Por Larissa Garcia e Alex Ribeiro — De Brasília e São Paulo
14/12/2022 05h01 Atualizado há 7 horas
Embora tenha pregado “serenidade” na avaliação dos riscos fiscais, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reforçou, na ata de sua última reunião, divulgada ontem, que as decisões do governo sobre as contas públicas podem impactar a inflação por diversos canais, não só por meio da demanda, mas também via preços de ativos, grau de incerteza na economia, expectativas e taxa de juro neutra.
O documento trouxe um tom mais duro em relação a planos expansionistas em meio a ruídos em torno da política fiscal do governo eleito. O colegiado afirmou que mudanças em “políticas parafiscais” – como aumento de crédito subsidiado – ou a reversão de reformas estruturais “que levem a uma alocação menos eficiente de recursos” podem reduzir a potência da política monetária.
Segundo a ata, o Copom debateu “de forma extensa” os impactos de diferentes cenários fiscais sobre a inflação. “Nos diferentes exercícios analisados, avaliou-se que o efeito final, seja sobre a inflação ou sobre a atividade, dependerá tanto da combinação quanto da magnitude das políticas fiscal e parafiscal”, ressaltou.
Além disso, o BC disse que a existência de capacidade ociosa na economia e a confiança sobre a sustentabilidade da dívida são fatores determinantes para “uma política fiscal expansionista atingir os impactos almejados sobre a atividade econômica”, ou seja, para que não se torne contraproducente.
O Copom pontuou que a mediana das expectativas de inflação do mercado apresentou leve aumento para 2023 e se manteve estável para o ano seguinte, mas que “notou com preocupação” uma elevação na média das projeções para 2024. O texto chamou atenção, ainda, que a projeção de inflação acumulada em 12 meses no segundo trimestre de 2024 segue compatível com a “estratégia de convergência da inflação para o redor da meta”.
Na decisão da semana passada, o colegiado optou novamente por dar ênfase para a inflação acumulada em 12 meses no segundo trimestre de 2024, projetada em 3,3%. Normalmente, o BC mira na inflação dos anos-calendários fechados que estão dentro de seu horizonte de atuação.
Na avaliação do BC, a inflação de seis trimestres à frente “reflete o horizonte relevante”, período para o qual o BC entende que a política monetária faz efeito, e suaviza os efeitos diretos das mudanças tributárias, “mas incorpora os seus impactos secundários”. A ata reforçou que a mudança está condicionada ao “caráter temporário dos impostos” e que voltará a enfatizar o ano-calendário caso seja oficializada a prorrogação dos cortes tributários.
O BC observou que a inflação de serviços, que também é um dos pontos de atenção do Copom, “apresentou alguma moderação”, mas segue em níveis elevados. “O comitê avalia que o processo de desinflação de tal componente ficará mais claro ao longo do tempo”, disse. De acordo com a ata, houve redução no grau de ociosidade no terceiro trimestre deste ano, “em função de revisões de dados e divulgações de variáveis domésticas”, mas avaliou que o hiato do produto deve abrir até 2024.
O Copom destacou que a previsão para o ano-calendário de 2024 também se encontra “ao redor da meta”. “Essa avaliação reflete a visibilidade abaixo do normal do cenário prospectivo, que eleva a incerteza das projeções pontuais comunicadas pelo comitê em horizontes mais longos”, ponderou.
“Alguns membros notaram o movimento benigno de commodities em reais, ressaltando riscos de queda adicional à frente. Outros membros enfatizaram o caráter volátil desses preços em ambiente de estoques pressionados. Por fim, todos avaliaram que a inflação corrente não surpreendeu de forma relevante em relação à expectativa ou alterou substancialmente o entendimento a respeito da dinâmica futura de inflação”, detalhou o texto.
Além disso, esses membros ressaltaram que a desinflação de serviços e dos núcleos, componentes de maior inércia, demandarão “maior atenção e perseverança na condução da política monetária”.
Na última quarta-feira, o BC decidiu manter a Selic em 13,75% ao ano e afirmou que vai seguir avaliando se a estratégia de manter os juros por “período suficientemente prolongado” será suficiente.
Fonte: Valor Econômico