A participação do Brasil nos fundos globais voltou a crescer como consequência da rotação de portfólios dos investidores em meio às incertezas geopolíticas e ao processo de redução de exposição aos Estados Unidos.
O peso das empresas brasileiras no MSCI Emerging Markets, que indica a participação do Brasil em fundos dedicados a mercados emergentes, tem aumentado no ano, chegando na última revisão a 5,15% (China representa 25,48%, com a maior fatia), a maior fatia em três anos. Essa participação estava em 4,32% no fim do ano passado, em 4,07% em 2024 e em 5,80% em 2023. No auge, chegou a 16,91% em 2009, quando o país estampava o selo de grau de investimento, conforme dados da MSCI, levantados a pedido do Valor.
A trajetória de recuperação da exposição aos ativos brasileiros, no entanto, pode estar ameaçada, dado o aumento da aversão ao risco no país, em parte por conta da volatilidade trazida pelas eleições presidenciais. Na semana passada, o “Flávio Day 2.0” – com a revelação de conversas entre o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master – foi um exemplo disso. O cenário global incerto também tem levado investidores a se retrair. Os efeitos serão conhecidos no próximo rebalanceamento do peso dos países no índice, que ocorrerá no fim de junho.
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A participação mínima do Brasil nesses fundos se deu em 2021, quando ficou em 3,99% enquanto o fluxo do capital global se direcionava aos Estados Unidos. O Brasil está no MSCI Emerging Markets desde 1988.
O fluxo de capital estrangeiro à bolsa brasileira soma R$ 49,4 bilhões neste ano, mesmo com a saída de R$ 7,2 bilhões em maio motivada pela aversão ao risco. Mesmo assim, o volume de 2026 até agora é recorde para o período e é o dobro de todo o ano passado. Em 2024, houve entrada R$ 32,1 bilhões e, em 2023, de R$ 44,9 bilhões. O fluxo foi maior, nos primeiros meses do ano conforme especialistas, por conta da volatilidade decorrente da Guerra do Irã.
O movimento foi majoritariamente promovido por meio da entrada de um fluxo passivo nos fundos de índices (os ETFS) atrelados ao Ibovespa, o que beneficiou as maiores companhias e com mais liquidez no mercado. Agora, num segundo momento, as características começam ter sinais de mudança, afirma o diretor do banco de investimentos do Itaú BBA, Cássio Gouveia.
A percepção segue positiva. “No fluxo da corretora, investidores de mais alta qualidade aos poucos estão começando a aparecer. Vemos mais receptividade e convicção e temos recebido delegações de fundos internacionais para visitar as companhias”, diz. Segundo ele, o Brasil passou a ter uma representatividade maior nos últimos meses e anos e volta para a agenda dos fundos globais.
Vemos mais receptividade e convicção e temos recebido delegações de fundos internacionais”
Até agora, os recursos que chegaram neste ano foram direcionados às maiores empresas listadas. O diretor-executivo de análise do BTG Pactual, Bruno Henriques, afirma que o fluxo segue majoritariamente buscando as “blue chips”. “Não vimos ainda esse fluxo decantar nas small caps”, afirma. O executivo lembra que o Ibovespa tem um peso maior em commodities, como Petrobras, com o investidor buscando ampliar sua exposição ao petróleo no contexto do conflito no Irã, algo que também ajuda a atrair o fluxo. Para esse recurso chegar às empresas menores, segundo Henriques, a temática de inflação, juros e fiscal ganha relevância.
“A gente começa a ver uma retomada de fluxo e todas as conversas de que o Brasil é o ‘novo ouro’” diz Bruno Saraiva, corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America no Brasil. Com o país sendo fornecedor de commodities, uma tendência global de dólar mais fraco e cenário de corte de juros no país, o fluxo deve continuar entrando, mesmo com a volatilidade por conta do conflito no Irã possa diminuir o ritmo de entrada. “Os investidores long-only [de longo prazo] estão olhando o Brasil de forma relevante.”
O responsável pelo banco de investimento do UBS BB, Anderson Brito, afirma que uma das razões para o investidor preferir as empresas de maior liquidez é a leitura de que ainda há ativos grandes subvalorizados. Ele aponto que o múltiplo preço sobre lucro (P/E) Ibovespa está em torno de 9,3 vezes, sendo que a média histórica em 10 anos é de 10,5 vezes. “Dessa forma, o investidor enxerga oportunidades em empresas com menor risco de liquidez”, diz. “Historicamente, os recursos chegam às empresas de médio e pequeno porte quando as blue chips começam a atingir seu valor justo na visão do mercado. Nesse momento, os investidores passam a aceitar mais risco com objetivo de obterem retornos maiores.”
Pedro Costa, chefe da área de renda variável do Santander Brasil, afirma que hoje há muitas empresas prontas para a realização de ofertas subsequentes (“follow-on”), com parte delas aguardando a janela que se abre após divulgação de resultados do primeiro trimestre. “O diálogo aumentou muito e há empresas que podem considerar essa janela”, diz. Segundo Leonardo Cabral, responsável pelo banco de investimento do banco, o estrangeiro esteve presente nas ofertas de ações que ocorreram no ano.
Foi sob esse contexto que se deu a precificação da oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da Compass, pertencente ao grupo Cosan. A operação somou R$ 3,2 bilhões, com ampla participação de estrangeiros. “Se não fosse esse apetite por Brasil, não teria sido possível lançar esse IPO neste momento”, diz uma fonte.
Fonte: Valor Econômico
