Exatamente quatro anos separam a situação financeira crítica do grupo CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) no final de 2025 daquele que a empresa, comandada pelo empresário Benjamin Steinbruch, considerou como um “ano histórico”, tanto pelos resultados operacionais e financeiros quanto pelo fortalecimento de todos os negócios do grupo.
A CSN encerrou 2021 com receita líquida de R$ 48 bilhões, lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de R$ 22 bilhões e lucro líquido de R$ 13,6 bilhões. A alavancagem financeira era de causar inveja: 0,76 vez pelo critério de dívida líquida sobre o Ebitda. No caixa, a CSN dispunha de R$ 17,6 bilhões e dívida líquida era de R$ 17,8 bilhões.
Era um ano de grande prosperidade, com a pandemia de covid-19 começando a ficar para trás. A empresa atuava principalmente na produção de aço e minério de ferro, que geravam mais de 90% do faturamento e dos resultados financeiros. O portfólio de negócios da CSN diversificou-se de lá para cá: a área de cimento cresceu e já é 11%, a de logística (ferrovia, porto e rodovia) responde por mais 10% e a de geração de energia ganhou maior presença no grupo após várias aquisições.
O céu de brigadeiro escureceu. A CSN encerrou o ano passado sob forte pressão de credores e das agências de classificação de risco — a S&P Global rebaixou seus ratings em novembro, e Fitch e Moody’s vieram a seguir —, antes mesmo de divulgar ao mercado o balanço na quarta-feira, 11. As três rebaixaram as notas de crédito da companhia.
A alavancagem financeira da companhia vinha em crescimento desde o início de 2024 e os sinais eram de que os resultados de 2025 viriam novamente no vermelho na última linha do balanço. O ano terminou com prejuízo de R$ 1,5 bilhão, similar ao de 2024, e queda na geração operacional e fluxo de caixa livre (FCL) negativo.
A CSN viu sua dívida líquida bater em R$ 41,2 bilhões, subtraindo o caixa do valor bruto de R$ 57 bilhões. As disponibilidades no caixa da companhia emagreceram R$ 9 bilhões entre um ano e o outro, para R$16 bilhões e a alavancagem financeira foi a 3,47 vezes, distanciando ainda mais do teto máximo aceitável no mercado financeiro de 3 vezes. Para empresas de infraestrutura, com retornos de investimentos em mais longo prazo, aceita-se até uma relação de 4 vezes de dívida líquida sobre o Ebitda.
Em teleconferência com investidores e analistas de bancos na quinta-feira, 12, Steinbruch — principal acionista da CSN, presidente do conselho de administração e CEO — procurou amenizar o quadro financeiro da companhia. “O aumento da alavancagem foi pontual”, afirmou, ressaltando que se deveu aos serviços da dívida (pagamento de juros) e do aumento nas atividades de investimentos da empresa.
O empresário garantiu que o número será revertido já a partir deste trimestre com a melhoria prevista nos resultados da CSN e suas controladas a partir de 2026. E que, ao mesmo tempo, a CSN vai fazendo a sua lição de casa.
Corte de R$ 18 bilhões na dívida
A luz vermelha acendeu na companhia em outubro passado logo após o fechamento dos números do terceiro trimestre, segundo um interlocutor disse ao Estadão. Steinbruch, alguns executivos e assessores financeiros se reuniram e montaram um plano que definiu um corte significativo no endividamento líquido, que já caminhava para mais de R$ 40 bilhões. A meta traçada era de vender ativos e participações no montante de R$ 15 bilhões a R$ 18 bilhões.
Siderúrgica pioneira do País na fabricação de aços planos, fundada em abril de 1941 em Volta Redonda (RJ), por decisão do presidente da República Getúlio Vargas, no início e no final de 2025, a CSN fez dois movimentos de vendas de ativos para estancar o crescimento da dívida, mas eles foram insuficientes.
No início do ano, transferiu 11% de sua participação na CSN Mineração (CMIN, de minério de ferro) para a sócia japonesa, a trading Itochu, por R$ 4,4 bilhões. O dinheiro foi usado para reforçar o caixa. Já no final de 2025, em operação “dentro de casa”, Steinbruch alienou 13% da participação da CSN na MRS, concessionária de ferrovia, para a própria mineradora por R$ 3,35 bilhões. Foi a forma de levar recursos do caixa da CMIN (capitalizada) para o caixa da controladora, a CSN.
O plano de redução do endividamento até R$ 18 bilhões, para levar a companhia a um patamar saudável de perfil financeiro, foi lançado em 15 de janeiro deste ano e visa estar com os processos prontos para assinatura dos compradores até o quarto trimestre. Se baseia principalmente na venda do controle da cimenteira e uma participação de até 30% de cada uma das holdings de infraestrutura (uma com ativos do Sudeste e outra do Nordeste).
Os processos estão na fase de definição dos advisers financeiros e de conversas iniciais com potenciais interessados do País e do exterior. O banco Morgan Stanley foi contratado para a operação da CSN Cimentos e o Bradesco e Citi para os ativos de infraestrutura.
“Continuamos compromissados com o processo de desalavamcagem da CSN. Lançamos o plano em janeiro para vender a CSN Cimentos e uma participação minoritária na área de infraestrutura, e na busca de um parceiro para a nossa área de siderurgia. E temos outras alternativas”, disse o empresário.
Steinbruch afirmou ainda que a operação financeira com um consórcio de bancos, que sofreu algumas semanas de paralisação, já foi retomada e em poucos dias será anunciada. Segundo informações, envolve um empréstimo de até R$ 7,5 bilhões para rolagem de dívida e formação de caixa, frente aos compromissos da companhia que vão até o final de 2028 e que somam mais de R$ 28 bilhões.
