Levantamento mostra que, embora temas relacionados à gestão de pessoas e tecnologia tenham ganhado relevância nas discussões nos últimos anos, diretores de recursos humanos e de tecnologia quase não aparecem na maioria dos boards
Por Stela Campos — De São Paulo
09/10/2023 05h01 Atualizado há 2 dias
Os conselhos de administração das empresas listadas no Ibovespa ainda são conservadores na hora de trazer membros com diferentes backgrounds e experiências. A maior parte dos novos conselheiros ainda ocupa cargo de CEO em alguma companhia ou é diretor financeiro. Embora temas relacionados à gestão de pessoas e tecnologia tenham ganhado relevância nas discussões nos últimos anos, diretores de recursos humanos e de tecnologia quase não aparecem na maioria dos boards. Também a inclusão de mulheres e outros grupos minorizados está estagnada desde 2021 e quase não existem membros de outras nacionalidades, além da brasileira.
Estas são algumas das tendências observadas no “Board Monitor Brazil 2023”, levantamento realizado pela consultoria global Heidrick & Struggles, que começou a ser realizado anualmente a partir de 2019. O estudo analisa as novas indicações de membros para os conselhos de administração de empresas listadas no Ibovespa. Em 2022, foram 93 indicações em 32 empresas, o que corresponde a 38% da base de companhias que compõem o índice. Em 2021, foram 98 renovações.
Houve um aumento no número de novos assentos ocupados por CEOs ativos, correspondendo a 68% dos indicados em 2022, sendo que este percentual era de 58% no ano anterior. “Os conselhos estão trazendo quem está informado e conectado com os movimentos do mercado, valorizando o calor da informação de alguém que ocupa o cargo de presidente de empresa”, diz Marcos Macedo, responsável pela prática de board e CEO da Heidrick & Struggles no Brasil.
Também houve uma aposta em quem já teve experiência prévia em conselhos. Apenas 33% assumiram a função pela primeira vez. Em 2021, esse percentual era de 44%. “Como recrutadores, sabemos que entre um homem que já participa de oito conselhos e uma mulher que iria exercer a função pela primeira vez, a escolha quase sempre será do homem, embora a executiva certamente iria se empenhar muito para dar resultado”, diz Ana Paula Chagas, que também é da prática de board e atua como CEO da Heidrick & Struggles no país.
No caso das mulheres, o estudo mostra que houve uma estagnação na entrada de conselheiras desde 2021. O percentual permaneceu o mesmo, chegando a 31%. “Para acelerar a paridade de gênero, precisaríamos ter muito mais mulheres entre os entrantes”, afirma Macedo.
Conselheiros com experiência em comitês de sustentabilidade representaram 67% dos novos indicados em 2022. “São pessoas que podem aportar um ponto de vista sobre o tema ESG [melhores práticas ambientais, sociais e de governança]”, diz o headhunter. “Este tema está andando mais rápido impulsionado por ações normativas, tanto da CVM, que obriga a companhia a comentar sobre os riscos climáticos, como pelo fato de que as empresas que têm acesso a financiamentos ou investidores internacionais são obrigadas a publicar o relatório de sustentabilidade junto com o de resultados e precisam de alguém para olhar isso”, explica Macedo.
Outro tema considerado importante para os conselhos, a cibersegurança vem sendo tratada mais fora do que dentro por um especialista. “Não vemos ninguém com esse background”, diz Chagas. “O que vejo são as empresas oferecendo educação continuada para conselheiros para que eles possam entender mais sobre o assunto para fazer as perguntas certas para o CISO (Chief Information Security Officer)”, comenta.
Em relação à diversidade de perfil, o levantamento mostra que 28% dos indicados em 2022 eram de outra nacionalidade e só 11% tinham experiência internacional. “Existem empresas em fase de globalização e que não têm representação internacional no conselho. É uma visão insular do conselho brasileiro” diz Macedo. “A empresa às vezes tem um terço do faturamento gerado fora do país ou quer entrar em alguma região, tem um grande valor ter alguém do lugar ajudando a entender o mercado.”
Trazer membros estrangeiros para o board, segundo Chagas, esbarra em questões como o fato de a maior parte dos conselheiros não ser fluente em inglês. “Trazer um tradutor é complicado, porque existem muitas informações confidenciais na reuniões”, observa. Outro ponto é que no Brasil há um número grande de encontros por ano, o que dificulta a vinda de um executivo do exterior. “Pelo menos 50% das reuniões são presenciais”, diz Macedo. Uma saída usada por algumas companhias tem sido trazer um advisory ou um consultor de fora para opinar em temas estratégicos e trazer benchmark. “A diferença é que ele não vai estar comprometido com o processo de decisão como um conselheiro, que é responsabilizado e pode influenciar de uma forma bem mais pesada”, diz Macedo.
Fonte: Valor Econômico