Por Adriana Cotias — De São Paulo
25/03/2024 05h02 Atualizado há 6 horas
A italiana Azimut abriu para captação no Brasil um fundo que compra cotas da sua carteira global Azimut Automobile Heritage Enhancement (AHE), que investe em carros clássicos de luxo de marcas como Alfa Romeo, Bugatti, Ferrari, Maserati, McLaren, Mercedes, Pagani e Porsche. A estratégia de investimento, lançada na Europa no segundo semestre do ano passado, busca capturar ganhos de capital com a compra e venda de veículos icônicos, restauração, aquisição e gestão de coleções inteiras, além de protótipos e obras de arte relacionadas ao universo automobilístico.
A escolha do Brasil para integrar essa oferta – num primeiro momento, exclusiva para clientes do braço de gestão de fortunas -, decorre da leitura de que o investidor alvo nutre a dupla paixão por carros e corridas automobilísticas. Pilotos como Ayrton Senna, Nelson Piquet e Emerson Fitipaldi ocuparam as pistas da Fórmula 1 ao longo da história e também a memória afetiva do brasileiro em disputas dominicais. Nas ruas ou em coleções particulares, veículos clássicos são o sonho de consumo ao alcance de uma ínfima parcela da população.
Esse clube de milionários pode se interessar pela tese que se fundamenta no resistente mercado de automóveis clássicos de luxo, que neste ano pode chegar a US$ 43 bilhões, segundo estimativas da Statista Research Department. Mas a ambição da Azimut é também conquistar bolsos menores, com um fundo com aplicação mínima de R$ 300 mil.
“Os investidores podem ganhar com o fato de esperarmos que o mercado de automóveis clássicos, os hipercarros e os supercarros [com valor acima de €1 milhão], de produção muito limitada, aumentem de valor de tempos em tempos porque existe um desequilíbrio estrutural entre a procura e a oferta”, diz Giuseppe Pastorelli, gestor-sênior da Azimut, que integra da equipe de gestão do fundo AHE. “Diferentemente de outras categorias de luxo, isso é único porque a procura asiática está completamente ausente deste mercado devido à legislação. Eles não podem importar carros usados e por isso não são colecionadores.”
O gestor diz haver uma discussão concreta dentro do governo chinês sobre a abertura do mercado. Enquanto a procura por artigos de grifes luxuosas é 40% composta por chineses e depois por outras nacionalidades asiáticas, o mercado de automóveis é muito menos acessado, continua Pastorelli. Ele fez uma recente passagem pelo Brasil para apresentar o racional do investimentos a um grupo de convidados na loja da Ferrari, no Jardim América, em São Paulo.
A gestora selou uma parceria estratégica com a montadora italiana para adquirir veículos de edição limitada com desconto para a sua carteira. Um chamariz para os aficcionados é que a Azimut poderá oferecer aos investidores do AHE tanto experiências na pista como em eventos na sede da Ferrari, em Maranello.
O fundo AHE global reúne hoje o equivalente a € 100 milhões. Um dos carros que integram a carteira é o 499 Hypercar, da Ferrari, que venceu no ano passado o famoso circuito 24h de Le Mans, superando a favorita Toyota e interrompendo quase seis décadas da escuderia italiana sem títulos na competição.
Como consultor externo do fundo, a Azimut conta com Alberto Schon, principal executivo da Rossocorsa, que na origem foi uma concessionária da Ferrari e que hoje possui o único centro de certificação “Ferrari Classiche”, na Itália, para reparação e restauração de carros clássicos. A companhia atuará como provedora do fundo de valorização do patrimônio na organização logística.
Nos últimos dez anos, aumentou o interesse de famílias e indivíduos ultrarricos em investimentos que não estejam diretamente ligados ao mercado financeiro ou ao setor imobiliário, diz Giuseppe Perrucci, CEO da Azimut Brasil e membro da Azimut International. “Carros exclusivos de prestígio são a classe que mais ganhou valor em comparação a outros ativos reais”, afirma.
Conforme dados compilados pela Knight Frank Research, o segmento teve valorização de 185% na década encerrada em 2022, à frente do mercado de vinhos, com ganhos de 162%, ou o de diamantes coloridos, com 116%.
Wilson Barcellos, que comanda o braço de gestão de patrimônio da Azimut no Brasil, acrescenta que no seu histórico lá fora, desde agosto, o fundo teve valorização de 9% em dólar, uma diversificação em moeda forte bem-vinda, que não tem correlação com nada no Brasil, como o real, ações ou as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B).
Apesar de no Brasil o fundo estar sob a casca de um multimercado de crédito privado investimento no exterior, não há títulos de dívida na carteira global, afirma Barcellos. O veículo, em Luxemburgo, se encaixa nas regras dos investimentos alternativos. Será em dólar, sem hedge cambial, com carência de 24 meses para saques, depois possibilitando resgate anual, com a conversão da liquidez 12 meses após o pedido do cotista. A taxa de administração é de 0,8% ao ano, sem taxa de performance.
A Azimut reúne hoje cerca de US$ 60 bilhões, é listada na bolsa de Milão. No Brasil, a gestora é dona da AZ Quest (com cerca de R$ 25 bilhões). Em gestão de patrimônio tem R$ 11 bilhões, com planos de chegar à casa dos R$ 30 bilhões até 2025 via crescimento orgânico e por meio de aquisições, segundo Barcellos.
Fonte: Valor Econômico
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