Por Nicholas Megaw And Andrew Edgecliffe-Johnson — Financial Times, de Nova York
08/05/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
Empresas americanas e europeias atribuíram os lucros decepcionantes registrados na China a uma recuperação econômica mais lenta do que o previsto no país, após a retomada da atividade após a suspensão das restrições vinculadas à pandemia ter desencadeado projeções de crescimento exageradamente otimistas.
O grupo de cosméticos Estée Lauder foi um exemplo em destaque nesta semana, ao ver suas ações sofrerem a maior queda de um só dia já registrada após a empresa ter cortado as projeções de vendas devido a uma recuperação “muito mais volátil…e mais gradual” na Ásia do que o previsto.
O grupo está entre um crescente número de empresas, que vão desde redes focadas no consumidor como Starbucks até grandes grupos de tecnologia e de logística, que divulgaram comunicados de cautela quanto aos resultados nas últimas duas semanas. “A expectativa geral era a de que, após a reabertura, o mercado da China se recuperaria”, disse o CEO da Qualcomm, Cristiano Renno Amon, aos analistas na quarta-feira (3). “Não vimos ainda esses sinais.”
A NSP Semiconductors, concorrente e alvo de aquisição da Qualcomm no passado, divulgou alerta semelhante, observando ser “cedo demais” para falar de uma recuperação da China. “Vimos uma melhoria modesta, gradual… a partir de um começo muito lento”, disse o CEO da empresa, Kurt Sievers.
Grupos de atendimento direto ao consumidor também alertaram para o ritmo da recuperação, especialmente os que dependem de gastos em viagens. O diretor do Hilton, Christopher Nassetta, disse: “A China não contribuirá conforme eu havia esperado neste ano”.
Já a Finnair observou que o início da recuperação foi “mais lento do que muitos previram”, enquanto a Colgate-Palmolive disse: “Não vimos ainda o setor de varejo de viagens voltar”.
A Starbucks informou ter registrado uma “recuperação robusta” nos três primeiros meses do ano, mas acrescentou que o crescimento já começou a desacelerar, e chamou a atenção para a “incerteza no ambiente como um todo”, especialmente em áreas como viagens internacionais.
Os comentários ocorreram apesar de os dados oficiais terem exibido um início sólido para o ano para a economia da China, com o Produto Interno Bruto (PIB) demonstrando condições de cumprir ou ultrapassar a meta de Pequim, de crescimento anual de 5%.
David Donabedian, diretor de investimentos da CIBC Private Wealth, disse que a divergência reflete o fato de alguns observadores terem simplesmente sido otimistas demais ao prever “uma explosão” do nível de atividade, enquanto alguns vinham esperando uma política monetária mais expansiva, que turbinaria o crescimento.
Algumas empresas que não tinham fixado suas expectativas em patamares excessivamente altos conseguiram se beneficiar. A Adidas, por exemplo, registrou queda das receitas e continuidade da incerteza na China. Mesmo assim, suas ações subiram 8% na sexta-feira (5), quando disse estar observando “uma tendência positiva” após anos de dificuldades.
A guinada das expectativas ocorre contra um pano de fundo de aumento das preocupações entre os dirigentes empresariais em torno do monitoramento estreito de Pequim das operações das empresas americanas na China. Depois de batidas em escritórios da Bain e de outras consultorias na China, a Câmara de Comércio dos EUA disse que a nova lei antiespionagem da China “aumenta drasticamente as incertezas e os riscos de operar na República Popular”.
Para Tim Ryan, presidente da PwC , a consciência das empresas americanas dos “riscos de concentração” na China cresceu desde as batalhas tarifárias do governo Trump até as desestabilizações da cadeia de suprimento causadas pela pandemia.
Fonte: Valor Econômico
