É consenso entre analistas ouvidos pelo Valor que o ataque do Irã a Israel, no sábado, trará impactos sobre os preços e a oferta de petróleo no mercado global. Para eles, os efeitos sobre os preços seriam limitados, inicialmente, e há certo risco de ruptura na oferta de petróleo, mas tal cenário depende de uma escalada de tensões. Por enquanto, os especialistas consideram que a eficácia da defesa israelense ajudou a aliviar a tensão.
Para Felipe Perez, diretor de Downstream da S&P Global para a América Latina, a expectativa é que os preços subam nas próximas semanas, independentemente dos fundamentos de oferta e demanda. Na visão dele, quando existem conflitos desse tipo, o preço do petróleo se desconecta dos fundamentos, ainda que eles voltem a prevalecer posteriormente.
O consultor e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) David Zylbersztajn ressaltou que o mercado de petróleo sempre tem movimentos especulativos em eventos geopolíticos mais tensos, estabilizando-se em seguida. Foi assim que aconteceu quando o general iraniano Qassem Soleimani foi morto, em janeiro de 2020, como recorda Décio Oddone, presidente da Enauta e especialista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Na ocasião, os preços internacionais do petróleo subiram para um patamar de US$ 70.
Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria, avalia que as cotações devem se limitar ao patamar de US$ 100, dado o fato de que a demanda global pelo insumo está mais fraca. “O equilíbrio proporcionado pela demanda global acaba restringindo este crescimento de preço, como observado ao longo do ano passado em outras crises pontuais”, disse D’Elia.
Edmar de Almeida, pesquisador do Instituto de Economia da PUC-Rio, vê riscos de os preços superarem, por pouco tempo, a barreira de US$ 100 o barril. Para que se mantenha nesse patamar por um período mais longo, afirmou Almeida, seria preciso uma redução involuntária da oferta de petróleo, com destruição de infraestrutura petrolífera na região ou por dificuldades para escoamento de óleo pelo Golfo Pérsico.
No entanto, mesmo que a barreira de US$ 100 seja rompida, a atual cotação está mais baixa, em termos reais, do que a registada na primeira metade dos anos 2010, ao se considerar a atualização monetária até o momento, segundo Zylbersztajn. “Não é uma tragédia nunca vista, o mercado internacional não deve se abalar, a não ser que ocorram novos movimentos bélicos”, salientou.
Um dos pontos que poderiam causar impactos mais expressivos no mercado seria um eventual aumento de sanções sobre o Irã. Outro possível efeito seria um bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa quase um terço da produção global de petróleo.
Autoridades persas ameaçam repetidamente bloquear a passagem sempre que há uma crise envolvendo Teerã. A última ameaça foi feita na terça-feira, quando o comandante da Marinha da Guarda Revolucionária iraniana, Ali Reza Tangsiri, advertiu que o Irã pode bloquear o estreito, “se o inimigo pressionar o Irã”.
Os mercados financeiros e de petróleo no Oriente Médio abriram a semana preocupados com a geopolítica, ante o risco de uma nova rodada de retaliações.
Mas Israel, Arábia Saudita e Catar – os mercados do Oriente Médio, em geral, começam sua jornada semanal aos domingos – registraram perdas modestas sob baixos volumes de negociação.
“Os mercados da região abriram em relativa calma, diante do que foi percebido como retaliação comedida de Israel, em vez de uma retórica mais forte de escalada”, disse Emre Akcakmak, consultor sênior da East Capital no Dubai.
“Abre-se agora um novo ambiente de incerteza, mas o mercado na sexta-feira já estava parcialmente precificado para esta situação [de ataque do Irã a Israel]. Por isso, se não houver uma piora na tensão, o impacto não deverá ser muito elevado”, disse Gonzalo Lardies, administrador do Andbank.
O aumento do nervosismo foi relativamente ainda atenuado ontem pela declaração do Irã de que “a operação de retaliação pode ser considerada concluída” e por relatos segundo os quais o presidente dos EUA Joe Biden disse ao premiê israelense, Benjamin Netanyahu, que os EUA não apoiarão um contra-ataque de Israel contra Teerã. (Com agências internacionais)
Fonte: valor econômico