Segundo Steinbruch, o processo de venda da CSN Cimentos está avançado e deve ser concluído até o terceiro trimestre. O negócio, incluindo dívidas da empresa, é avaliado na casa de R$ 10 bilhões. A cimenteira é a segunda maior do País, atrás da Votorantim, com vendas de 13,4 milhões de toneladas ao ano, receita de R$ 4,9 bilhões e Ebitda de 1,3 bilhão. É visto como o ativo mais fácil de ser negociado, pois envolve venda de controle.
Marco Rabello, diretor financeiro e de RI, afirmou que este será um processo célere e que já recebeu menções de interesse de potenciais interessados da Ásia, Europa e Brasil. Ele acredita que em dois meses terá “vários memorandos de entendimento (MoU, na sigla em inglês)” sobre a sua mesa. No caso dos ativos de infraestrutura, houve conversas com interessados antes do anúncio.
Aquisições, juros altos e China
Nos últimos quatro anos, em um cenário propício para investimentos e expansão, a CSN vislumbrou oportunidades de crescer em três setores — cimento, energia e logística/infraestrutura. Os desembolsos em aquisições somaram R$ 10 bilhões ou mais. O principal movimento de compra ocorreu em 2022, quando fez uma oferta pelos ativos de cimento da franco-suíça LafargeHolcim no Brasil, que era a terceira maior do mercado nacional. Pagou US$ 1,025 bilhão (ao câmbio de hoje R$ 5,3 bilhões).
No ano anterior já havia adquirido a Elizabeth Cimentos, com fábrica na Paraíba, por R$ 1,1 bilhão. Com as duas aquisições, a CSN pulou para a segunda posição no negócio de cimento brasileiro, com 21% das vendas. Em 2024, dentro de seu plano de ser líder, tentou levar a InterCement, do ex-grupo Camargo Corrêa (no Brasil e na Argentina), assumindo dívidas da ordem de R$ 10 bilhões.
Muitos acionistas da CSN agradeceram a Deus que o negócio não teve êxito, porque hoje a situação financeira da empresa seria muito mais crítica.
Antes, em 2022, a empresa investiu pesado no setor elétrico, na geração de energia. Arrematou a hidrelétrica CEEE-G (Companhia Estadual de Geração de Energia Elétrica), do Rio Grande do Sul, em leilão; a Companhia Energética Chapecó, titular da outorga da UHE Quebra-Queixo, em Santa Catarina, e a Santa Ana Energética (conjunto de PCHs), também no Sul. Nesse pacote, o desembolso atingiu mais de R$ 3 bilhões, incluindo pagamento pela outorga.
A última aquisição relevante foi anunciada em dezembro de 2024, a compra de 70% na holding Estrela Comércio e Participações, dona da Tora Transportes, por R$ 742,5 milhões. Segundo a empresa, o objetivo era fortalecer as operações intermodais e de infraestrutura logística da empresa para escoamento de aço no mercado brasileiro e transporte de matérias-primas.
Avaliações de interlocutores ouvidos pelo Estadão indicam que a CSN se endividou num momento de alta da taxa básica de juros do País, a Selic, que passou a subir em 2021, até atingir os níveis atuais de 15%. Isso atingiu em cheio o endividamento da companhia, que no último ano pagou cerca de R$ 7 bilhões em juros da dívida, consumindo grande parte da sua geração de caixa.
Desde 2021, a Selic foi de 2% aos atuais 15%, sempre visando, conforme o Banco Central, conter o aumento na inflação do País. Saiu de 2% em janeiro daquele ano para 9,75% em dezembro, alcançando 13,75% no fim de 2022. No ano seguinte recuou a 10,5% em maio e voltou a subir gradativamente até 15% em junho do ano passado.
Steinbruch disse ainda que a entrada desenfreada de aço importado desde meados de 2023 é um dos fatores que afetaram os resultados da CSN nos dois últimos anos. A avaliação é que as importações, cerca de 70% oriundas da China, atingiram principalmente os aços de alto valor agregado fabricados pela companhia.
Ele afirmou que medidas do governo brasileiro, como as ações antidumping abertas contra produtos chineses e de outros países e também aumento de alíquotas de importação, poderão trazer normalidade ao mercado brasileiro. E alívio para a CSN, que o empresário vê como a empresa mais prejudicada.
Repercussão no mercado
As ações da companhia tiveram forte queda na quinta-feira após a divulgação dos resultados negativos do quarto trimestre e de todo o ano de 2025, aliado ao aumento da alavancagem financeira. Os papéis despencaram mais de 14%, para 6,10.
Analistas e investidores chamaram a atenção para o aumento do endividamento da CSN, avaliando que era mais um sinal de alerta na semana em que duas empresas endividadas — GPA e Raizen — fizeram pedidos de recuperação extrajudicial, se protegendo dos credores por 90 dias. O temor é que a CSN tenha de recorrer à mesma estratégia.
A equipe da XP Investimentos, em relatório, destacou que a alavancagem da CSN continua sendo uma das principais preocupações dos investidores, limitando a margem de segurança da empresa em meio às taxas de juros elevadas (Selic em 15%).
Para a equipe do Citi, a visão é de que situação financeira da companhia se tornou “ainda mais delicada” após o balanço, havendo necessidade rápida de iniciativas para melhorar sua estrutura de capital.
Os papéis da CSN teve uma grande deterioração desde o final de 2021. Quatro anos atrás a ação terminou negociada em R$ 24,99 e o ADR (recibo negociado na Bolsa de Nova York) em US$ 4,44. No final de 2025 fecharam a R$ 8,94 e US$ 1,60, respectivamente. O valor de mercado recuou a R$ 11,85 bilhões, um terço de antes.
Fonte: Estadão


