A disparada do Ibovespa desde a virada do ano deu lugar, nas últimas semanas, a uma redução no apetite pelas ações brasileiras. O sentimento dos investidores, contudo, segue amplamente positivo, o que reforça a percepção de que a bolsa, embora não seja mais uma “barganha”, pode embarcar em um novo rali, afirma o estrategista-chefe do Itaú BBA, Daniel Gewehr. Ele vê potencial de retorno total combinando dividendos e crescimento dos lucros de 20% em 12 meses.
Um levantamento do BBA com 107 investidores institucionais de casas domésticas e estrangeiras mostrou que, em grande parte, continua a imperar um sentimento positivo sobre a bolsa. Na escala entre “risk on” (cenário favorável a risco) e “risk off” (cenário negativo para ativos de risco), que mede a propensão ao risco dos investidores, houve uma redução da média de 3,53 no fim do ano passado para 3,23 agora, em um sinal de apetite ligeiramente menor pela bolsa, mas ainda em níveis amplamente positivos.
Do total de entrevistados na pesquisa, 77,6% mantiveram uma visão otimista para as ações brasileiras, contra 78,7% na sondagem realizada em dezembro. Outros 19,6% adotaram postura neutra agora, enquanto apenas 2,8% se declararam pessimistas. A média dos entrevistados espera que o Ibovespa rompa a barreira dos 200 mil pontos e alcance 212,4 mil pontos no fim deste ano, o que representaria uma valorização de 13% em relação ao fechamento de ontem.
Do lado do “buy side”, Gewehr dá ênfase a dois pontos de preocupação que emergiram em conversas recentes: o ciclo de crédito, especialmente o comportamento do agronegócio e da pessoa física nos próximos trimestres; e o nível de “valuation” das ações, ainda que cerca de dois terços da bolsa negociem abaixo da média histórica. “Alguns casos de recuperação judicial também entram nessa discussão. Bancos estatais tendem a sofrer mais com o agro. Além disso, há a percepção de que o ‘valuation’ de alguns bancos já não está tão atrativo frente aos pares”, afirma o estrategista.
O recuo no otimismo veio na esteira de uma piora na percepção de risco refletida nos juros de longo prazo, já que a média da projeção para os juros nominais de 10 anos subiu de 12,2% para 12,6%. “Isso foi influenciado por uma expectativa de Selic mais elevada em 2026 – hoje em torno de 13% -, contra algo mais próximo de 12% no período anterior”, diz. “Ou seja, o ciclo de política monetária é visto como mais restritivo que o esperado, e isso piorou na margem o apetite a risco”, acrescenta Gewehr.
O levantamento do Itaú BBA também captura uma melhora no humor em relação às bolsas americanas, o que guarda relação com a rotação mais recente, com saída de recursos de mercados emergentes e retorno para ações de tecnologia nos Estados Unidos. Não por acaso, os índices S&P 500 e Nasdaq operam em níveis recordes.
“Taiwan e Coreia do Sul foram os mercados com melhor desempenho nos últimos 20 dias, refletindo uma realocação para tecnologia dentro de emergentes”, afirma Gewehr. Segundo ele, o movimento está ligado à busca por crescimento mais previsível. “Se o petróleo sobe muito (acima de US$ 120), pressiona inflação e política monetária, o que favorece as ‘techs’.”
No Brasil, o mercado ficou “esticado” no curto prazo, com o Ibovespa e o EWZ (principal fundo de índice de ações brasileiras em Nova York) negociando acima da média dos últimos seis meses. Em momentos de “overbought” (sobrecompra), aumenta a probabilidade de uma correção no curto prazo, diz o estrategista.
Ao observar as alocações, Gewehr nota que o investidor ficou mais defensivo após a guerra no Irã. O setor de utilidades públicas, que já era um dos mais “overweight” (OW, com exposição acima da média), ganhou ainda mais espaço: 64,5% dos investidores classificam o segmento como OW. Antes mais concentrada em locais, a posição passou a contar também com maior participação de estrangeiros, com cerca de 43% posicionados como OW.
No entanto, chama atenção a perda de força do setor bancário. Mesmo classificado como “overweight” por 41,1% dos entrevistados, 28% dos participantes colocaram as ações com posição “abaixo da média de mercado”. “Apesar da piora na margem, ainda há presença forte dos bancos nas carteiras”, pondera Gewehr. Entre as principais posições seguem BTG Pactual, Itaú e Nubank – este último mais preferido por estrangeiros, enquanto o BTG tem maior presença em São Paulo, e o Itaú aparece com uma base mais mista. Já o Bradesco tem menor relevância relativa, afirma.
Entre as principais escolhas de ações, o destaque é para Auren Energia, Axia Energia (ex-Eletrobras) e outras ligadas ao setor, com interesse tanto de locais quanto de estrangeiros. Na avaliação dos estrangeiros, que representaram cerca de 20% dos entrevistados, há uma visão de preço de energia mais alto no médio prazo.
“Uma tese relevante é a de que, embora o petróleo tenha um impacto mais tático, o custo de energia global tende a subir estruturalmente, impulsionado por temas como inteligência artificial e demanda por eletricidade, o que favorece renováveis e geração”, explica o estrategista.
Um alerta de Gewehr se dá em relação a uma possível revisão para baixo de lucros nos próximos meses, especialmente diante de pressão de custos, logística e matérias-primas. “O mercado não tem muita expectativa para a temporada de resultados do primeiro trimestre. Apenas cerca de 7% esperam um cenário de ‘beat and raise’, ou seja, empresas superando expectativas e revisando projeções para cima, e a leitura é de que o quarto trimestre foi melhor nesse sentido”, diz.
Assim, o Itaú BBA prefere alocações em “large caps” (empresas de grande capitalização) de qualidade, com interesse em “bond proxies” (companhias com características semelhantes a títulos de renda fixa), com resultados mais previsíveis e indexados à inflação – em linha com um ambiente mais cauteloso e seletivo.
Fonte: Valor Econômico
