25 Apr 2023
No início de 2020, no mesmo dia em que uma nova e apavorante doença recebeu o nome de covid-19, uma equipe de cientistas dos EUA e da China divulgou dados que mostravam o quão rápido o vírus se espalhava e quem estava morrendo. O estudo foi citado em alertas por todo o mundo e parecia ser um exemplo de cooperação internacional.
Mas, em uma questão de dias, os pesquisadores silenciosamente retiraram o trabalho do ar, substituindo-o por uma mensagem online que dizia para que os cientistas não o citassem. Alguns observadores perceberam a situação peculiar, mas o episódio foi rapidamente esquecido em meio à pandemia. Agora, está claro que o estudo foi removido sob ordens de autoridades chinesas em meio a um cerco à ciência. Isso desencadeou enorme incerteza ao redor das datas dos primeiros casos de covid, como os relatados pelo estudo.
“Era muito difícil obter qualquer informação da China”, disse Ira Longini, da Universidade da Flórida, um dos autores do artigo, que recentemente falou sobre o tema pela primeira vez.
Uma investigação do New York Times descobriu que a censura também teve como alvo revistas acadêmicas internacionais e bancos de dados científicos, abalando as fundações do conhecimento científico compartilhado. Grupos como a Organização Mundial da Saúde deram crédito a dados confusos e a uma linha do tempo imprecisa.
DADOS. O sucesso da censura não foi total: a versão original do artigo, de fevereiro de 2020, por exemplo, ainda pode ser encontrada online com algum esforço. Mas a cruzada privou médicos e políticos de informações críticas sobre o vírus em um momento no qual o mundo mais precisava.
A ofensiva continua a disseminar desinformação, prejudicando os esforços para determinar a origem da covid-19. Tal censura ficou visível para o público recentemente, quando um grupo de cientistas internacionais descobriu dados de sequenciamento genético que pesquisadores chineses haviam coletado em um mercado de Wuhan, cidade que foi o marco zero da pandemia.
As informações foram obtidas em janeiro de 2020, mas ficaram mantidas em segredo por três anos – atraso que autoridades sanitárias pelo planeta chamaram de “indesculpável”.
O sequenciamento mostra que cães-guaxinins haviam depositado assinaturas genéticas no mesmo lugar em que o material genético do vírus foi encontrado, descoberta consistente com um cenário no qual o patógeno foi transmitido para seres humanos a partir de animais comercializados ilegalmente no mercado.
Fonte: O Estado de S. Paulo
