10/06/2022 – Jornalista: BEATRIZ BULLA
O encontro do presidente Jair Bolsonaro com Joe Biden ontem, o primeiro entre os dois líderes, teve a pauta ambiental e a democracia no Brasil como temas centrais. Os dois assuntos são caros para os americanos.
Biden defendeu as instituições do País e elogiou o Brasil pela tentativa de proteger a Amazônia. Bolsonaro, por sua vez, afirmou que, por vezes, sente a soberania brasileira ameaçada quando o assunto é a floresta. O brasileiro disse, ainda, que chegou ao poder pela democracia e sairá, também, pela via democrática e voltou a falar em ?voto auditável?.
A imprensa pôde acompanhar a abertura da reunião, momento em que os presidentes normalmente trocam cumprimentos. Biden falou por cerca de um minuto e meio, em um discurso protocolar, em encontro que explicitou o incômodo de ambos. ?O Brasil é um lugar maravilhoso. Por sua democracia vibrante e inclusiva e instituições fortes, nossas nações são ligadas por profundos valores compartilhados?, afirmou.
O americano também disse que o Brasil tem feito um bom trabalho para proteger a Amazônia. ?Nós todos nos beneficiamos disso.? E lembrou que já esteve no País três vezes. Já Bolsonaro discursou por cerca de seis minutos, quando deu justificativas a três assuntos pelos quais é criticado: o posicionamento sobre as eleições, a proteção da Amazônia e a relação com a Rússia. Ele, porém, não recuou na retórica que mantém no Brasil.
ELEIÇÕES.
Bolsonaro disse que o País terá eleições livres e justas. Disse ainda trabalhar para que sejam auditadas. ?Queremos eleições limpas, confiáveis e auditáveis, para que não haja dúvida após o pleito?, disse ao lado de Biden. ?Cheguei pela democracia e tenho certeza de que quando deixar o governo também será de forma democrática?, afirmou.
A retórica do brasileiro para atacar o sistema eleitoral passa pela alegação de que urnas eletrônicas não são auditáveis. Último líder do G-20 a cumprimentar Biden pela vitória contra Donald Trump, o brasileiro reproduziu repetidas vezes as versões do republicano que punham em dúvida a legitimidade da eleição do democrata. ?Tive excelente relacionamento com o presidente Trump. Isso é passado?, disse Bolsonaro antes da reunião. Bolsonaro mantinha com Trump relação de admiração.
Os encontros dos dois sempre foram amigáveis. Com Biden foi diferente. Os presidentes não sorriram, não deram aperto de mãos na frente das câmeras nem se elogiaram. Em boa parte do tempo, Biden olhava para as próprias mãos. Depois da reunião bilateral, Bolsonaro e Biden tiveram uma conversa a sós, de cerca de 20 minutos. ?Fomos para a reunião confidencial. O resto é segredo de Estado.
O que eu falei, e ele concordou, é que, se a gente ampliar esse eixo norte-sul, será bom para todo mundo?, disse Bolsonaro.
AMBIENTE.
Ao tratar da Amazônia, Bolsonaro citou dados de preservação. ?Dois terços do Brasil são preservados. Mais de 85% da Amazônia, também. Nossa legislação ambiental é bastante rígida e fazemos o possível para cumpri-la pelo bem do nosso país?, afirmou.
O presidente não tratou, no entanto, de críticas internas e externas ao avanço do desmatamento. A reunião foi costurada a contragosto por ambos. Biden se curvou à ideia de convidar o brasileiro para um encontro bilateral diante do risco de sediar uma Cúpula das Américas esvaziada e da aproximação de Bolsonaro a Vladimir Putin.
Bolsonaro justificou sua visita a Putin, sem mencionar o nome do russo. ?Sempre adotamos uma posição de equilíbrio. Lamentamos os conflitos, mas eu tenho um país para administrar.?
Fonte: O Estado de S.Paulo
