Depois de um abril bastante volátil para as ações brasileiras, no qual o índice Ibovespa saiu dos 187 mil pontos, chegou muito perto dos 200 mil, caiu e encerrou o mês praticamente estável, maio começou com perdas que já acumulam 2,89%. Para frente, a expectativa é de retomada do fluxo estrangeiro, mas para o índice chegar a um novo recorde será necessário mais do que isso, avalia Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora.
Na sua avaliação, a explicação para o desempenho das últimas semanas é um movimento de rotação de capitais entre os emergentes em direção à Ásia, onde estão teses que se fortaleceram recentemente, em especial de microchips e semicondutores. Mas os fundamentos que levaram o Brasil a ser um dos favoritos no início do ano se mantém, e há motivos para crer que os estrangeiros voltarão.
Nesse cenário, quem mais se beneficiará serão os setores que concentraram o crescimento do mercado brasileiro até aqui. Ou seja, bancos, commodities e distribuidoras de energia elétrica. Com a ressalva de que as últimas (do setor elétrico) estão um pouco menos atrativas porque as ações já se valorizaram bastante. Além destes, telecomunicações e saúde privada são algumas das apostas do Santander para o ano. O primeiro, apesar de resultados financeiros mais apertados no primeiro trimestre, é bom pagador de dividendos e tem receitas estáveis independentemente do ciclo econômico. E a segunda é considerada uma “tese secular de crescimento”, diz Peretti, porque a demanda por serviços de saúde deve crescer de forma perene no longo prazo.

As empresas mais sensíveis a juros continuam com viés positivo na leitura da corretora, como construção civil para baixa renda, shoppings e algumas empresas de transportes e logística. Mas é entre elas que a alta do preço do petróleo e, consequentemente, da expectativa de juros – em razão do efeito inflacionário da commodity – torna o cenário muito mais desafiador do que anteriormente.
Apesar da perspectiva positiva para a bolsa mesmo com o cenário externo desafiador, a dinâmica entre os setores e o ritmo de valorização dependerá muito dos preços do petróleo. Caso siga elevado, os ganhos em commodities, sobretudo Petrobras, vão sustentar o Ibovespa no curto prazo. Mas retomar o ritmo de crescimento observado no início do ano exige que os cortes na Selic acelerem e que os investidores brasileiros retomem um movimento comprador, o que parece cada dia mais difícil.
“Só com otimismo em Petrobras e Vale, sustentaríamos os 180 mil pontos. Talvez até voltássemos para a casa dos 190 mil. Mas para passar os 200 mil pontos e começar a mirar em 210 mil, necessariamente exige respaldo de juros menores do que os previstos atualmente”, afirma Peretti.
Se os juros caírem abaixo dos 12,5%, não só o segmento cíclico doméstico do Ibovespa reagiria com força, como as empresas de menor capitalização (“small caps”) tenderiam a diminuir a distância em relação às “blue chips”. Os investidores locais são muito mais sensíveis à política monetária, e são eles que conhecem e compram empresas menos capitalizadas.
Caso contrário, os gringos continuarão dominando a bolsa, e os pesos pesados dominando o Ibovespa. Com previsões de inflação atuais em 4,5% e sinais de que ela deve ser corrigida para cima, o cenário mais provável é esse, afirma Peretti.
Mas ainda há otimismo na bolsa. A reabertura da janela de IPOs na bolsa brasileira é um sinal disso. O mercado local volta a atingir um “nível mínimo de maturidade” depois de mais de 5 anos sem novas listagens. “Apesar da concentração da qual falamos, o sucesso do último IPO demonstra que há interesse em outras teses de investimento para além do setor de serviços financeiros e exportadoras de commodities”, diz.
Fonte: Valor Investe
