Por Fabio Murakawa, Marcelo Ribeiro, Matheus Schuch e Andrea Jubé — De Brasília e São Paulo
31/10/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
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O presidente Jair Bolsonaro (PL) tornou-se neste domingo o primeiro presidente da história do Brasil a não conseguir se reeleger. Na mais concorrida eleição da história nacional, ele saiu derrotado em uma disputa apertada para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com 99,98% das urnas apuradas, ele obteve 49,1% dos total de votos válidos, contra 50,9% do petista.
A derrota vem após uma expansão inédita de gastos públicos em ano eleitoral. As medidas lançadas pelo governo federal para aumentar despesas sociais em pleno período eleitoral tiveram impacto direto de pelo menos R$ 68 bilhões nos cofres da União somente em 2022, conforme mostrou o Valor.
Deixou, assim, um rombo nas contas públicas com que Lula terá que lidar no ano que vem.
As ações ajudaram a alavancar a sua popularidade, quando no início do ano a sensação entre aliados era a de que Bolsonaro seria facilmente derrotado por Lula. Porém, embora tenham colocado o presidente no jogo, elas não foram suficientes para dar-lhe mais quatro anos de mandato.
Apesar da derrota, o bolsonarismo deixa o poder mais forte do que quando o presidente assumiu o cargo, em janeiro de 2019. O espólio político de Bolsonaro é considerável e diversos nomes já se projetam na briga pela herança do voto de centro-direita e direita. Segundo aliados do presidente, a tendência é que ele próprio busque manter-se como uma referência na oposição. No entanto, Bolsonaro pode enfrentar problemas na Justiça e, num cenário extremo, se tornar inelegível.
Neste caso, surgem como opções o governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o ex-ministros e senadores eleitos Sergio Moro (União Brasil), Tereza Cristina (PP), Damares Alves (Republicanos) e o governador reeleito de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).
Bolsonaro votou na manhã de domingo no Rio de Janeiro. Em um ato extemporâneo de campanha, foi receber a equipe do Flamengo, campeã da Libertadores da América, no aeroporto do Galeão.
À tarde, deslocou-se a Brasília para acompanhar a apuração no Palácio da Alvorada. Acompanhou a apuração ao lado do ministro da Justiça, Anderson Torres, e ao menos de um dos filhos Flávio, senador pelo PL-RJ. Também estava no Palácio o seu ajudante de ordens, coronel Mauro César Cid.
Ali, permaneceu recluso desde as primeiras horas que sucederam a oficialização de sua derrota e se recusou a receber aliados.
O ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, e o vice-presidente Hamilton Mourão chegaram com seus carros até o portão do Palácio e deram meia-volta.
Perto das 22h, as luzes do Palácio se apagaram. Um funcionário informou aos jornalistas que o aguardavam no Alvorada que o presidente havia se recolhido. E que não falaria com ninguém.
Enquanto isso, caminhoneiros promoviam bloqueios em Estados bolsonaristas, como Mato Grosso e Santa Catarina, em protesto contra a vitória de Lula.
Porém, aliados de Bolsonaro, como o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), reconheciam a vitória de Lula, o que contribuiu para reduzir temores de uma contestação do resultado. Dois aliados próximos do presidente, falando ao Valor em caráter reservado, asseveraram que isso não acontecerá.
O fracasso de Bolsonaro nas urnas ocorre após sucessivos episódios negativos para a campanha. Dois deles envolvendo armas, marca registrada do presidente.
A sete dias da votação, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB), aliado do presidente, recebeu com 50 tiros de fuzil os policiais federais que foram cumprir uma ordem de prisão contra ele expedida pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes. O caso ocorreu em Levy Gasparian (RJ), onde ele cumpria prisão domiciliar.
Na véspera da eleição, a deputada reeleita Carla Zambelli (PL-SP) respondeu à provocação de eleitores em São Paulo apontando uma pistola para um homem negro. Seu segurança, um policial federal, foi preso em flagrante por ter feito disparos na ocasião. Bolsonaro calou sobre Zambelli. Mas buscou se descolar de Jefferson, após ter enviado Torres a Juiz de Fora, a 50 km da cidade fluminense, para “acompanhar esse lamentável episódio”.
Depois da má repercussão, o presidente divulgou um vídeo em que afirmava que Jefferson recebera um merecido “tratamento de bandido”. E, em uma “live” nas redes sociais, afirmou jamais ter tirado uma fotografia com ele.
No dia seguinte, porém, pipocaram fotografias com Jefferson ao lado de Bolsonaro no Palácio do Planalto. O assunto foi amplamente explorado pela campanha de Lula. Em reação, Bolsonaro buscou relembrar que Jefferson havia sido aliado do petista e que denunciara o escândalo do mensalão, no primeiro mandato do petista.
Outro revés ocorreu quando veiculou-se que o Ministério da Economia estudava desvincular o reajuste do salário mínimo e das aposentadorias da inflação.
