Por Matheus Prado — De São Paulo
20/07/2022 05h02 Atualizado há 3 horas
Em um ambiente em que as taxas de juros não param de avançar e as incertezas globais e locais seguem concentrando a atenção do investidor, a renda variável tem perdido atratividade em relação aos produtos de renda fixa. Na B3, para além do movimento vendedor identificado nos últimos meses, que levou o Ibovespa a perder o patamar psicológico dos 100 mil pontos, a dificuldade também se materializa na redução do volume de negociação no segmento de ações.
Até o pregão de terça-feira, que movimentou R$ 18,8 bilhões na B3 e R$ 14,2 bilhões no Ibovespa, o volume médio diário negociado na bolsa no mês de julho era de R$ 21,1 bilhões, 21,8% menos que os R$ 27 bilhões registrados em junho e 22,7% abaixo dos R$ 27,3 bilhões apurados em ju-lho do ano passado, segundo levantamento do Valor Data. Olhando apenas para o índice, a queda é de 19,5%, de R$ 19,2 bilhões de média em junho para R$ 15,5 bilhões em julho; e de 20,5% ante igual mês de 2021.
Caso este patamar se mantenha, será a média mensal mais baixa desde novembro de 2019, quando foram negociados R$ 19,6 bilhões na B3 e R$ 13,7 bilhões no índice. Trata-se, então, do aprofundamento de uma tendência de queda no volume de negócios, mesmo considerando que historicamente há uma baixa nos meses de junho e julho em razão da temporada de verão no hemisfério norte.
Nessa linha, em prévia operacional divulgada no último dia 11, a B3 identificou uma queda de 25,1% no volume de negociações em junho de 2022 em relação ao mesmo mês de 2021. Comparando com maio deste ano, também houve queda, de 8,7%. Já em análise semestral, há uma piora de 16,7% entre a média de R$ 35,06 bilhões registrada nos primeiros seis meses de 2021 e a de R$ 29,20 bilhões de janeiro a junho deste ano.
Inácio Ponchet, gestor de renda variável da BLP Asset, opina que, para além do avanço da inflação e dos juros, existia um consenso de mercado muito negativo em relação à temporada de balanços. E, como ainda não vieram resultados tão ruins nos EUA, criou-se uma assimetria potencialmente positiva no curto prazo. “A liquidez também caiu por conta da sazonalidade, o que faz com que qualquer movimento tenha impacto relevante”, diz. Nessa linha, o Ibovespa acompanhou o bom humor de Nova York e subiu 1,37% ontem, aos 98.245 pontos, sustentado por Petrobras e bancos.
Da mesma forma, Leonardo Morales, sócio da SVN Gestão de Recursos, entende que pode haver uma retomada nos aportes dos investidores estrangeiros, principalmente após as férias de verão no hemisfério norte. “Tivemos rotação para ativos de valor no primeiro trimestre e, como Rússia e China enfrentavam problemas, o Brasil concentrou os investimentos estrangeiros em emergentes. De lá para cá, com as taxas de juros avançando e os preços das commodities passando por correção, o índice local ficou sem comprador. Mas acredito que, se os riscos de recessão diminuírem e os resultados das empresas locais não incluírem grandes revisões baixistas nos lucros, os agentes internacionais devem retomar parte do fluxo no final do verão”, afirma.
Já Tomás Awad, sócio-fundador da 3R Investimentos, afirma que, comparando os históricos da Selic e do volume de negociação de ações na B3, é natural que haja migração para fora da renda variável quando os juros alcançam patamares tão elevados. Olhando pelo lado positivo, aponta, este volume não deve cair muito mais porque há mais empresas listadas e mais investidores. Há, por outro lado, algumas incertezas que devem continuar penalizando o volume.
O executivo afirma que, entre os principais fatores de risco no curto prazo, o mercado monitora o avanço dos juros nos países desenvolvidos e a consequente desaceleração da economia global, assim como o cenário da China. Localmente, acredita que a eleição deve forçar compasso de espera e que os riscos fiscais seguirão prejudicando.
Awad entende, adicionalmente, que os saques realizados pelo investidor institucional local – de R$ 73,7 bilhões até o último dia 15 – até devem caminhar para um nível de estabilização, mas não vê reversão do processo em 2022, com a categoria “pagando o preço de erros e excessos dos bancos centrais”.
Fonte: Valor Econômico


