Embora o temor de uma recessão nos Estados Unidos causada pela investida tarifária do presidente Donald Trump tenha diminuído, dados da economia americana referentes a maio frustraram as expectativas de agentes e elevaram, novamente, as tensões nos mercados sobre possíveis efeitos que a guerra comercial pode gerar na atividade econômica. Na prática, parte dos prêmios foi retirada no mercado de juros, que passou a exibir taxas mais baixas, especialmente no longo prazo.
Dois indicadores surpreenderam negativamente na sessão de ontem. Em um primeiro momento, a criação de somente 37 mil empregos no setor privado americano em maio, segundo dados da ADP, frustrou as estimativas, que apontavam geração de 110 mil vagas. O desapontamento se intensificou após o ISM mostrar que o índice de atividade do setor de serviços contrariou as expectativas de alta e caiu a 49,9 pontos, entrando em território de contração.
Nos Treasuries, o movimento foi instantâneo e a redução dos prêmios de risco se aprofundou ao longo da sessão. Após o estresse visto no mês de maio, que levou as taxas de longo prazo a níveis historicamente elevados, o mercado viu oportunidade de alongar posições aplicadas após os indicadores mais fracos. Isso levou a taxa da T-note de dez anos a cair de 4,470% para 4,359%, e o retorno do T-bond de 30 anos recuou de 4,989% para 4,881%.
Não houve alívio, porém, no mercado de câmbio, e o dólar voltou a cair com força ante outras moedas principais. Se, antes de Trump assumir a Casa Branca, o mercado apostava na valorização da divisa americana, agora a expectativa continua a ser de um dólar mais fraco, na medida em que há um crescimento econômico menor nos EUA, além dos questionamentos à tese do “excepcionalismo” americano e do status da moeda como porto seguro.
O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de outras seis moedas fortes, operava em queda de 0,41%, aos 98,819 pontos, no início da noite de ontem. O dólar tem recuado de forma significativa desde o começo do ano e parte do mercado continua a ver espaço para uma desvalorização adicional.
É o caso do estrategista Patrick Locke, do J.P. Morgan, que manteve a estratégia de posições vendidas (aposta na queda das taxas) em dólar contra o iene, o euro e o dólar australiano. “A moderação cíclica da economia dos EUA, que sustenta nossa posição estratégica de venda de dólares, teve continuidade com os dados divulgados hoje [ontem]”, observa.
“Junto com o ADP, que ficou muito fora do consenso, não é surpreendente ver o dólar caindo no dia, juntamente com as taxas dos Treasuries após os dados do ISM”, afirma o estrategista. Locke observa que uma queda significativa nos novos pedidos pesou no sentimento dos agentes do mercado, ainda que os dados de emprego no setor de serviços não tenham sido tão ruins. As atenções se voltam, agora, para o relatório de empregos (“payroll”) referente a maio, que será divulgado amanhã.
Na visão dos estrategistas de renda fixa Ian Lyngen e Vail Hartman, do BMO Capital Markets, os números representaram “uma grande surpresa negativa”, além de terem lançado dúvida sobre as expectativas para o payroll, ainda que a correlação mensal entre os dados da ADP e o relatório oficial de empregos dos EUA seja fraca.
Isso levou o Bank of America a, ainda durante a tarde, reafirmar a expectativa acima do consenso de que haverá uma geração de 150 mil empregos a ser mostrada no payroll e que, mesmo se houver uma frustração com a geração de vagas, o Federal Reserve (Fed) não deve se incomodar e, assim, continuará a manter as taxas de juros paradas entre 4,25% e 4,50%.
No caso do Goldman Sachs, os economistas revisaram para baixo a projeção para o payroll. Agora, o banco americano espera a criação de 110 mil vagas no mês de maio, ante 125 mil anteriormente. “Acreditamos que os dados desta manhã [de ontem] sinalizam risco de queda para o relatório de emprego de sexta-feira”, afirmam os profissionais.
Além disso, após os dados de ontem, a precificação de cortes de juros pelo Fed foi levemente ajustada para cima pelo mercado neste ano. De acordo com dados do CME Group, que compila os futuros dos Fed funds, há 31,4% de chance de três cortes de 0,25 ponto percentual nos juros americanas neste ano, ante 24,4% ontem. Apesar disso, a visão predominante no mercado segue sendo a de duas reduções até dezembro, com 38,5% de probabilidade.
Em Wall Street, as principais bolsas de Nova York fecharam em direções opostas, devolvendo os ganhos vistos na abertura. O índice Dow Jones encerrou em queda de 0,22%, aos 42.427,74 pontos, o S&P 500 ficou estável (+0,01%), aos 5.970,81 pontos, e o Nasdaq avançou 0,32%, aos 19.460,489 pontos.
O setor de serviços de comunicação (+1,37%) teve a maior alta do S&P 500, enquanto energia (-1,89%) e serviços públicos (-1,70%) lideraram as perdas.
Fonte: Valor Econômico