O rebaixamento da nota soberana de crédito dos Estados Unidos pela Moody’s — o terceiro entre as grandes agências de rating — cristalizou uma percepção que os mercados já começavam a embutir nos preços dos ativos: a maior economia do mundo caminha para um desequilíbrio fiscal estrutural, sem coordenação política para revertê-lo. Com o Congresso travado em disputas sobre projetos orçamentários que têm potencial para elevar ainda mais os gastos, o prêmio de risco exigido pelos investidores para carregar os Treasuries aumenta e reacende sinais de alerta sobre o custo de financiamento do governo americano.
Ao longo da semana passada, o salto dos rendimentos dos Treasuries já acionou um sinal de alerta nos mercados, com a taxa do papel de dez anos acima de 4,5% e a do título de 30 anos novamente próxima de 5%. Passada a tensão em torno das tarifas comerciais impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, o mercado voltou suas atenções para as discussões sobre o orçamento do próximo ano fiscal no Capitólio — e a percepção de uma deterioração das contas públicas levou os agentes a exigirem prêmios ainda maiores no mercado de juros americano.
O rebaixamento do rating dos EUA pela Moody’s na noite de sexta-feira, após o fechamento dos mercados, adiciona uma camada de incerteza aos agentes financeiros, que já andavam desconfortáveis com a trajetória da dívida pública americana. A agência cortou a nota soberana de ‘Aaa’ para ‘Aa1’ e, assim, os EUA deixaram de ter o “triple A”, nota máxima dada pelas agências de classificação de risco, na avaliação de todas as casas. Ao justificar sua decisão, a Moody’s avalia que há uma incapacidade dos EUA em conter a tendência de déficits fiscais elevados.
“O foco do mercado se voltou às incertezas fiscais ligadas às negociações em torno do novo projeto orçamentário”, diz o estrategista Mike Chang, do Citi. “Dado que as tarifas não são mais vistas como uma fonte relevante de receita, a preocupação é que o cenário fiscal de longo prazo não melhore — ou até piore. Somando-se a isso o novo ceticismo quanto ao status dos Treasuries como porto seguro, a narrativa de um prêmio de termo [“term premium”, exigido por investidores para carregar os papéis da dívida] mais elevado pode voltar à tona.”
Chang alerta, ainda, para o risco de episódios de “greve de compradores” caso o déficit dos EUA supere as expectativas. Em relatório enviado a clientes, o estrategista diz acreditar que há uma chance de a versão final do Orçamento manter os mesmos cortes nos impostos, mas com uma menor redução de gastos e menor arrecadação, o que poderia levar o déficit fiscal de 2026 a ser maior que o de 2025 em cerca de 0,3 ponto – algo que vai ao encontro das preocupações elencadas pela Moody’s.
“O não enfrentamento das preocupações fiscais de longo prazo deve manter o prêmio de termo elevado”, diz o estrategista do Citi, ao lembrar do episódio visto no início do mês passado, quando houve pressão nos swaps de juro de longo prazo nos EUA, o que levou a taxa do T-bond de 30 anos a visitar novamente a casa dos 5%. O fenômeno foi um dos fatores que levaram o governo Trump a recuar de seus planos tarifários mais agressivos.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, minimizou a ação da Moody’s. Em entrevista à rede de TV americana NBC no domingo, ele avaliou o rebaixamento como um “indicador defasado” e culpou o governo de Joe Biden, ao dizer que “herdou” gastos públicos elevados da administração anterior.
Diante de um aumento na percepção de risco fiscal nos EUA em meio à tramitação dos projetos orçamentários na Câmara dos Representantes, a decisão da Moody’s pode agravar o sentimento em torno da dívida americana. Embora o “timing” da ação de rating da agência tenha surpreendido, os mercados já haviam precificado alguma chance de esse cenário se concretizar. Embora não reflita de forma automática a nota de crédito em si, o risco país dos EUA medido pelo CDS (sigla do inglês “credit default swap”, uma medida do risco de calote) de cinco anos já se afastava dos índices de outros soberanos com rating parecido. Enquanto a Alemanha (AAA) sustentava, na sexta-feira, CDS de 12 pontos, o dos EUA estava em 54 pontos, segundo dados da S&P Global.
“Em nossa opinião, a Moody’s tem mais peso que a Fitch [que rebaixou o rating dos EUA em 2023]. Por isso, projetamos ao menos um aumento adicional nos juros de mercado no primeiro dia. Não nos surpreenderia se os títulos de 30 anos tivessem desempenho inferior nos próximos pregões”, alerta o chefe da estratégia macro da Wells Fargo Securities, Mike Schumacher. Para ele, é possível que os juros de longo prazo voltem a subir de forma razoável ao longo da semana.
Já o chefe de estratégia de juros do J.P. Morgan, Jay Barry, avalia que as taxas americanas de longo prazo já estão bastante pressionadas. “É natural que os investidores se preocupem com os impactos desse tipo de rebaixamento sobre a precificação dos Treasuries”, diz. Para o estrategista, a iniciativa da Moody’s tenderia a estreitar ainda mais os “swap spreads”. No entanto, Barry observa que os Treasuries já têm operado com um nível de prêmio superior a outros mercados de juros soberanos com rating semelhante, o que pode limitar o impacto da ação da agência.
Mesmo com um possível impacto limitado, Barry não vê espaço para alívio no mercado de Treasuries. Pelo contrário. Para ele, a curva de juros americana seguirá sensível à evolução da política fiscal no curto prazo e às implicações para a emissão de títulos nos próximos anos. “Dado o grau de incerteza em torno do conteúdo final [do projeto de reconciliação que tramita na Câmara] e do cronograma, acreditamos que os riscos se inclinam para déficits ligeiramente maiores no curto prazo e um impulso fiscal mais positivo sobre o PIB no ano fiscal de 2026.”
Dado o nível elevado de inclinação da curva de juros dos Treasuries, o J.P. Morgan acredita que, caso o projeto de reconciliação orçamentária que tramita na Câmara seja aprovado e sofra alterações mínimas no Senado, o impacto sobre os juros de mercado tende a ser limitado. “Hesitamos em adotar posições que apostem em uma inclinação mais ampla da curva no ambiente atual”, afirma Barry.
O estrategista, contudo, diz apostar em um aumento nos juros de dez anos em relação às taxas de três e de 30 anos, diante da aposta em um aumento estrutural dos prêmios. “Um plano fiscal que mantém os déficits acima de 6% a 7% do PIB nos próximos anos, enquanto a demanda por Treasuries por parte de investidores menos sensíveis a preço segue caindo, deve sustentar a tendência de elevação estrutural dos prêmios ao longo do tempo”, enfatiza. Para ele, portanto, a percepção de um alívio mais amplo nas taxas americanas está longe de se concretizar.
Fonte: Valor Econômico