Por Anaïs Fernandes, Victor Rezende e Matheus Prado — De São Paulo
10/01/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
Os ataques de bolsonaristas radicais aos Três Poderes no domingo passada ampliam as incertezas sobre o andamento da agenda econômica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo economistas.
“Tudo o que aconteceu fornece ao novo governo, que estava muito preso à narrativa econômica e fiscal, uma nova narrativa”, afirma Tony Volpon, que já foi diretor do Banco Central. “A médio prazo, tenho preocupação de que os eventos de domingo delimitem espaço de recomposição de receita”, aponta o economista, ao lembrar que o mercado já se frustrou em relação à medida de desoneração dos preços dos combustíveis, que foi prorrogada na virada do ano.
Paulo Clini, diretor de investimentos da Western Asset, afirma que os investidores já estavam preocupados com a agenda econômica do governo “e não dá para dizer que as perspectivas para a economia pioraram” após os ataques em Brasília. “O que foi ficando claro com o passar das horas, e o mercado mostrou ontem, é que o impacto econômico dos atos é limitado num primeiro momento”, diz.
Ainda assim, Clini compartilha a opinião de que é preciso entender se a pauta econômica perderá prioridade à frente. “Existe a possibilidade de o governo ficar mais temeroso com possíveis manifestações e postergar medidas impopulares de aumento de arrecadação e cortes de gastos que o [ministro da Fazenda, Fernando] Haddad havia anunciado. Isso arrastaria a agenda para frente e pode gerar efeitos secundários”, afirma.
Para o Credit Suisse, os acontecimentos dos últimos dias “podem atrasar por algum tempo a discussão da agenda econômica, mais especificamente, do plano de ajuste fiscal de médio prazo”, escrevem a economista-chefe Solange Srour e os economistas Rafael Castilho e Francisco Lima Filho em relatório. “Vemos como muito improvável o anúncio de uma revisão das medidas de desoneração fiscal (principalmente nos combustíveis).”
Resta saber, segundo os economistas do banco, se o novo governo dará sinais mais efetivos de comprometimento com a estabilidade das contas públicas. “A nova equipe econômica tem afirmado que deve ser possível fazer um ajuste fiscal que eleve a arrecadação em até R$ 223 bilhões em 2023, mas sem detalhes específicos até o momento sobre como fazê-lo e olhando mais para receitas extraordinárias do que para reduzir despesas”, afirmam.
Parte importante do plano que parece estar sendo desenhado pela Fazenda é entregar um déficit primário menor que o esperado neste ano, além de uma nova âncora fiscal e de uma reforma tributária, aponta Volpon. Ele observa, porém, que projetos cujos efeitos serão vistos mais no médio prazo podem se favorecer.
“Quando um evento que canaliza as atenções acontece, outros assuntos acabam indo para o segundo plano. Isso pode ser positivo porque pode dar tranquilidade à equipe da Fazenda para trabalhar e detalhar o plano de recomposição de receitas e trabalhar mais nas propostas de reforma tributária e da nova âncora fiscal”, pondera o economista.
Fonte: Valor Econômico


