Por Daniela Braun — São Paulo
02/05/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
O aumento da receita de computação em nuvem das empresas Alphabet, dona do Google, Amazon e Microsoft no primeiro trimestre trouxe otimismo a analistas do mercado financeiro. Esse avanço mostra mais disposição, por parte dos clientes das “big techs”, para tocar projetos de digitalização, envolvendo especialmente a adoção da inteligência artificial (IA) generativa. Os especialistas também estão atentos às despesas de capital (Capex, na sigla em inglês) das gigantes de tecnologia para expandir centros de dados (data centers).
A demanda por nuvem levou as empresas a investirem US$ 73,7 bilhões em infraestrutura física e softwares no quarto trimestre, alta de 16,3% em base anual, segundo a consultoria Synergy Research.
A Amazon fechou o trimestre com receita de US$ 25 bilhões gerada por serviços de nuvem, aumento de 17% em base anual. “O grande destaque é a aceleração do crescimento da [sua empresa de nuvem] AWS para 17%, ante 14% no trimestre anterior, mesmo com uma comparação mais difícil ante o primeiro trimestre de 2023”, diz Matheus Popst, sócio da gestora Arbor Capital.
A AWS é a maior do setor de nuvem no mundo, mas a disputa com a Microsoft é acirrada. A AWS tinha 31% do mercado no quarto trimestre do ano passado. Um ano antes, eram 33%, segundo a Synergy Research. Já a Microsoft avançou – foi de 21% para 24%, no mesmo período. O Google, em terceiro, manteve os 11%.
A Microsoft fez questão de ressaltar que a IA colaborou com 7 pontos percentuais no avanço de 31% da receita com serviços de nuvem Azure, no terceiro trimestre fiscal de 2024. O analista da Arbor estima que a receita de IA da empresa tenha representado US$ 4,5 bilhões dentro dos US$ 19 bilhões de receita com a linha Azure. “Ainda é pouco perto da receita total da empresa [US$ 61,9 bilhões no trimestre], mas é um valor importante e mostra a evolução deste segmento”, disse. Há um ano, lembrou, a fatia da IA na receita de Azure era de US$ 900 milhões.
Para sustentar a demanda por IA, Microsoft e Alphabet elevaram suas despesas de capital em 79% e 90%, respectivamente, no primeiro trimestre.
A executiva-chefe de finanças da Microsoft, Amy Hood, disse que o Capex segue crescendo no próximo ano fiscal. Este investimento em infraestrutura computacional para sustentar a “revolução da IA” é visto com bons olhos por analistas do banco UBS. “A despesa de capital vai crescer, mas não significa que a despesa com pessoas vai crescer”, diz o banco.
No balanço da Alphabet, que anunciou o primeiro pagamento de dividendos aos acionistas a partir de junho, a receita do serviço de nuvem Google Cloud (US$ 9,6 bilhões) cresceu 28%, em base anual. No primeiro trimestre, a nuvem gerou 11,9% da receita total da empresa, ante uma fatia de 10,7% um ano antes. A parcela é pequena diante da receita de US$ 61,7 bilhões gerada com publicidade on-line no período. Deste filão, 74,9% (US$ 46,2 bilhões) vêm de buscas on-line, onde a receita aumentou 14,4%, em base anual.
Para Arthur Siqueira, analista e gestor de investimentos da Geo Capital, os resultados da Alphabet e da Microsoft sinalizam que a IA não vai abalar produtos já estabelecidos, como se temia.
“O Google teve um crescimento supersaudável em buscas com o avanço de IA, enquanto a Microsoft eleva a receita ao incentivar a migração a pacotes de softwares de produtividade com IA embutida”, afirma Siqueira.
Para o Google, a estratégia de IA requer ajustes após a exposição de vieses da ferramenta Gemini de criação de imagens e do possível lançamento de uma busca paga com recursos de IA, sem anúncios, noticiado pelo “Financial Times”.
Para os analistas, investir mais em infraestrutura para suportar a IA traz ganhos de eficiência para as próprias “Big Techs”. Já no caso da Meta, o aumento de despesas anunciado no próximo trimestre não foi bem aceito pelos investidores. “A mudança no discurso da Meta é de que a empresa continua enxergando uma oportunidade relevante em IA, especialmente na aplicação para publicidade digital, mas sinalizou que isso vai exigir um ciclo de investimentos mais longo”, disse Thiago Alves Kapulskis, analista do setor de tecnologia do Itaú BBA. “Acreditamos que o rumo adotado pela Meta é correto, mas a empresa pode passar por um ano difícil”, completa.
O ciclo de resultados trimestrais das cinco maiores empresas de tecnologia do mundo se fecha com o balanço do segundo trimestre fiscal da Apple, no fim da tarde desta quinta-feira (2). “Está bastante telegrafado que será um resultado ruim com piora nas vendas na China”, observa Kapulskis, do Itaú BBA.
Fonte: Valor Econômico
