5 horas
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A inflação acumulada em 12 meses, que vem desacelerando mês a mês desde julho de 2022 e chegou a 5,4% na prévia de março deste ano, deve continuar nesse movimento e ir abaixo de 4% até junho, alimentando ainda mais a pressão política para que o Banco Central inicie logo o ciclo de corte dos juros. Economistas alertam, no entanto, que esse alívio deve ser apenas temporário e, mesmo agora, medidas mais tendenciais da inflação continuam pressionadas.
A expectativa é que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses volte a subir no segundo semestre de 2023, aproximando-se de 6% até o fim do ano e transferindo pressão para 2024, período que está no horizonte relevante para a autoridade monetária, diferentemente da inflação corrente.
Segundo economistas, são duas as explicações para esse vaivém da inflação acumulada. Uma delas é estatística. “Até junho, temos três meses de deflação – julho, agosto e setembro de 2022 – entrando nesse acumulado e oferecendo uma contribuição negativa”, diz Claudia Moreno, economista do C6 Bank.
Nesses três meses do ano passado, o IPCA registrou variações negativas de 0,68%, 0,36% e 0,29%, respectivamente, refletindo o corte de impostos em itens como combustíveis e energia promovido pelo então presidente Jair Bolsonaro em meio à corrida eleitoral.
“Foi uma canetada do governo. A partir de julho deste ano, esses números vão sair dos 12 meses e essa base vai ficar maior”, diz Marco Caruso, economista-chefe do Banco Original. Além disso, houve no atual governo a reoneração dos combustíveis, ainda que parcial, a partir de março deste ano. “Nosso número fechado para o IPCA em 2023, de 5,7%, supõe uma continuidade de reonerações parciais.”
A outra explicação para a oscilação da inflação em 12 meses tem fundamento mais propriamente econômico, segundo Caruso.
“O mercado de trabalho continua aquecido, ainda que, na margem, o desemprego tenha parado de cair. Quando eu calculo o que isso sugere para a inflação de serviços, dada certa defasagem, e conto também com o aumento da massa salarial, por causa das transferências do governo e da própria inflação cadente, observo que a inflação de serviços deve continuar bastante pressionada ao longo de todo o ano”, afirma.
É por isso que o Original diz que a dinâmica do IPCA em 2023 terá “dois atos”. “O curto prazo será melhor, pelo efeito estatístico e também por contribuição para baixo dos alimentos. Mas, no segundo semestre, os alimentos não devem ajudar tanto e ainda tem o contraponto de alguma pressão na inflação de serviços”, diz Caruso.
A inflação está, de fato, desacelerando, mas não tão rápido quanto a “ajuda artificial” do corte de impostos lá atrás faz parecer, afirma Moreno, do C6.
“Se o governo olhar só a inflação passada, em 12 meses, vai usar isso como argumento para pressionar o Banco Central. Mas medidas mais qualitativas e menos voláteis ainda indicam uma rigidez da inflação em nível alto”, afirma Helcio Takeda, diretor de pesquisa econômica da Pezco.
Para ter uma ideia melhor do que acontece com a inflação, Moreno diz ser preciso olhar os núcleos e o que aconteceu, na média, nos últimos três meses.
Dados da MCM Consultores mostram que, na prévia da inflação de março, a média dos núcleos acumulada em 12 meses, por exemplo, estava em 7,94%, e não em 5,4% como o IPCA cheio. “A média móvel de três meses, anualizada e dessazonalizada, que tira esse impacto da inflação acumulada, caiu um pouco, mas segue também em patamar elevado e acima da meta”, diz Moreno. As metas de inflação para o BC perseguir são de 3,25% neste ano e 3% nos dois seguintes.
No último comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom), na semana passada, o BC indicou que, mesmo se os juros permanecerem parados ao longo do horizonte relevante, a inflação ficaria levemente acima da meta no seu modelo, observa Moreno. O C6 espera um corte da Selic apenas em 2024. “Tecnicamente, não tem motivo para o BC levar esse ‘efeito-base’ [da inflação em 12 meses menos pressionada no primeiro semestre de 2023] em conta, mas a gente sabe que a pressão política vem”, afirma.
Pelo “livro-texto de economia”, diz Caruso, os analistas sabem que o BC não baseia suas decisões de política monetária na inflação corrente, mas olhando à frente. “Mas a gente sabe que, em um mundo em que as narrativas importam mais do que as verdades, vai entrar no rol das discussões que a Selic não se mexe, enquanto a inflação no ‘primeiro ato’ vai ficar abaixo de 4%. No calor da emoção, a fervura sobre o BC só aumenta”, afirma.
O Original vê o início do ciclo de corte da Selic no último trimestre de 2023, levando a taxa a 13% no fim do ano. “Quem vai acabar dizendo se poderá acontecer antes são as expectativas de inflação e como isso vai bater no modelo do BC. E as expectativas vão andar conforme a leitura que será feita sobre o arcabouço fiscal a ser apresentado”, diz Caruso.
A AZ Quest espera que o corte na Selic comece em agosto deste ano, mas a economista Mirella Hirakawa diz ver uma “janela de oportunidade” começar a surgir a partir de junho, quando se espera que o novo arcabouço já tenha sido apresentado. “Vai depender de todos os ingredientes dessa receita para ter um bom produto final.”
Fonte: Valor Econômico