Por Matheus Prado — De São Paulo
24/04/2024 05h01 Atualizado há 5 horas
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Em um ambiente de juros elevados e diante de performance robusta – ainda que desigual – dos mercados acionários globais em 2023, as recompras de ações ao redor do mundo recuaram 14%, para US$ 1,11 trilhão, segundo mostra relatório da gestora Janus Henderson adiantado ao Valor. O dado vai na contramão da distribuição de dividendos, que registrou crescimento nominal de 5,6% na mesma janela, para US$ 1,66 trilhão.
Responsáveis por 70% do mercado mundial de recompras, os Estados Unidos registraram recuo de 17,05% na utilização do instrumento, o equivalente a uma queda de US$ 159 bilhões, e foram os principais detratores do período. Apenas as empresas de tecnologia diminuíram a aplicação da ferramenta em US$ 69 bilhões, com Microsoft e Meta, que distribuiu dividendos pela primeira vez, cortando cerca de 30%, e a Apple, outros 15%.
A redução bilionária nas recompras do setor ocorreu em um ano em que o Nasdaq Composite, principal índice de tecnologia do país, avançou 43,4%, fruto da escalada das ações ligadas à tese de inteligência artificial (IA) que levou papéis e o próprio referencial para patamares historicamente elevados. Assim, ficam menores a margem e o incentivo para que as empresas recomprem seus próprios papéis.
Ben Lofthouse, chefe de renda variável global da Janus Henderson, também atribui a menor utilização do instrumento, em âmbito geral, ao patamar mais elevado dos juros. Quando é mais barato tomar dívida, afirma, faz sentido para as empresas até mesmo pegarem capital emprestado e utilizar recursos para tirar capital próprio caro de circulação. Com as taxas nas máximas de vários anos, nota, o cálculo não é tão simples. “Algumas empresas estão pagando dívidas neste ponto do ciclo, utilizando dinheiro que em outro momento teria ido para recompras”, diz.
“E muitas empresas usam recompras como válvula de escape, uma maneira de devolver capital excedente aos acionistas sem criar expectativas para dividendos que podem não ser sustentáveis a longo prazo. Isso é especialmente apropriado em indústrias cíclicas como petróleo ou bancos. Essa flexibilidade explica por que as recompras são mais voláteis do que os dividendos.”
O executivo avalia, por outro lado, que um ano de baixa não descredibiliza o crescimento da indústria, que alcançou, e manteve no ano passado, patamar trilionário depois da queda generalizada dos mercados em 2020. Segundo ele, tudo se resume a uma busca por equilíbrio entre despesas de capital, necessidades de financiamento e retornos aos acionistas por meio de dividendos, recompras ou ambos.
Fora dos EUA, a Europa, aumentou a aplicação da modalidade em 2,9%, para US$ 146 bilhões, enquanto as empresas no Reino Unido recompraram ações em um volume de US$ 64,2 bilhões, queda de 2,6% em relação a 2022. No Brasil, houve queda de 34,3%, de US$ 6,7 bilhões para US$ 4,4 bilhões, enquanto a utilização do instrumento em mercados emergentes cresceu 5,83%, para US$ 29 bilhões, com destaque para China (subiu 32,2%, alcançando US$ 16,8 bilhões).
A Janus Henderson, que tinha aproximadamente US$ 335 bilhões em ativos sob gestão, compilou dados de recompra de ações a partir dos relatórios anuais de fluxo de caixa das 1,2 mil maiores empresas do mundo por capitalização de mercado.
Fonte: Valor Econômico
