Quase um ano após o tarifaço de Donald Trump, o comércio global vive numa espécie de terra de ninguém. A política comercial de Trump foi, em boa parte, derrubada pela Justiça americana. As tarifas atuais são provisórias. Acordos acertados até agora estão em suspenso.
Ninguém sabe o que virá no segundo semestre. E, seja o que vier, pode mudar com as eleições para o Congresso dos EUA, em novembro. Nesse ambiente de enormes incertezas, as empresas tendem a segurar investimentos, o que ameaça desacelerar a economia mundial.
Depois de adotar tarifas pontuais em fevereiro e março do ano passado, Trump anunciou, em 2 de abril, um pacote de tarifas que abrangia quase todos os produtos importados pelos EUA. Foi o chamado “Liberation Day”. Essa ofensiva do “sr. tarifa”, como Trump se autodesignou, elevou a taxa média efetiva adotada pelos EUA de 2,5% para 27%, o maior nível em mais de um século. Em seguida, o governo americano embarcou numa série de negociações comerciais bilaterais, pelas quais reduzia as tarifas em troca de vantagens comerciais e promessas de investimentos nos EUA.
Trump buscou, assim, refundar o comércio internacional em termos mais favoráveis aos EUA, para reduzir o déficit comercial americano e trazer investimentos, produção e empregos de volta para o país. O comércio global em 2025 se mostrou resiliente a essa onda protecionista americana e deve ter crescido cerca de 4%, segundo estimativa preliminar da Unctad. Ainda assim, esse crescimento foi concentrado no primeiro semestre, devido à antecipação de importações, e esfriou no segundo semestre.
O tarifaço de Trump foi derrubado pela Suprema Corte americana em 20 de fevereiro deste ano, sob o argumento de que o presidente não tinha autoridade para impor essas tarifas com base numa lei de 1977, a International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). Isso reduziu a tarifa média efetiva para 17,5%, um patamar ainda muito alto.
Segundo imagens desse dia, a decisão da Corte pegou o presidente de surpresa. O que se seguiu pareceu ser uma série de improvisações para transmitir a mensagem de que o protecionismo veio para ficar. Trump anunciou uma tarifa global de 10% por 150 dias, com base em outra lei, a chamada Seção 122. Disse depois que seria de 15%. Mas, quando a medida entrou em vigor, era de 10%.
A Casa Branca anunciou a intenção de usar outros dispositivos da Lei de Comércio. A Seção 232 permite restringir o comércio por riscos à segurança nacional. Já a Seção 301 permite ao presidente adotar tarifas diferenciadas e permanentes, mas apenas depois de o governo fundamentar o motivo por meio de uma investigação. A tarifa de 10% já foi contestada na Justiça americana. Tarifas advindas da Seção 301 também deverão ser contestadas devido às investigações apressadas que estão sendo realizadas.
Empresas que pagaram as tarifas derrubadas pela Justiça estão acionando o governo americano judicialmente para reaver os valores. Isso ameaça se tornar uma longa batalha judicial e pode abrir um rombo nas contas públicas americanas, já que essa arrecadação superou US$ 160 bilhões no ano passado.
Os países que já tinham fechado acordos comerciais com Trump ficaram num limbo. A União Europeia (EU) negociou uma tarifa de 15% em troca, entre outras coisas, do compromisso de comprar US$ 700 bilhões em produtos energéticos americanos e outros US$ 600 bilhões em gastos nos EUA. Agora, o acordo está com aprovação suspensa no Parlamento Europeu. O mesmo ocorre com o Japão. Já o Parlamento da Coreia do Sul aprovou nessa semana o acordo que prevê tarifa de 15% em troca de investimentos de US$ 350 bilhões nos EUA. Mas por que cumprir esse compromisso se todos os países têm, por enquanto, tarifa de 10%?
A nova rodada de tarifas só deverá ser anunciada em julho, após a conclusão das investigações relativas a cada país. Na semana passada, os EUA informaram que os 60 maiores parceiros comerciais dos EUA estão sendo investigados na Seção 301 por não tomarem medidas adequadas contra o trabalho escravo. Isso parece ser um novo improviso, que visa acelerar o processo ao incluir uma baciada de países numa única investigação. Esse procedimento poderá ser questionado judicialmente. Ninguém duvida de que Trump dará um jeito de anunciar novas tarifas. Não se sabe de quanto.
O que quer que seja decidido pelo governo, porém, poderá cair ou ser alterado caso a oposição democrata vença as eleições de novembro para o Congresso. Se o Partido Democrata conseguir maioria na Câmara (pesquisas hoje indicam que é provável) e no Senado (o que é mais difícil), poderia barrar iniciativas comerciais de Trump.
Toda essa indefinição prejudica o comércio mundial e o planejamento de investimento das empresas, o que poderá impactar o crescimento econômico neste ano.
Previsibilidade e estabilidade nas regras são fundamentais para as correntes de comércio. As incertezas trazidas pelas mudanças frequentes nos EUA implicam maior volatilidade e mais riscos no comércio, o que aumenta custos. Como indicou a pesquisa Global Trade Report, do Instituto Thomson Reuters, as empresas “afirmam que veem os efeitos das tarifas se propagando em cascata pelas operações, finanças e todos os outros aspectos de qualquer empresa que realize comércio internacional”.
Essas incertezas afetam ainda as decisões das empresas. Sem um cenário tarifário claro, elas tendem a adiar investimentos. Afinal, ninguém quer correr o risco de investir na hora errada, no lugar errado. No ano passado, o investimento estrangeiro direto global aumentou 14%. Mas a própria Unctad observa que esse dado foi distorcido pelos enormes gastos com a estrutura de IA pelo mundo.
Outros dados mostram um cenário de investimentos fragilizado. O valor de fusões e aquisições caiu 10%; o financiamento internacional de projetos caiu 16%, para o menor nível desde 2019; a anúncio de investimentos em novos projetos (greenfield) também caiu 16%. Boa parte disso ocorreu nos setores mais expostos às tarifas.
Essa situação de precariedade regulatória, causada pelas mudanças abruptas da política comercial americana, tende a perdurar ao longo deste ano e talvez até o final do mandato de Trump.
Fonte: Valor Econômico