A Bolsa brasileira chegou ao final de 2025 com desempenho expressivo, impulsionada por uma combinação de fatores externos favoráveis, valuation deprimido no ponto de partida e rotação global de portfólios para fora dos Estados Unidos. Em dólares, o resultado foi ainda mais relevante, apesar da realização recente observada em dezembro. Ainda assim, analistas ouvidos pela Capital Aberto apontam que o Ibovespa poderia ter avançado mais não fossem o desempenho fraco das commodities e as incertezas fiscais domésticas. Em 2025, o Ibovespa fechou em 161.600,35 pontos, alta de 34% sobre o ano anterior. Já no primeiro pregão do ano (2), o índice terminou o dia em 160.539,21 pontos, em uma pequena baixa de pouco mais de 0,3% em relação ao último pregão de 2025, no dia 30 de dezembro.
Para Fernando Siqueira, head de research da Eleven, o principal vetor do movimento foi o ponto de partida favorável. “A gente começou o ano muito mal, terminou 2024 muito mal, a bolsa caiu muito na época com a correção fiscal e ficou fácil para você ter uma alta em 2025”, afirmou. Em 2024, o recuo do Ibovespa foi de 10,36%. O especialista também destacou o ambiente externo como determinante. “Foi um ano bom em termos globais, a taxa de juros caiu no mundo inteiro, o que foi positivo para as bolsas no mundo inteiro.”
Na avaliação de Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos, o pano de fundo internacional também foi decisivo. “O que teve como pilar central, ou seja, como justificativa para essa alta, foi o movimento de queda de juros nos Estados Unidos e enfraquecimento do dólar”, disse. Ainda segundo ele, esse cenário permitiu uma maior tomada de risco por parte do investidor estrangeiro e beneficiou não apenas o Brasil, mas outros mercados emergentes.
A rotação de fluxos globais também aparece como elemento central na leitura de Frederico Nobre, gestor da Warren. “É natural também que haja uma rotação de alocação para uma saída dos Estados Unidos, uma migração para outros países, para alocação em equities em outros países”, afirmou, citando dúvidas em relação aos níveis de valuation das empresas de tecnologia norte-americanas e à sustentabilidade do ciclo de investimentos em inteligência artificial.
No front setorial, o desempenho foi marcado por forte dispersão. Siqueira destaca que empresas ligadas à economia doméstica superaram as exportadoras: “Do lado positivo, o que mais surpreendeu foi principalmente empresas de educação, mas também empresas de construção que tiveram um desempenho muito bom”, afirmou. Por outro lado, “o que teve desempenho ruim no ano foi essa parte de empresas exportadoras, principalmente nesse grupo de commodities”.
Já para Villegas, a grande surpresa no ano foi o setor de construção civil. Em sua análise, ele citou a resiliência das incorporadoras mesmo em um ambiente de juros elevados. O estrategista também apontou o setor educacional e o financeiro entre os destaques positivos, enquanto commodities e empresas mais alavancadas ficaram para trás.
Apesar do bom desempenho do índice, o papel do fiscal divide opiniões. Para Siqueira, o tema teve peso menor entre grandes investidores, tendo sido uma questão que funcionou mais como “uma nuvem de fumaça que evitou que muita gente entrasse na bolsa esse ano”.
Villegas, por outro lado, vê o fiscal como um dos principais limitadores. “Não fosse o fiscal tão aberto, tão atuante de maneira expansionista, acredito que poderia já ter espaço para uma redução da taxa de juros aqui no Brasil”, disse. Na sua avaliação, o cenário fiscal contribuiu para uma postura mais restritiva do Banco Central e impediu um desempenho ainda mais forte da renda variável.
Em relação ao fluxo de estrangeiros no mercado nacional, os entrevistados voltam a convergir no entendimento de que foi um elemento-chave em 2025. “O ano inteiro a gente viu investidores estrangeiros sendo mais compradores do que vendedores”, afirmou Siqueira. Nobre reforça que, quando analisada em dólares, a Bolsa brasileira teve desempenho competitivo. “O investidor internacional que alocou em EWZ ganhou mais dinheiro do que o cara que alocou só em emergentes”, disse.
Para 2026, o cenário base segue construtivo, mas com aumento da volatilidade. A expectativa de início do ciclo de corte da Selic é vista como positiva, ainda que em ritmo moderado. “Mesmo os juros caindo pouco, historicamente isso já é positivo”, afirmou Siqueira. Ao mesmo tempo, o ano eleitoral surge como principal fonte de risco. “Vai ser um ano mais volátil por conta das eleições”, complementou.
Nobre compartilha da leitura. “As eleições também vão começar a trazer uma volatilidade do mercado”, afirmou, citando episódios recentes como indicativos do comportamento à frente. Villegas é mais direto ao apontar o peso do processo político, e afirma que “o ano eleitoral pode travar retorno mais forte da Bolsa em 2026”, destacando que o impacto dependerá da combinação entre cenário externo e resultado eleitoral.
Em termos de valuation, a avaliação é de que o mercado já não está barato como no início de 2025. “Eu acho que está mais ou menos justo”, acrescentou Siqueira. Para ele, o espaço para alta em 2026 virá menos de reprecificação e mais da melhora dos fundamentos, com crescimento de lucros e redução gradual dos juros.
Nesse cenário, a leitura predominante é de que 2026 tende a ser um ano menos dependente de reprecificação e mais ancorado na evolução dos fundamentos. A Bolsa já não apresenta o mesmo desconto observado no início de 2025, o que reforça a necessidade de maior seletividade por parte dos investidores. A confirmação do início do ciclo de corte de juros, a dinâmica do fluxo estrangeiro e, sobretudo, o avanço do calendário eleitoral devem determinar o ritmo e a volatilidade do mercado ao longo do próximo ano, em um ambiente ainda sensível a mudanças no cenário externo e às incertezas da política econômica doméstica.
Fonte: Capital Aberto