A notícia caiu como um presente para a campanha de Lula, que promoveu em seus oito anos de governo uma política de valorização do salário mínimo. Sinais de que a informação bateu forte no eleitorado foram captados pela campanha, em um grau maior do que casos como o da prisão de Roberto Jefferson. Tempo de propaganda eleitoral e energia foram empregados para assegurar que isso não iria acontecer. E o otimismo entre aliados, certos da virada há pouco menos de três semanas, deu lugar à preocupação.
Uma tentativa de reverter os efeitos da notícia veio no debate da TV Globo, na antevéspera da eleição. Ali, Bolsonaro prometeu reajustar o salário mínimo no ano que vem para R$ 1.400, ante uma previsão de R$ 1.302 enviada por ele ao Congresso na Lei Orçamentária Anual. Lula rebateu lembrando que, em quatro anos no governo, Bolsonaro limitou-se a fazer a reposição inflacionária do mínimo.
Em meio a essa sequência de más notícias, Bolsonaro estagnou cerca de seis pontos atrás de Lula nas pesquisas de intenção de voto. A avaliação na campanha era a de que Bolsonaro perdera o controle da narrativa.
O contragolpe, no entanto, veio de uma maneira desastrada. Na terça-feira, dia 25, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, e Fabio Wajngarten, coordenador da área na campanha, apresentaram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à imprensa uma denúncia de que rádios estariam divulgando menos inserções de Bolsonaro do que de Lula, prejudicando o desempenho do presidente no Nordeste.
A campanha pediu a interrupção imediata de todas as inserções de Lula em território nacional. Aliados do presidente passaram a sugerir o adiamento da eleição.
Os documentos apresentados, com tabelas de Power Point e arquivos de áudio sem provas concretas, não comoveram Moraes. Ele arquivou a denúncia e encaminhou ofício à Procuradoria-Geral da República apontando “possível cometimento de crime eleitoral com a finalidade de tumultuar o segundo turno do pleito em sua última semana”.
Bolsonaro saiu do primeiro turno com o aval de 51.072.345 votos – ou 43,2% dos válidos. No segundo turno, conseguiu ampliar seu eleitorado: ficou atrás de Lula, mas com 57.259.504 votos (48,43%).
A campanha iniciou o segundo turno tentando dar demonstrações de força do presidente. Governadores eleitos e reeleitos foram chamados ao Palácio da Alvorada. Senadores que venceram nas urnas também estiveram com Bolsonaro na residência oficial, tendo à frente a ex-ministra Damares Alves (Republicanos-DF), amiga próxima da primeira-dama, Michelle. A dupla, ao lado da deputada reeleita Bia Kicis (PL-DF), montaram um comitê de mulheres e rodaram o país em busca de apoio do eleitorado feminino para o presidente.
Entretanto, esses esforços não foram suficientes. Bolsonaro sonhava reduzir a margem de Lula no Nordeste, mas uma fala do próprio presidente no dia 5 de outubro conspirou contra esse propósito, ao relacionar a alta votação do petista aos índices de analfabetismo na região.
“Lula venceu em nove dos dez Estados com maior taxa de analfabetismo. Você sabe quais são esses Estados? No nosso Nordeste. Não é só taxa de analfabetismo alta ou mais grave nesses Estados. Outros dados econômicos agora também são inferiores na região”, disse.
Na Bahia, Bolsonaro obteve cerca 27,9% dos votos, contra 72,1% de Lula. Em Pernambuco, ficou com 33%, e Lula, com 67%. No Ceará, somou 30%, atrás do petista, que conseguiu 70% dos votos.
O presidente venceu em três dos quatro Estados do Sudeste. Mas o desempenho ficou aquém das expectativas da campanha e foi insuficiente para virar o jogo contra Lula. Em São Paulo, ele obteve 55,27% dos votos válidos, contra 44,73% de Lula. Aliados de Bolsonaro, como Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, esperavam uma vitória de 20 pontos percentuais no maior colégio eleitoral do país.
Virar o jogo em Minas Gerais também seria crucial para Bolsonaro. Com o apoio do governador Romeu Zema (Novo), o presidente conseguiu praticamente eliminar a diferença de cerca de 570 mil votos em favor de Lula no primeiro turno. Mas a eleição ali terminou praticamente empatada: 50,17% contra 49,83% em favor do petista. A projeção de Nogueira era uma vantagem de 6 pontos percentuais para o presidente.
Já em seu berço político, o Rio, Bolsonaro confirmou o favoritismo. Ele obteve 56,5% dos votos contra 43,5% de Lula.
O presidente voltou a ter um bom desempenho na Região Sul. Saiu vitorioso no Rio Grande do Sul (56,35% a 43,65%), em Santa Catarina (69,3% a 30,7%) e no Paraná (62,4% a 37,6%). Além disso, derrotou o petista em todos os Estados do Centro-Oeste, como havia feito em primeiro turno. Venceu em Mato Grosso (65% a 35%), Mato Grosso do Sul (59,5% a 40,5%), Goiás (58,7% a 41,3%) e no Distrito Federal (58,8% a 41,2%).
Na Região Norte, houve equilíbrio no Amazonas, com ligeira vantagem para o petista (51% a 49%). No Pará, a vitória também foi do petista, com 54,74% a 45,26%. Os demais Estados da região deram mais votos para Bolsonaro.
Fonte: Valor Econômico


