Tatiana Pinheiro: “Real teria muito menos espaço para fortalecer com recessão nos EUA” — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
O processo de depreciação do câmbio na semana passada – quando o dólar chegou a R$ 5,79 – voltou a assustar os agentes econômicos e trouxe novamente à mesa a discussão sobre a chance de um retorno da moeda americana a níveis mais comportados. A forma como o Federal Reserve (Fed, banco central americano) irá conduzir a política monetária a partir de agora deve definir os rumos do dólar em nível global, na medida em que têm crescido os temores de uma desaceleração mais intensa que o esperado da economia dos Estados Unidos.
Ao Valor, os integrantes do Top 5 de médio prazo do relatório Focus, do Banco Central, para a taxa de câmbio, dizem esperar um alívio na cotação do dólar até o fim do ano. No entanto, há um viés de alta nas projeções para a moeda americana, que abarca, ainda, questões domésticas, em especial as incertezas sobre as contas públicas, que têm feito o real se destacar negativamente no ano contra outras moedas emergentes.
Embora este ainda não seja o cenário-base das casas que mais acertam as projeções de câmbio, o risco de um “pouso forçado” da economia americana cresceu na última semana devido a sinais mais claros de desaceleração da atividade e do mercado de trabalho dos EUA. A fraqueza dos dados, casada a uma postura mais preocupada de dirigentes do Fed com o mercado de trabalho, reacendeu a preocupação de que o longo período de juros altos nos EUA seja seguido por uma recessão, com reflexos nos mercados de câmbio.
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“Não necessariamente o dólar se enfraquece com ciclos de cortes nos juros do Fed”, alerta o economista Tomás Urani, do Santander. “Eu sempre gosto de pensar no ‘sorriso do dólar’: o dólar costuma se apreciar em cenários onde os EUA crescem muito mais que o resto do mundo ou em um cenário de recessão. Parece que o mercado, depois dos dados mais fracos nos EUA, saiu do cenário onde os EUA cresciam muito mais para um ambiente de ‘hard landing’ [pouso forçado]. O mercado pulou de uma ponta para outra do ‘sorriso do dólar’”, nota o economista. Não por acaso, na sexta-feira, a moeda americana chegou a flertar com o nível de R$ 5,80.
Para ele, há um exagero na discussão de um “pouso forçado” da economia americana neste momento e há, em alguma medida, uma moderação da atividade nos EUA para níveis “mais normais”. Urani lembra, ainda, que o câmbio doméstico é bastante influenciado pelos fatores globais, embora as questões locais também sejam bastante relevantes. “Dadas as novas informações, vejo uma assimetria para que haja revisões para cima”, diz o economista, ao lembrar que, no momento, o Santander trabalha com uma projeção de dólar a R$ 5,30 no fim deste ano.
O desconforto com a economia americana veio em um momento negativo para o câmbio. O real já mostrava um movimento relevante de depreciação desde abril, diante de revisões das metas fiscais de 2025 e 2026; troca no comando da Petrobras; desconfiança com os rumos da política fiscal; e incerteza com a condução futura da política monetária. Além disso, nas últimas semanas, um desmonte de operações de “carry-trade” (o investidor capta em mercados com taxa mais baixa e aplica em outros com juros mais altos) envolvendo o iene também afetou em cheio o real.
No acumulado do ano, o dólar sustenta uma valorização de 17,65% contra o real, o que torna o real, de longe, a moeda de pior desempenho no ano. Entre outros mercados emergentes, o dólar sobe 12,97% ante o peso mexicano; 14,07% contra a lira turca; 6,78% frente ao peso chileno; e 4,43% em relação ao peso colombiano.
Para o economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles, nem mesmo uma redução mais agressiva dos juros americanos seria suficiente para dar sustentação ao real e a outras moedas emergentes em um contexto de desaceleração forte nos EUA. “Se, de fato, a economia americana estiver à beira de uma recessão, só de o Fed reagir a isso já tende para um dólar forte, não fraco”, diz.
Embora mantenha a projeção de dólar a R$ 5,50 no fim de 2024, Salles admite que uma revisão de alta provavelmente será necessária se o cenário de queda brusca da atividade americana se materializar. Por enquanto, ele diz não ter clareza se a desaceleração será moderada ou mais forte e avalia que o último movimento de depreciação do real – que jogou o dólar a um nível acima de R$ 5,70 – é “natural” diante das condições atuais.
A economista-chefe para Brasil da Galapagos Capital, Tatiana Pinheiro, concorda que uma desaceleração severa da economia dos EUA é um risco negativo para as moedas emergentes, mas, por enquanto, trabalha com um contexto de enfraquecimento moderado, com dólar a R$ 5,25 no fim do ano.
Entre as premissas dessa projeção, Pinheiro cita “a economia americana em desaceleração suave, iniciando corte de juros em setembro e novas medidas de contenção de gastos sendo anunciadas pelo Ministério da Fazenda brasileiro e lei orçamentária de 2025 cumprindo a meta de déficit zero”. Para ela, uma recessão nos EUA, por outro lado, aumentaria a aversão ao risco, e o real teria “muito menos espaço para se fortalecer”.
Para Salles, do C6, os fatores que tendem a afetar a moeda brasileira também podem vir do cenário doméstico. Ele avalia que a desconfiança do mercado quanto à pauta fiscal do governo tem chance de voltar a incomodar o câmbio, mesmo depois do salto do dólar entre junho e começo de julho, quando a moeda americana saiu da casa de R$ 5,20 até um pico de R$ 5,70.
“As despesas obrigatórias estão crescendo em ritmo forte, a margem de manobra é muito pequena e a gordura que tinha já foi. Qualquer surpresa nos gastos, para mim, representa um risco que pode se materializar no câmbio”, diz.
O mal-estar com as contas públicas é, inclusive, a razão pela qual Salles acredita que o real deve patinar em relação às moedas da América Latina. “À frente eu vejo o real ‘andando de lado’ ou ainda nesse processo de desvalorização”, diz o economista, ao ressaltar que seu cenário não contempla uma depreciação grande do real ante os pares, a menos que a questão fiscal volte a incomodar e seja necessário um contingenciamento grande de gastos.
O chefe da estratégia macro para América do Sul do Rabobank, Mauricio Une, diz que já havia mapeado uma piora no câmbio para meados deste ano, mas pondera que o terceiro trimestre começou com uma depreciação do real ainda maior que as expectativas.
“O mercado tem ficado mais ansioso não só sobre quando e como o Fed irá cortar os juros, mas em relação ao estágio em que a economia americana estará quando os cortes começarem. Isso tende a gerar um cenário de maior volatilidade para os ativos de risco. E, no campo doméstico, fomos surpreendidos porque não esperávamos que houvesse uma correção de expectativas fiscais, de que o governo fosse, por exemplo, mudar as metas fiscais. Isso aumenta a volatilidade idiossincrática do real, que é a pior moeda do ano”, diz Une.
Para ele, quando o mercado tiver certeza de que o Fed irá cortar os juros com uma economia ainda em “pouso haverá um distensionamento da volatilidade, o que pode permitir ao Brasil ter mais espaço para lidar com as questões internas em relação às dúvidas fiscais. “Talvez isso seja suficiente para vermos o dólar próximo a R$ 5,20 no fim do ano, mas estamos sendo surpreendidos por dados piores da economia americana… Pode ser que tenhamos de refazer a cabeça se, de fato, as condições financeiras não distensionarem quando o Fed começar a cortar os juros”, alerta.
Fonte: Valor Econômico

