Em entrevista ao Valor, ele disse que, embora processos inflacionários estejam afetando tanto os EUA como a Europa, a inflação da zona do euro, diferentemente da americana, está sendo provocada por choques de oferta e não por excesso de demanda. E a ação do BCE é limitada por uma economia mais fraca, onde nem o mercado de trabalho nem a demanda estão aquecidas, e que enfrenta estresse em seus mercados de bônus. Além disso, a ação do Fed dá força ao dólar ante o euro. “Se a Rússia efetivamente cortar o fornecimento de gás para Europa, o euro continuará abaixo da paridade com o dólar.”
Valor: O Banco Central Europeu tem a dura missão de controlar a inflação em um cenário crescente de temor de uma estagflação ou recessão no bloco. Como a instituição deve se comportar quanto aos juros?
Bill Papadakis: O BCE inicia seu ciclo de alta nesta quinta-feira e prevemos um ciclo muito mais moderado do que os mercados esperam e do que tem sido observado nos EUA, por exemplo. Para colocar isso em números, acreditamos que o banco central elevará as taxas de juros um pouco acima de 1%, para atingir uma taxa terminal de 1,25%. Isso é significativo no contexto europeu, considerando que estamos partindo de uma taxa de referência [a de depósitos] de -0,5%, e levando em conta o predomínio de taxas negativas há cerca de uma década na região. No entanto, ainda assim, o aumento não chega nem perto dos 3,5% esperados nos EUA, que é quase a metade da taxa terminal que os mercados europeus têm buscado, de 2,5%.
Acreditamos que o BCE continuará o aperto até que a taxa básica de juros atinja um máximo de 1,25%”
Valor: Então, o BCE não deve levar os juros a nível restritivo, como é esperado nos EUA para combater a maior inflação em 40 anos?
Papadakis: A aceleração da inflação é realmente a razão pela qual o BCE implementará um aperto monetário – inflação alta significa que a postura da política precisa ser restritiva. Agora, o que achamos importante destacar, no caso da zona do euro, é que muito da aceleração da inflação que estamos acompanhando é importada, tendo origem nos preços mais altos de energia e gás. Isso não significa, necessariamente, que há um excesso de demanda na economia, mas sim que estamos enfrentando um choque de oferta. Portanto, esperamos que o BCE aperte pelo menos até que a política passe de acomodatícia à neutra. Realmente não achamos que o banco central possa entrar em território restritivo e a razão para isso é exatamente a natureza da inflação. Sim, a inflação acelerou, mas veio principalmente de fatores externos e não do superaquecimento doméstico.
Valor: E qual a perspectiva de demanda na zona do euro?
Papadakis: As dinâmicas subjacentes nas economias dos EUA e da zona do euro são bastante diferentes. De fato, temos problemas de inflação em ambos os lados do Atlântico e vemos isso como uma razão para que o BCE conduza algum nível de aperto. No entanto, não achamos que a Europa esteja tendo o mesmo problema de excesso de demanda que os EUA, o que significa que a mesma quantidade de aperto da política monetária não é necessária na zona do euro. Sendo assim, não necessariamente veríamos essa dinâmica com base em uma relação um-para-um. O BCE vai subir as suas taxas, mas não na mesma medida. No passado, houve casos em que os ciclos monetários nessas duas regiões estavam totalmente correlacionados, mas também houve casos de divergência e esperamos ver uma divergência significativa desta vez.
Valor: Qual é a expectativa da instituição para o ciclo de alta de juros do BCE?
