Há um sinal de alerta que tem soado cada vez mais alto na Faria Lima: o sentimento dos investidores não conversa com as posições nas carteiras. Os participantes do mercado continuam comprados em Brasil, mas o tamanho das apostas é menor e o perfil tático tem ganhado cada vez mais força. Se o sinal extraído dos portfólios é positivo, o sentimento é cada vez mais negativo e se baseia na expectativa de piora externa e doméstica, que tem reforçado a sensação de que, neste fim de ano, o Brasil pode sofrer uma versão 2.0 da crise observada na reta final de 2024.
Motivos para um comportamento mais cauteloso não faltam, argumentam diferentes economistas, “traders” e gestores de recursos que conversaram com o Intraday, blog de mercados financeiros do Valor, durante a Expert XP, na semana passada. O risco de um Federal Reserve (Fed) ainda mais conservador e o aumento do endividamento de governos e empresas se somam à proximidade das eleições no Brasil, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) liderando as pesquisas. Há, portanto, um reforço do sinal de alerta, sobretudo diante do pessimismo bastante profundo com a situação fiscal.
Foi possível perceber, nesse sentido, uma mudança de 180 graus no sentimento dos investidores na comparação com a edição de 2025 da feira de investimentos da XP. Em julho do ano passado, o mercado vislumbrava uma chance maior de alternância de poder a partir de 2027 e sonhava com o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na disputa pelo Planalto. Além disso, havia a crença em um processo de cortes de juros mais intenso, o que levou a Faria Lima a reforçar apostas aplicadas em juros (que ganham quando as taxas caem). Isso, contudo, se desfez desde a eclosão da guerra no Oriente Médio.
“Entre os gestores, o clima é de terra arrasada”, observa o sócio responsável pelas estratégias de hedge funds e investment solutions da Vinci Compass, Fernando Lovisotto. “A turma está sentindo; o clima está ruim. Quando eu vejo o sentimento desse jeito e ninguém muito alocado, eu fico feliz. Precisamos combinar com os russos, que são os clientes, em alocar agora e esperar dar certo. O problema é que não conseguimos enxergar tanto os ‘triggers’ [gatilhos] para isso.”
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O momento, agora, é outro. Grosso modo, os participantes do mercado veem dois ativos como os mais assimétricos no momento: o real aparece na ponta mais otimista e os juros, na mais negativa. A percepção é que os juros continuam a ser o principal “cavalo” nas apostas do mercado, até mesmo entre os mais pessimistas, já que ainda há um viés para cortes na Selic. No entanto, até mesmo quem entoa a visão de que as taxas futuras podem anotar uma boa queda se arrepende minutos depois de dizer isso, ao ver a tela do celular com a cotação do petróleo Brent a US$ 100 por barril.
Para Lovisotto, é possível que a volatilidade dos mercados aumente ainda mais a partir de setembro. “Acredito que o Fed não quer elevar os juros, mas o mercado está precificando que ele irá apertar em setembro. Se chegarmos a setembro e a curva não tiver mais essa alta, ok. Se a curva mantiver a alta precificada e o Fed não quiser entregar, o mercado pode estressar e a curva pode inclinar, sendo que os juros longos no mundo já têm sido uma fonte grande de risco e de volatilidade e não está com cara de que vai acalmar tão rápido.”
O executivo da Vinci observa, ainda, que as eleições de meio de mandato nos EUA (“midterms”) costumam ser períodos de forte instabilidade nos mercados acionários e que, antes do pleito, é comum haver quedas relevantes do S&P 500. “E, aqui no Brasil, temos a nossa eleição. Se pensarmos que vamos ter os nomes definidos em 14, 15 de agosto, de setembro para frente a eleição pega fogo”, enfatiza o profissional, que se prepara para mais instabilidade.
A eleição presidencial, de fato, foi o principal tema das conversas durante o evento, com dúvidas entre os investidores sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e sobre como (e se) será feito um ajuste das contas públicas brasileiras em caso de reeleição de Lula.
Para o CEO da Tenax Capital, Alexandre Silvério, o mercado já trabalha com uma probabilidade mais alta de reeleição de Lula e a prova disso é o nível das taxas das NTN-Bs, os títulos públicos atrelados à inflação, que estão em patamares bastante elevados, o que reflete a maior preocupação dos investidores locais. Já os estrangeiros parecem menos receosos e o câmbio pode ser um sinal disso. “Com o câmbio na faixa entre R$ 5 e R$ 5,10 há bastante tempo, parece não indicar uma grande diferença de visão do estrangeiro sobre as eleições”, afirma.
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“Não acho que veremos um Lula fiscalista, não é o perfil dele. Mas, ao mesmo tempo, existe um diagnóstico de um problema fiscal e vamos ver como isso será endereçado”, avalia Silvério. Ele diz não acreditar que um ajuste das contas públicas será feito via cortes de gastos, mas sim por aumento de receitas. “Nesse caso, temos uma fórmula que, na minha opinião, é nociva a médio e longo prazo.”
“Acho que o nível da NTN-B não reflete apenas a questão eleitoral, mas sim o risco fiscal que está deteriorando e que, mal ou bem, terá de ser endereçado. Não há um dia em que a gente abra o jornal e que não tenha uma nova medida expansionista”, observa.
A sensação de que os juros reais de mercado já refletem algo do cenário eleitoral é compartilhada pelo CEO da SulAmérica Investimentos, Marcelo Mello. Ele acredita que o comportamento da bolsa local seguirá dependente de dados e com alocações bastante táticas. “Essa dinâmica mais negativa para a bolsa local não vai mudar tão cedo, pelo menos até 2027. Vai continuar uma dinâmica muito tática e com posicionamento de curtíssimo prazo.”
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Mello avalia que os investidores parecem “desconfiados” e “sem visibilidade” sobre o futuro da bolsa, o que joga contra posições mais estruturais. A desconfiança não é à toa. Mello lembra que a bolsa local perdeu o seu maior comprador e quem estava “fazendo preço” — o investidor estrangeiro —, com o aumento das retiradas de capital externo em ações listadas na B3Cotação de B3 desde abril.
Não por acaso, o gestor das estratégias de multimercado e previdência da Verde Asset Management, Luiz Parreiras, tem optado por posições na bolsa, mas de forma cautelosa.
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“No caso de o incumbente se reeleger, achamos que o mercado de ações vai ficar mais ou menos de lado, mas talvez tenha uma pequena queda”, diz Parreiras. “Já no caso de uma vitória da direita, achamos que o mercado poderia se empolgar com uma queda importante na taxa de juros, o que poderia reprecificar todo esse pedaço da bolsa [fora commodities] para cima. O jeito de se posicionar para essa assimetria é usando opções.”
Para ele, a bolsa é, hoje, o ativo que possui a maior assimetria e que a casa consegue se posicionar de maneira mais “eficiente”. “O mercado de juros, por exemplo, também tem uma assimetria interessante, mas eu não consigo me posicionar usando opções”, exemplifica. “A bolsa tem uma combinação de assimetria, com um instrumento eficiente para alocar, além de um preço atrativo.”
Embora defenda que o mercado de juros possui assimetrias no momento, Parreiras avalia que os prêmios ainda são “insuficientes”. “Vemos uma situação fiscal supercomplicada e dependente do que vai acontecer na eleição. Do outro lado, também não achamos óbvio em termos de risco e retorno apostar no ‘trade’ de que os juros [locais] vão continuar subindo”, afirma o executivo.
Fonte: Valor Econômico
