Por Victor Rezende — De São Paulo
20/12/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
Embora as taxas de juros no mercado futuro tenham se afastado dos níveis mais estressados de novembro, quando chegaram a embutir a possibilidade de a Selic chegar a 15% ao ano, os investidores ainda veem chance residual de algum aumento na primeira metade de 2023. Esse cenário não é dominante, mas, aos poucos, economistas de mercado começam a migrar para visões mais conservadoras em relação às expectativas para os juros. Assim, a aposta em uma Selic inalterada nos atuais 13,75% ao longo de todo o ano de 2023 ganha cada vez mais adeptos.
A Quantitas revelou ontem um novo cenário básico, no qual passou a esperar uma taxa básica de juros que se mantém parada em 2023 nos níveis atuais. “Já acumulamos informação suficiente para revisar nosso cenário de Selic para o próximo ano. Nós estávamos esperando para ver o que seria anunciado; quais seriam as políticas a serem adotadas ou negociadas; as preferências dos novos mandatários sobre política fiscal”, aponta o economista-chefe da gestora, Ivo Chermont, cuja expectativa anterior era de um início de redução nos juros no segundo trimestre.
Chermont aponta que o cenário-base da Quantitas não abarca “nenhuma grande estripulia fiscal” além da PEC da Transição. “O que está sendo feito com a PEC já é ruim o suficiente”, diz. Para o economista, sem novos gastos que gerem deterioração adicional dos ativos em 2023 e com o dólar oscilando até R$ 5,50, o Banco Central teria espaço para cortar juros em janeiro de 2024. “É o nosso cenário-base hoje.”
No Boletim Focus divulgado ontem pelo BC, a mediana das projeções dos economistas de mercado para a Selic no fim de 2023 se manteve em 11,75%. No entanto, a média das estimativas passou de 11,8173% para 12,0189%, o que pode indicar um viés altista nas estimativas para a taxa básica no próximo ano. Além disso, o ponto-médio das expectativas para a Selic no fim de 2024 subiu de 8,5% para 9%, o que fortifica a sensação de juros restritivos por mais tempo.
Na própria curva de juros esse sentimento ganha corpo. Toda a estrutura da curva terminou a sessão de ontem na casa dos 13%, o que dá fôlego à percepção de que cortes na Selic serão graduais e irão demorar para começar. Enquanto a taxa do DI para janeiro de 2025 terminou a segunda-feira cotado a 13,735%, o DI para janeiro de 2029 projetava uma taxa de 13,55%.
Na avaliação do economista-chefe para Brasil do Bahia Asset Management, Luiz Felipe Maciel, com o estímulo fiscal que será feito por meio da PEC da Transição e que impulsionará a demanda, a convergência da inflação para as metas será “mais difícil”. Não por acaso, o cenário-base da gestora carioca também abarca uma Selic que permanece inalterada em 13,75% em todo o ano de 2023.
“Se ficar claro que não vamos ter controle de gastos, as expectativas do Focus podem rodar em torno de 5%, a inflação vai ser mais alta e, aí, o Banco Central terá de reagir. Se a âncora fiscal proposta for crível, isso pode acalmar os agentes e o BC vai conseguir cortar os juros antes, mas menos do que se imaginava três meses atrás”, observa Maciel. O economista vê uma inflação próxima a 7% no próximo ano, que desacelera para cerca de 4% em 2024.
Embora espere uma Selic parada em 13,75% em 2023, Maciel diz achar “muito difícil” que a autoridade monetária volte a aumentar os juros. Para ele, sem uma deterioração relevante das expectativas inflacionárias de médio prazo – em torno de 0,5 ponto a 1 ponto percentual – e sem uma depreciação cambial relevante, de 10 a 15%, “a barra é alta para o BC subir os juros, por causa da inflação de curto prazo”. De acordo com o economista, a inflação corrente menor que as expectativas ajuda a ancorar o cenário prospectivo para a Selic.
No Boletim Focus divulgado ontem, houve pouco movimento nas expectativas de inflação, mas com alguns sinais que geram preocupação maior no mercado. Embora a mediana das projeções para o IPCA de 2024 tenha permanecido inalterada em 3,50%, o ponto-médio das estimativas para o IPCA de 2025, que não está no horizonte relevante da política monetária, subiu de 3,02% para 3,10%, o que reforça o sinal de alerta no mercado sobre a dinâmica inflacionária.
Já as medidas de inflação “implícita” de médio prazo, extraídas das NTN-Bs (títulos indexados ao IPCA), também mostram deterioração relevante. A inflação precificada pela NTN-B com vencimento em agosto de 2026 subiu de 6,41% no início da semana passada para 6,61% ontem, enquanto a inflação embutida na NTN-B para agosto de 2030 avançou de 6,46% para 6,66%.
Para o chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America, David Beker, a barra para novos aumentos na taxa de juros é alta, ao ter em vista que “o BC fez a lição de casa”. Os comentários foram feitos ontem, durante coletiva de imprensa. Beker revelou ainda a expectativa de que a Selic comece a ser reduzida em junho e termine o ano em 10,5% – cenário que, para ele, parece “agressivo”, dada a precificação do mercado de juros neste momento para a trajetória da Selic.
“No limite, o mercado está preocupado com a sustentabilidade fiscal do Brasil. A política fiscal expansionista gera um ônus sobre a política monetária. A questão é saber em qual nível a política fiscal pode afetar a monetária”, disse. Beker reconheceu, ainda, que aumentaram os riscos para uma postergação dos cortes na Selic em relação ao seu cenário atual, mas ressaltou que o juro real está em condições “extremamente restritivas”, apesar do viés de alta das expectativas de inflação. “O juro vai proporcionar uma desaceleração da atividade.”
Embora enfatize diversas vezes que seu cenário básico é o de manutenção do juro básico em 13,75% ao longo de 2023, Ivo Chermont, da Quantitas, traça cenários alternativos, de pessimismo fiscal ainda mais agudo, nos quais o BC se veria forçado a elevar novamente a taxa Selic no próximo ano e para níveis bem mais restritivos que o atual.
“Naturalmente, as coisas podem mudar bem depressa e podem tomar um caminho pior”, observa Chermont, ao apontar para o comportamento dos ativos financeiros brasileiros, em especial o do real, como um fator importante em relação às perspectivas para a política monetária mais à frente.
Se o dólar caminhar para o nível de R$ 6,00, a Quantitas calcula que seria necessária uma elevação de 3 pontos percentuais no juro básico, que iria, portanto, para 16,75%. “Caso o cenário seja ainda pior e o dólar vá para R$ 6,50 ou algo do gênero, a necessidade de aumento da Selic já seria da ordem de 6,5 pontos percentuais, o que levaria a Selic para a faixa de 20%. Isso não está no nosso radar hoje. Só estamos criando hipóteses mais pessimistas”, diz Chermont. (Colaborou Gabriel Roca)
Fonte: Valor Econômico
