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Mesmo que a deterioração recente do cenário doméstico, que ajudou a fortalecer a percepção de que os juros permanecerão altos no Brasil, tenha impactado a bolsa e minimizado o efeito de notícias positivas do exterior, Nicole Inui, chefe de pesquisas para Brasil e de estratégia de ações para as Américas do HSBC, ainda enxerga oportunidades na renda variável.
Em entrevista ao Valor, a executiva defende que a liquidação do mercado ocorreu em um momento em que o crescimento dos lucros das empresas parece bastante sólido, o que deve manter os múltiplos das ações descontados. “E, mesmo que a Selic não caia como previsto e pressione as estimativas de lucratividade, também é verdade que a taxa já caiu 325 pontos-base, e isso vai ajudar”, afirma.
Valor: Como enxerga o cenário da bolsa brasileira no momento?
Nicole Inui: Os ativos locais parecem mais afetados por ruídos e eventos domésticos do que pelo cenário externo no curto prazo. Mesmo com boas notícias nos Estados Unidos, como dados de inflação abaixo do consenso, a bolsa brasileira seguiu pressionada, enquanto os mercados acionários de outras regiões subiram. A expectativa de juros mais altos por mais tempo retira um importante catalisador para a bolsa, a migração da renda fixa para a renda variável pelo investidor local. Esse gatilho pode ter ficado para 2025. No entanto, com a alocação em ações em patamares historicamente deprimidos, entendo que estamos perto do pico de pessimismo para essa base de investidores.
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Valor: E o estrangeiro?
Inui: Qualquer sinalização de melhora no quadro fiscal ou sobre a sucessão da presidência do Banco Central ajudaria. Quanto antes essas incertezas se dissiparem, maior a chance de os não residentes voltarem a colocar dinheiro na bolsa. Vale lembrar que o estrangeiro já está “overweight” [com exposição acima do consenso] em ações brasileiras desde o início da guerra da Ucrânia, ainda que tenha diminuído parte da exposição. Mas se as incertezas se dissiparem em alguma medida, podem aumentar [a exposição]. Mercados emergentes são sempre analisados em termos relativos, é um “rouba-monte”. A China tem recebido fluxo este ano, que pode estar saindo de Índia, Brasil. O México também recuou recentemente por conta de incertezas políticas. Mas a parte micro da bolsa brasileira reserva oportunidades.
Valor: Ainda considera a bolsa brasileira atrativa?
Inui: Tivemos alta forte no fim do ano passado por conta da expectativa por cortes de juros, com muito dinheiro estrangeiro entrando. Mas, depois que o Federal Reserve [Fed, o BC americano] endureceu o discurso, tivemos reprecificação e esses recursos voltaram a sair. A bolsa sofreu com essa expectativa de menos cortes nos EUA e aqui. Nossa projeção era de Selic a 8,5% no fim do ano, agora está em 10,5%. E as expectativas de inflação estão piorando também. Mas entendo que as incertezas estão precificadas no mercado e os preços, atrativos. Entre os principais fatores que analisamos, estão “valuation”, crescimento de lucros e “dividend yield”. Os múltiplos estão muito descontados, com a bolsa negociando com desconto de 30% em relação ao histórico. Mas, para que as ações passem por “re-rating”, é preciso que os juros continuem caindo, o que está mais difícil. O crescimento de lucros depende do PIB, que está surpreendendo para cima, assim como o comportamento do consumidor. O juro não vai cair tanto como previsto e pode provocar alguma pressão sobre as estimativas de rentabilidade. Mas também é verdade que a Selic já caiu 325 pontos-base, e isso vai ajudar. Esse gatilho existe, só depende de quando o mercado vai focar no micro das empresas. E o dividend yield no mercado brasileiro é alto no geral e pode chegar a 10%, 15% em alguns setores. Isso é um retorno que também tem que ser levado em conta ao se investir no Brasil, e é bem presente nas empresas líquidas locais. Como o investidor estrangeiro olha para “total return”, isso ajuda. Nessa linha, o câmbio também é um fator importante, porque os não residentes querem retorno em dólar. É verdade que o real perdeu força no curto prazo, mas como temos expectativa de juros mais altos e o juro real segue elevado, esperamos que a divisa local encontre alguma sustentação contra o dólar e encerre o ano em R$ 4,95.
Valor: Quais as preferências setoriais do banco?
Inui: Vale citar bancos, dado que os juros vão ficar mais altos por mais tempo, mas também temos visto aceleração no crédito e recuo da inadimplência. Ademais, são empresas com ROE [medida de rentabilidade] elevado e boas pagadoras de dividendos. Também olhamos para consumo discricionário de alta qualidade, companhias que estão com balanços robustos e que têm oportunidade de ganhar market share. E como o estrangeiro está determinando o viés do mercado, é importante olhar para papéis líquidos. Exportadoras de commodities, por exemplo, geram fluxo de caixa, pagam dividendos e estão descontadas. Podem não se beneficiar tanto de uma alta das commodities no momento e questões políticas locais pressionaram alguns papéis, mas, se esse risco se dissipar, pode haver recuperação.
Valor: Cortes de juros nos EUA ainda podem ajudar?
Inui: O foco dos investidores globais é o Fed e, por isso, tivemos reprecificação dos juros nos EUA no início do ano. No fim de 2023, o mercado esperava seis cortes de juros em 2024, enquanto a gente esperava três. Agora, a expectativa é de um ou dois cortes, e achamos que virá um, em setembro. O que vimos nos mercados emergentes foi um ajuste entre os muitos cortes esperados antes e os poucos de agora. Mas acredito que o mercado já está em um nível bem “hawkish” [conservador]. Pode ser que o Fed não inicie o ciclo este ano, mas, nesse caso, a mudança será de um corte para zero, o que é uma diferença bem menor do que a que existia. E, para nós, o mais importante é que o próximo movimento do Fed seja para baixo, e não para cima. O início do ciclo de afrouxamento pode levar mais tempo que o previsto, porque o Fed está monitorando a inflação, que está demorando para convergir e deixar o BC confortável. Mas não estamos vendo uma reaceleração, que poderia provocar uma decisão no outro sentido. Seja em setembro, seja em dezembro, seja só no ano que vem, cortes de juros nos EUA são bons para os mercados de ações historicamente. Não é tão importante quando, e sim se vai cortar, e nós achamos que vai. O grande risco é atividade e inflação reacelerarem, mas não parece ser isso que está ocorrendo. Os dados de inflação têm vindo em linha ou até abaixo do consenso. E a economia está resiliente, mas o mercado de trabalho parece estar voltando.
Fonte: Valor Econômico