A estreia da SpaceX na Nasdaq, em 12 de junho, marcou o maior oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) da história e pode ter dado início a uma intensa disputa por recursos entre as gigantes da tecnologia.
Após o estouro da bolha da internet no início dos anos 2000, muitas empresas americanas optaram por fechar o capital para escapar dos custos crescentes e das exigências regulatórias associadas à manutenção de uma listagem em bolsa. Agora, esse movimento pode estar começando a se inverter.
A abertura de capital da SpaceX inaugura uma nova onda de captações entre os grandes grupos de tecnologia dos Estados Unidos. Em sua estreia, o conglomerado de aeroespacial e inteligência artificial (IA) levantou US$ 75 bilhões, quase três vezes o recorde anterior de US$ 29,4 bilhões obtido pela Saudi Aramco em 2019.
As gigantes americanas enfrentam uma pressão crescente para financiar investimentos em inteligência artificial, que devem alcançar centenas de bilhões de dólares por empresa. A Alphabet, controladora do Google, anunciou no início de junho um plano de captação de US$ 84,7 bilhões por meio da emissão de ações. Já a Oracle pretende levantar US$ 40 bilhões combinando emissões de dívida e ações. Segundo o Financial Times, a Meta também avalia uma oferta de ações que pode render dezenas de bilhões de dólares.
Anthropic e OpenAI, que disputam a liderança no mercado de IA generativa, também aceleram seus planos de abertura de capital após a SpaceX. As duas empresas devem estrear na bolsa entre setembro e outubro e captar cerca de US$ 50 bilhões cada.
O Goldman Sachs estima que as emissões de ações das empresas americanas somarão neste ano o equivalente a 1,8% do valor de mercado agregado dessas companhias, ante 0,6% no ano passado. O percentual já se aproxima dos 2% representados pelas recompras de ações. Se a tendência continuar, as emissões poderão superar as recompras pela primeira vez em 23 anos.
A mudança seria significativa para o mercado acionário dos EUA. Nos últimos anos, a bolsa passou a ser utilizada principalmente como mecanismo de devolução de capital aos acionistas, por meio de recompras, e não como fonte de recursos para expansão dos negócios. A nova corrida por financiamento pode recolocar o mercado em seu papel tradicional de impulsionador do crescimento empresarial.
Uma sequência de IPOs gigantes também pode sinalizar a reversão de uma tendência de cerca de 25 anos de fechamento de capital das empresas.
Esse movimento ganhou força após o estouro da bolha das empresas de tecnologia, em 2000. Escândalos contábeis envolvendo companhias como a Enron e a WorldCom levaram à aprovação da Lei Sarbanes-Oxley, que ampliou significativamente as exigências de conformidade para empresas listadas. Com o aumento dos custos, muitas optaram por fechar o capital.
Como consequência, o número de empresas listadas nos EUA caiu para 3.908 em 2025, ante 8.090 em 1996.
Grande parte dessas companhias foi adquirida por fundos de private equity e venture capital. Com a valorização das ações impulsionada pelo boom da inteligência artificial, esses investidores e os fundadores de startups podem enxergar o momento atual como uma oportunidade ideal para realizar ganhos.
Embora alguns analistas questionem se o mercado será capaz de absorver uma onda tão grande de IPOs, Ryota Sakagami, estrategista da Citigroup Global Markets Japan, avalia que a liquidez global continua abundante.
Segundo ele, o excesso de dinheiro disponível nos mercados financeiros oferece capacidade suficiente para acomodar uma forte expansão das captações.
Parte dessa liquidez vem da China. Enquanto EUA, Europa e Japão caminham para juros mais elevados, a segunda maior economia do mundo segue afrouxando sua política monetária. Como os investimentos produtivos permanecem fracos, parte desse capital excedente acaba migrando para os mercados financeiros globais, contribuindo para a valorização das bolsas.
A esperada onda de megacaptações inaugurada pela SpaceX reúne, segundo o texto, três características clássicas de uma bolha financeira: inovação tecnológica transformadora, excesso de liquidez e forte apetite especulativo dos investidores individuais.
O terceiro elemento já estaria visível nas ações da SpaceX e tende a aparecer também nas ofertas públicas de Anthropic e OpenAI nos próximos meses.
Ainda é impossível saber se as elevadas avaliações das líderes em inteligência artificial representam uma bolha destinada a estourar ou se os lucros futuros justificarão os preços atuais. Seja qual for o desfecho, o sucesso de investidores e empresas dependerá da capacidade de navegar essa nova onda de entusiasmo em torno da IA.
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Fonte: Valor Econômico


