A turbulência nos mercados e na geopolítica tem forçado muitas gestoras de fortunas familiares (os “single family offices”) a reavaliar seus portfólios de investimentos, que frequentemente têm exposição significativa a ações, títulos e dólar americanos. Uma esmagadora maioria (84%) destaca o cenário geopolítico atual como um desafio fundamental e um fator cada vez mais crítico nas decisões de investimento, ante 60% da última sondagem, dois anos atrás. Quase dois terços (64%) buscam aprimorar a diversificação e só um terço se sente totalmente confortável com a liquidez de sua carteira.
Estes são alguns dos resultados da pesquisa global da BlackRock com 175 family offices, que supervisionam ativos de mais de US$ 300 bilhões. A América Latina e o Brasil estão representados no mapeamento, que fez entrevistas entre 17 de março e 19 de maio. O relatório com as conclusões está sendo divulgado nesta terça-feira, 17. No total, o grupo tinha US$ 11,6 trilhões sob gestão ao fim do primeiro trimestre.
“O mundo não está seguindo mais os ciclos econômicos normais de crescimento, pico, retração, recuperação. O que o mercado está agora enfrentando são rupturas estruturais, que a gente chama aqui de ‘megaforces’ [megaforças]”, diz Bruno Barino, principal executivo da BlackRock no Brasil.
Ele cita a questão demográfica dos países desenvolvidos com a transferência de riqueza para novas gerações, o interesse em teses ligadas à inteligência artificial, além de mudanças nas formas de funding. “Não tem mais o modelo tradicional do banco captando depósitos e emprestando no mundo de agora em diante, tem muita forma diferente de financiar, é outro movimento econômico do que se tinha no passado.”
Uma maioria significativa dos family offices (72%) já havia alterado suas alocações, ou tinha a intenção de fazer algum tipo de ajuste antes do anúncio das tarifas comerciais pelo presidente americano Donald Trump, no início de abril. E quase todos (94%) estão fazendo alterações ou buscando um espaço para isso.
Menos de um em cada cinco está migrando para um posicionamento de risco, enquanto a maior fatia está diversificando e gerenciando a liquidez, inclusive levantando dinheiro, migrando para a ponta mais curta da curva de juros. Os principais destinos são as alternativas líquidas e ilíquidas, tirando ações americanas, caixa e criptomoedas.
O crédito privado tornou-se preferência de muitos portfólios. A combinação atraente de rendimento e retorno total, juntamente com um perfil de liquidez mais flexível, torna a classe uma via valiosa para navegar pelo cenário mais complexo quando comparado às estratégias de private equity, em que a porta de saída dos investimentos e distribuições ficou mais congestionada.
Nas carteiras de alguns entrevistados, o crédito privado representa de 15% a 30% do total de ativos sob gestão. A categoria tem atraído novos capitais e alocações anteriormente destinadas a papéis de dívida pública, private equity e capital de risco.
O sentimento entre os family offices com o crédito é otimista, com mais da metade dos entrevistados (51%) com perspectiva favorável para a classe. Uma parcela de 21% tem uma olhar um pouco mais negativo.
O viés pró-crédito se reflete nos planos de alocação. Quase um terço (32%) dos entrevistados planejam aumentar suas posições no biênio 2025-2026, o maior número para qualquer classe alternativa na pesquisa da gestora. A última sondagem tinha sido realizada em 2023.
Na América Latina, 46% dos entrevistados manifestaram a intenção de aumentar a parcela em ativos ilíquidos, em infraestrutura e crédito privado. A porção menor em relação aos investidores de outras localidades (71%) é porque a região tem menos conhecimento em relação a essas alternativas, segundo Cristiano Castro, chefe de desenvolvimento de negócios da BlackRock no Brasil. Tradicionalmente, esse público também é mais exposto ao segmento “de private equity [de participação em empresas], que fica mais próximo do mundo deles, da economia real”, diz.
Enquanto 64% dos family offices globais pretendem aumentar a alocação em mercados desenvolvidos, excluindo-se os EUA, na América Latina a proporção é de 78%. “Hoje, os portfólios dos nossos clientes aqui no Brasil estão muito alocados nos Estados Unidos e eles perceberam, principalmente pela questão de choque tarifário, que talvez seja melhor ter uma diversificação global dentro de mercados desenvolvidos, do que só se expor aos Estados Unidos. Acho que isso é mais sensível do lado de América Latina”, diz Castro.
Na parte de alocação de recursos, crédito e infraestrutura são a “bola da vez” e na América Latina o prêmio pela iliquidez parece funcionar melhor, prossegue o executivo. O plano dos gestores de fortunas familiares é encerrar 2025 com 10% investidos em infraestrutura e em 2026 aumentar a exposição para algo entre 15% e 20% do portfólio “Há vários players hoje que já têm retornos mais próximos de private equity. E no crédito uma vantagem é que há instrumentos semilíquidos, que geram saída em três meses, às vezes seis meses, então é uma forma de gerenciar não só retorno, mas a liquidez também.”
Barino diz que ao se avaliar os movimentos que a BlackRock fez no ano passado, fica claro que é um desenho de negócios indo nessa direção para atender a demanda do cliente nessas classes de ativos numa forma escalável, afirma o executivo, referindo-se às aquisições da Global Infrastructure Partners (GIP) e da HPS Investment Partners.
Na rotação de carteiras da riqueza global, o executivo diz ver países como Japão e economias da Europa que estavam em estagnação, começando a mostrar uma oportunidade de crescimento maior, e até o Brasil sendo beneficiado pelo fluxo internacional. “Mesmo com essa volatilidade toda no fiscal, o real não está sofrendo tanto quanto estaria em outros momentos. E o volume de recursos estrangeiros continua vindo.”
Fonte: Valor Econômico