Papadakis: Nossa expectativa é que o ciclo de alta comece, de fato, nesta quinta, com uma alta de 25 pontos-base [ou 0,25 ponto percentual]. Acreditamos que, na reunião de setembro, o banco vai acelerar seu ritmo para 50 pontos-base, tendo em vista que a autoridade já nos orientou dizendo que, a menos que a perspectiva de inflação alivie, o ritmo de aperto teria de ser acelerado. Os dados que dispomos atualmente já sugerem que a perspectiva de inflação não deve aliviar nos próximos meses. Também esperamos outro aumento de 50 pontos-base em outubro, e somente próximo ao final deste ano é que o ritmo de aumento cairá para 25 pontos-base por reunião. A essa altura, acreditamos que o BCE continuará o aperto até que a taxa básica atinja um máximo de 1,25%. Partindo do atual ponto inicial de -0,50%, isso representa aumento cumulativo de 175 pontos-base de aperto. A razão pela qual achamos improvável que o BCE vá muito além disso está relacionada aos fatores que já mencionei.
Valor: Aumentar os juros é uma boa política para conter a inflação provocada por choque de oferta?
Papadakis: Para os bancos centrais é sempre muito mais fácil lidar com questões de demanda. Como mencionei antes, a alta da inflação que o euro está enfrentando advém em grande parte de choques de oferta. Ainda não está muito claro se o aperto do BCE terá muito efeito nesta frente. O aperto com certeza irá gerar uma desaceleração do crescimento, mas será que a política vai ser capaz de controlar a inflação na medida em que o banco central deseja? Dado o contexto, esse é um ponto um pouco mais contestável em nossa opinião.
Valor: O estresse no mercado de títulos de países periféricos, o movimento conhecido como “fragmentação”, é um temor real?
Papadakis: O BCE optou por usar o termo “fragmentação” para designar o estresse que vem sendo observado nos mercados de títulos de países periféricos, e talvez isso seja um pouco mais discutível enquanto conceito. Acho que o BCE se concentrou na questão da fragmentação porque isso o permitiria agir para combatê-la. Basicamente, estamos falando do aumento dos rendimentos dos títulos e do aumento dos spreads dos títulos na periferia da zona do euro e, mais especificamente, na Itália. Isso ocorreu principalmente como resultado das expectativas de aumento das taxas, mas também reflete, até certo ponto, a incerteza sobre outros fatores que afetam essas perspectivas, como é o caso da instabilidade política na Itália. Então, nesse sentido, o medo é definitivamente real, porque atingimos níveis bastante altos para os padrões históricos, o que tem levantado questões sobre a sustentabilidade da dívida e certamente demanda uma resposta. Se o BCE será o ator certo, com um plano de ação adequado nesta frente, ainda está em aberto, e essa é talvez a parte mais interessante da reunião desta semana. Ainda não sabemos bem o que a autoridade fará para combater a fragmentação.
Valor: E com o juro maior nos Estados Unidos, possivelmente a desvalorização do euro pode não ser tão temporária?
Papadakis: Existem vários fatores que estão empurrando o euro para baixo e o dólar para cima neste momento. É claro que temos ciclos de política monetária que provavelmente divergirão porque esperamos um caminho de aperto muito mais íngreme para o Federal Reserve do que para a zona do euro – o que já aponta para um euro mais fraco. Em geral, não é apenas o Fed, mas estamos em um ciclo global de aperto e em ambientes como esse, onde a liquidez é ameaçada pela alta dos juros ou pelo aperto nos balanços, o dólar tende a se valorizar. Assim, enquanto o ciclo se mantiver, acreditamos que uma pressão adicional de valorização deve incidir sobre o dólar e, como resultado, o euro tende a desvalorizar em relação ao dólar. Além disso, a Europa enfrenta riscos adicionais, como o próprio risco de fragmentação que discutimos anteriormente, mas, sobretudo, os riscos de natureza geopolítica, que têm o potencial de pressionar por uma desvalorização extra do euro. Notadamente, se o risco atrelado à interrupção total ou parcial do fornecimento de gás russo se materializar. Nesse caso, o euro desvalorizaria ainda mais. Se você juntar tudo isso, terá três ou quatro fatores que apontam para a mesma direção. Nós não acreditamos que já chegamos ao final desse processo, então esperamos que a taxa de câmbio do euro continue abaixo da paridade com o dólar.
Fonte: Valor Econômico